quarta-feira, 29 de abril de 2020

A excepção (dos factos)

Assistimos a um acontecimento planetário em tempo real que nos remete para um universo ficcional, distópico e incerto, materializado por algo que nunca desejamos experienciar e que “até agora considerávamos impossível” (Slavoj Zizek, 12/04/20).

A percepção do que nos é dado a ver (ler) é a de que nada será como dantes e (ainda) sabemos muito pouco de como as coisas se irão processar daqui para a frente.

O tempo é de incerteza e de muitas perguntas sem resposta, a que se junta um distanciamento social (quase obrigatório), forçado pela emergência de um “estado de excepção” (Giorgio Agamben, 2003).

A internet nunca foi tão importante, como agora, na manutenção da normalidade (possível). E por possibilitar a proximidade social determinada por um período de distanciamento geográfico que nos impossibilita uma interação convencional mas que tem permitido manter, em padrões minimamente aceitáveis, parte da economia (e da nossa vida profissional) e o acesso a serviços essenciais, sejam nas plataformas públicas, na aquisição de produtos alimentares, no entretenimento ou na informação.

Nesta experiência civilizacional, a dependência de uma boa rede de comunicações passou a ser vital e, sem dramatizar, um factor de sobrevivência.

A falta de uma estratégia comum no combate à pandemia é, muito provavelmente, o maior falhanço (político) europeu (e mundial) após a segunda grande guerra. Perante o estado de emergência em que nos encontramos, seria exigível - a quem governa ou dirige as maiores instituições globais - outro tipo de posição perante a necessidade imperiosa de agir para a salvaguarda do bem comum.

Na eminência de um colapso social e económico, poderá a União Europeia procrastinar indefinidamente tudo o que não é adiável?

A somar a tudo isto existe a preocupação - de alguns sectores da sociedade - com o “maior controlo social” - imposto pelas limitações à liberdade de circulação dos cidadãos e de vigilância digital, na medida em que este pode colocar em causa o bom funcionamento da democracia representativa e das instituições, uma vez que “indivíduos condicionados pelo pânico da mera sobrevivência são alvos ideais do poder” (Slavoj Zizek, 12/04/20). Não é o nosso caso (mas exemplos não faltam).

Num contexto tão exigente, como este, é fundamental o acesso à informação segura e fidedigna. Quem a garante? A crise na imprensa não tem estado imune ao processo de transformação digital mas vive num aparente paradoxo, na medida em que as suas notícias nunca foram tão lidas como agora, “sem que esse serviço público seja capaz de gerar receitas suficientes para garantir a sua sustentabilidade financeira” (Manuel Carvalho, 07/04/19).

A discussão sobre o financiamento da imprensa não é de hoje e tem múltiplas leituras, quer seja na concordância com o apoio público, quer por quem o conteste na defesa da liberdade editorial sem eventuais amarras à subvenção pública, sendo certo que a sociedade de leitores deverá pagar pelos conteúdos que quer ler. Algo que, como sabemos, nem sempre acontece.

Para um maior escrutínio da gestão da coisa pública é forçoso que haja uma sociedade mais esclarecida e isso só se consegue com “uma cultura das notícias”, sujeita “ao trabalho de edição e contexto de alguém que é suposto ter uma carteira profissional para exercer jornalismo”.

No entanto, alguns jornalistas facilitam o “estatuto noticioso” às “redes sociais”, sem a mediação e edição jornalística, provocando, intencionalmente ou não, uma (in)evitável “erosão da profissão feita pelos próprios profissionais” (José Pacheco Pereira, 02/01/16).

Nestes 185 anos do Açoriano Oriental, apesar de todos os desafios e dificuldades com que nos confrontamos, reitero a confiança nos seus profissionais para que continuem a alimentar a imprensa regional nos Açores com a “informação baseada em factos e não na manipulação sensacionalista dos factos” (Amílcar Correia, 11/4/20).

* Publicado na edição especial de aniversário do Açoriano Oriental (18/04/20)
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quinta-feira, 9 de abril de 2020

#quarentena

Por estes dias passamos a ser, quase sem excepção, especialistas em covid-19, peritos (de sofá) em saúde pública com opinião (formatada ao minuto pela avalanche noticiosa) e com sugestões para distribuir.

Aos primeiros dias desta #quarentena assumi que iria reduzir (significativamente) a minha exposição ao ruído das notícias em repetição - ad nauseam, por forma a salvaguardar a higiene mental da minha família. Assumi um detox noticioso e, neste momento, cumpro apenas os serviços mínimos da actualização diária dos números trágicos de uma pandemia (sem rosto), sendo certo que existem pessoas por detrás da estatística, algo que, tendencialmente, desvalorizamos.

Procuramos uma explicação plausível para o que nos atingiu mas não partilho da metáfora de que estamos em guerra, ou de que este é um castigo divino, como há quem goste de profetizar.

No entanto, considero que este é um tempo para reflectirmos sobre o nosso estilo de vida e analisarmos como chegamos até aqui, num momento em que assistimos às consequências do desinvestimento em áreas fundamentais da nossa vida pública em detrimento da especulação financeira.

Muitas das vozes que hoje se fazem ouvir (na defesa do Sistema Nacional de Saúde) eram as mesmas, que há uns anos a esta parte, exigiam a privatização deste e de muitos outros sectores (essenciais) da nossa existência colectiva. Ironicamente, são agora os primeiros a exigir o apoio do Estado, uma postura que não deixa de ser, simultaneamente, paradoxal e hipócrita.

Nestes dias (letárgicos) têm sido comuns os elogios aos que estão na primeira linha do combate da epidemia - profissionais de saúde, bombeiros, polícia ou funcionários dos supermercados, os quais, na maioria das vezes, depreciamos, criticamos ou até ignoramos na azáfama quotidiana, e cujas condições de trabalho (e de segurança) estão longe, como já vimos, de serem as ideais.

Será que é necessário uma pandemia para sermos generosos com aqueles que nos socorrem numa situação de emergência?

Desejaremos regressar ao que tínhamos anteriormente ou será este o tempo de repensarmos e de actuarmos de forma diferente?

A normalidade que se seguirá a estes dias será, muito provavelmente, diferente daquela que a sucedeu mas, também aqui, o regresso ao passado dependerá do tempo em que permaneceremos nesta pausa forçada.

Num olhar mais transversal (e global), não é que nos sirva de grande conforto mas não estamos sós (nesta crise económica e social), e o vírus não escolhe fronteiras nem «olha para condições económicas quando se trata de escolher hospedeiros”, no entanto “não nos iludamos sobre a “democraticidade” da epidemia ou das medidas adotadas para a sua contenção: as suas consequências são brutalmente desiguais.» (Pedro Magalhães citado por Rolando Lalanda Gonçalves, Açoriano Oriental 05/04/20). Este é, infelizmente, um dado incontornável.

Temos de nos preparar, desde já, para o dia seguinte e agir (responsavelmente) perante os desafios que se nos colocam.

Este é um trabalho que não é apenas de alguns mas é de todos, como comunidade, num período (de excepcionalidade) que nos convoca a ser melhores.

Façamos a nossa parte (por mais que isto nos custe), confiando que a contingência nos ajude a chegar mais depressa (e com saúde) ao fim desta situação.

* Publicado na edição de 06/04/20 do Açoriano Oriental
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quarta-feira, 25 de março de 2020

Anormalidade temporária

Este é um daqueles momentos em que a realidade parece ter suplantado a ficção.

Se já (antes) tínhamos esta percepção, num tempo de múltiplas incertezas, das alterações climáticas à política, este novo quotidiano que (todos) experienciamos valida este dado incontornável que mais parece um argumento saído de um filme-catástrofe.

É difícil contornar o vírus que nos contamina, amedronta e paralisa como sociedade (globalizada).

A rotina destes dias remete-nos para uma realidade distópica, na qual uma larga percentagem da população (mundial) acatou, sem precedentes na história recente, uma ordem de confinamento e de isolamento social para suster a pandemia.

Este é, também, um tempo propício a uma “epidemia de informação”, na medida em que “as pessoas prestam mais atenção às informações negativas” e “sentem-se mais motivadas a transmiti-las aos outros” sobretudo, agora, que estão ligadas o tempo todo (Samuel Paul Veissiere, 14/03/20).

Este comportamento é inteiramente justificável perante o receio de algo que nos é desconhecido (e estranho), e porque necessitamos encontrar uma razão para justificar o que nos está a acontecer. Proliferam as teorias da conspiração, o estigma e a exacerbação de estereótipos: há quem acredite no anátema do estrangeiro ou do vírus que veio do longe; ou da punição da mãe natureza à acção do homem sobre o planeta.

O “pânico moral” difunde-se a uma velocidade estonteante perante a avalanche informativa, promove o medo e o receio perante as dúvidas de uma cura que não se compagina com o horizonte temporal da racionalidade económica (e da necessária normalização dos tempos modernos).

As ilhas (já) não estão isoladas, a distância geográfica aqui não funciona como defesa natural, apesar de, por estes dias, procurarmos um corte umbilical com a conectividade que sempre lutamos por ter, por forma a tentarmos (sós) conter os malefícios desta (nova) peste que nos remete para uma “memória arcaica” e de “temores que pensávamos esquecidos e enterrados” (Paulo Pires do Vale, 20/03/20).

Paralelamente, há quem acredite que, depois de tudo isto, a humanidade sairá reforçada e que iremos todos (empresas, estado, indivíduos e sociedade) agir melhor e, de forma, mais solidária. Será que perante esta (nova) crise económica abrupta (e total), haverá espaço para repensarmos todo o percurso até aqui ou, no dia seguinte, haverá necessidade de acelerar todo o processo económico na reposição do tempo perdido e dos rendimentos das famílias?

O mundo como o conhecemos será, inevitavelmente, diferente. Resta saber quanto e em que medida?

Iremos alterar a nossa forma de mobilidade? Se assim for o turismo, como hoje o conhecemos, irá sofrer um duro reajustamento.

Para o filósofo Yuval Noah Harari (21/03/20), a solução de futuro não passa por desmantelar o nosso sistema global de comércio e transportes, pois isto “não nos protegerá verdadeiramente de epidemias futuras” mas, sim, por mais “investigação científica”, pela “troca de informações mais aberta” e pela “criação de um sistema de saúde verdadeiramente global”.

Desejo que esta seja, efectivamente, uma “anormalidade temporária” e que este seja o tempo de (primeiro) cuidar dos vivos, para que a economia recupere depois (Rui Tavares, 18/03/20).


* Publicado na edição de 23/03/20 do Açoriano Oriental
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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Teatro (profissional)

A ideia não é nova, a discussão é antiga e, ocasionalmente, surge quem a recupere e a intente.

Desconheço o que está na génese desta iniciativa, se é apenas um mero expediente na agenda política ou se resulta da auscultação do sector artístico.

Fazendo fé na reacção dos artistas à intenção de gerar uma nova entidade pública empresarial (paradoxalmente quando estamos num processo de reformulação da participação da região no número de empresas e associações em que participa) para gerir os destinos de uma companhia de teatro profissional, com sede na ilha Terceira, o projecto está longe de ser consensual ou ter a sua validação.

E não será difícil perceber porquê.

No passado recente, temos assistido a um maior dinamismo dos agentes culturais da região, fruto de uma geração que saiu para estudar e que pretende regressar (se não a totalidade pelo menos uma parte), pela actividade desenvolvida por um conjunto de entidades públicas e privadas no sector cultural (que têm posicionado o arquipélago no mapa artístico).

Formalizar a intenção de sediar a constituição deste grupo profissional, na ilha Terceira, por via da “grande tradição que a ilha tem no desempenho de artes cénicas (…)” e “pelo próprio caráter espontâneo associado às danças e bailinhos de Carnaval” é um péssimo princípio, na essência é redutor e é revelador da forma como continuamos a olhar para a nossa descontinuidade territorial, na medida em que a localização é o dado menos importante desta equação.

Como já (aqui) defendi por inúmeras ocasiões, o futuro das artes nos Açores é o da profissionalização, não há volta a dar, mas não por este caminho.

Para que isso possa (um dia) vir a acontecer, temos todos de trabalhar em estreita cumplicidade (entidades oficiais: locais, municipais e regionais; artistas e instituições), no sentido de gerar sinergias que permitam um apoio consistente, e duradouro, a esta actividade, permitindo sedimentar o trabalho realizado (como continuado e não esporádico), quer na redefinição de políticas para o sector, quer na formação de públicos e na construção de melhores cidadãos (e de uma melhor cidadania).

A componente pedagógica não carece de uma companhia profissional para ser desenvolvida, ela pode e já é desenvolvida por todos aqueles que actuam nos palcos da região. Se pode ser incrementada e melhor promovida? Parece-me evidente. Pode, inclusive, ser uma âncora da sustentabilidade da própria actividade artística, na colaboração com outros sectores da sociedade, da educação à inclusão social, passando pela sensibilização ambiental à animação turística.

Pela forma como está idealizada, a fundação desta companhia profissional não implica, pelo contrário, desresponsabiliza o papel dos municípios na gestão de conteúdos e das equipas que habitam os auditórios e salas desta região.

Para que se possa conceber um circuito de circulação (e de itinerância à escala regional), temos de garantir que existem condições materiais para poder acolher objectos artísticos contemporâneos, não menorizando as exigências elencadas por companhias e artistas. Como muitas vezes acontece.

Respeitar o trabalho alheio, neste caso artístico, não é favor, é uma condição fundamental para o profissionalmente que nos assiste.

Mais do que fundar uma companhia profissional de Teatro (e já agora porque não de Dança ou mesmo uma Orquestra), o que é necessário é apoiar, de forma substantiva, a actividade de quem já a exerce, inserir critérios de diferenciação (entre os diferentes agentes), realizar encomendas, acompanhar de forma presente a acção desenvolvida no território e fomentar a circulação dentro e fora da região.

* Publicado na edição de 25/02/20 do Açoriano Oriental
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Democracia cultural

O Plano Nacional das Artes (PNA) foi apresentado, formalmente, em Junho do ano passado com a chancela dos Ministérios da Cultura e da Educação (mas a sua práxis pretende distender-se a toda a esfera pública).

Para melhor se dar a conhecer, o PNA tem utilizado a frase de Sophia de Melo Breyner Andresen, na intervenção que fez na Assembleia Constituinte de 2 de Setembro de 1975: «a cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar».

O comissário do Plano Nacional das Artes, Paulo Pires do Vale, curador e professor universitário, esteve, na passada semana, no Museu Carlos Machado para protocolar com a Direção Regional da Cultura a extensão, aos Açores, desta iniciativa que será materializada através do projecto “De Fenais a Fenais: Cultura Matriz do Desenvolvimento Local”.

“De Fenais a Fenais” tem a coordenação do Museu Carlos Machado (cuja acção no território não está confinada aos ‘muros da cidade’ que o acolhe, como fez questão de referir o seu director) e será implementado e desenvolvido, até 2022, num espaço geográfico identificado como de "intervenção prioritária no combate à pobreza e exclusão social, abrangendo as freguesias de Fenais da Luz, Rabo de Peixe, Maia e Fenais da Ajuda".

A escolha do Museu Carlos Machado não é inocente, e parte da sua actividade recente (Museu Móvel, projecto “Para Além da Paisagem - Sete Cidades, para dar alguns exemplos), influenciou, nas palavras do comissário nacional, o carácter de que se reveste o PNA, o qual visa aproximar a cultura e as artes dos cidadãos.

Este não é um Plano que exista por si só, pretende contaminar toda a comunidade, da escolar à empresarial, e terá, igualmente, a responsabilidade de coordenar outros planos sectoriais já existentes, como o Plano Nacional de Leitura, o Plano Nacional de Cinema, a Rede Portuguesa de Museus ou o Programa de Educação Estética e Artística.

A visão que preside a este conjunto de boas intenções é vista sem paternalismos, na medida em que não se pretende decidir sobre o que os cidadãos devem consumir do ponto de vista cultural, pois mais do que ser um facilitador na “democratização da cultura" prende-se incutir um conceito de "democracia cultural", utilizando as palavras de Paulo Pires do Vale, o qual acredita que "todos têm algo a dar para a cultura de todos".

Este é um programa que pretende levar (dar) conhecimento ao (do) território, passando pelo património material e imaterial, e realizando o (necessário) cruzamento com um olhar contemporâneo. A desmistificação da ideia que temos dos artistas, e a sua presença no espaço escola, procura, igualmente, contribuir para operar mudanças na forma como lidamos com a fruição mas, também, com a produção cultural. Contribuindo activamente para “alavancar o pensamento crítico, a nossa capacidade de resolução de problemas e a nossa capacidade de criatividade individual e colectiva” (Tiago Brandão Rodrigues, Público, junho 2019).

Este é um período que implica (forçosamente) uma leitura esclarecida - sobre a volatilidade do que se passa à nossa volta - e torna pertinente o “repensar a nossa noção de literacia. O que é hoje ser-se culto ou alfabetizado?” (George Steiner, Expresso, junho 2017).

E em boa hora se corporizou este Plano Nacional das Artes, num tempo em que os países têm de cortar em coisas “supérfluas”, alienando as humanidades em detrimento de “competências úteis e profundamente técnicas e adequadas à geração de lucro” (Martha C. Nussbaum, 2019).

* Publicado na edição de 10/02/20 do Açoriano Oriental
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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Reflexão (colectiva)

A reportagem do serviço público de rádio e televisão mostra a escassez de bens alimentares nas ilhas das Flores e Corvo, as imagens de prateleiras vazias não deixam ninguém indiferente, em particular, num período (simbólico) como o Natal.

Para além da destruição (quase total) do porto das Lajes das Flores, este é o efeito mais evidente da incapacidade gerada pela inoperacionalidade desta infraestrutura que, apesar do enorme esforço de adequação por parte da entidade que gere os portos da região, tem levado à intermitência do abastecimento regular (por via marítima) do grupo ocidental.

Todos os anos o rigor do inverno torna (mais) difícil as ligações (aéreas e marítimas) com as ilhas mais ocidentais da europa, esta não é uma situação nova para estas populações habituadas que estão à borrasca das intempéries e a dias (consecutivos) de (maior) isolamento.

As comunicações são hoje, felizmente, possíveis através da fibra óptica que torna menos penosa a lonjura que as separa do multibanco mais próximo (que indica como alternativa a deslocação ao Faial, Terceira ou mesmo Santa Maria - não é piada, já o testemunhei).

No entanto, temos de ter consciência que nada será como dantes, e os efeitos da passagem do furacão Lorenzo, pelos Açores, não podem ser considerados como um caso isolado e devem constituir um sinal de alerta para o futuro.

A este respeito devemos encarar com enorme seriedade os efeitos resultantes das alterações climáticas e o seu impacto nas ilhas. Temos aqui um exemplo concreto do que poderá ser o nosso futuro (mais próximo) no que concerne à ocorrência de fenómenos climáticos extremos.

Os furacões poderão assolar o arquipélago de forma mais regular e, para tal, devemos, desde já (se é que já não os temos), pôr em prática planos de contingência (alimentar, por exemplo) para mitigar situações como a que as Flores e o Corvo têm experienciado.

Apesar de todos os esforços envidados, pelas entidades oficiais, locais, municipais, regionais e nacionais, para o restabelecimento da normalidade (possível) àquelas ilhas, desengane-se quem assumir compromissos com prazos irrealistas e soluções impossíveis.

Importa frisar que os danos infligidos por este fenómeno (extremo) ascendem aos trezentos milhões de euros, em todo o arquipélago, os quais levarão anos a ser recuperados. Este não é um assunto que se resolva de um dia para o outro.

O político que intenta retirar dividendos (com recurso a uma calamidade pública) não pode ser uma pessoa idónea. A ética democrática deve ser um valor estimado perante a sistemática desvalorização do compromisso e da palavra, numa realidade paralela e num espaço (online) repleto de ódio, vitimização, notícias falsas, factos alternativos e teorias da conspiração.

Outro dado a destacar desta ocorrência (extraordinária) tem de ver com a importação de produtos agrícolas. Considero que a defesa da nossa sustentabilidade ambiental, também, passará por aqui. Mas será que já medimos a pegada ecológica das batatas e cebolas que nos chegam do exterior? Não será esta uma oportunidade para alterarmos comportamentos e questionar se faz sentido importar vegetais e legumes frescos? E, complementarmente, reduzirmos a nossa dependência alimentar, tornando a nossa existência, efectivamente, mais saudável, sustentável e evitando a rotura de produtos alimentares?

A este propósito cito John Fowler no seu ‘”Diário de um Náufrago nas Flores e no Faial” (IAC, 2017), no qual retrata a vivência na ilha das Flores na primeira metade do século XIX: “têm um solo de invulgar riqueza e fertilidade, produzindo milho indiano, trigo, inhame e batatas e uma oferta abundante de forragem, entre as quais devo incluir o tremoço, criado e cortado para alimentar gado (…) a par com algumas plantações de laranja, maçã, pêras e figos (…)”.

Fica o testemunho histórico para reflexão (colectiva).

* Publicado na edição de 13/01/20 do Açoriano Oriental
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domingo, 12 de janeiro de 2020

Urgência (climática)

Caminhamos para o final do ano e de um tempo (que é novo) mas que ninguém sabe, verdadeiramente, qual será.

Os sinais (do planeta) nunca foram tão evidentes, como agora, quanto num passado recente pareceriam saídos de um filme de ficção.

Como já o testemunhamos, vezes sem conta, a realidade tem suplantado a ficção. O que antes parecia ser uma leitura apocalíptica passou, agora, a ser plausível.

Nos Açores, os efeitos meteorológicos sempre foram vividos de forma intensa. Pelo que encarar os efeitos da passagem do Furacão Lorenzo, em particular, no grupo ocidental do arquipélago, apenas como um problema logístico e de abastecimento é estar a ignorar, ostensivamente, a raiz de uma questão mais abrangente e de contornos imprevisíveis.

O Programa Regional para as Alterações Climáticas (PRAC) foi publicado, recentemente, em Diário da República.

A importância da sua entrada em vigor é algo que não deve ser depreciado por ninguém, muito menos, por quem tem responsabilidades na vida pública e económica das ilhas, afirmando que esta problemática é uma questão de “fanatismo” e um “desatino”.

O combate às causas e aos efeitos das alterações climáticas é uma questão que não exclui ninguém, porquanto as suas consequências não têm um carácter selectivo.

Este plano regula a Estratégia Regional para as Alterações Climáticas, sobretudo, na mitigação e redução das emissões dos gases com efeito de estufa, consubstanciado na intenção de investir “na descarbonização e no aumento da eficiência da economia, tornando-a menos dependente dos recursos energéticos externos” e em “medidas que protejam os bens, os recursos e as pessoas” da acção das alterações climáticas (GACS, 29/11/19).

Na semana que terminou, ao mesmo tempo que os ingleses votavam, esmagadoramente, a favor do Brexit, foi apresentado pela presidente da Comissão Europeia, Ursula van der Leyen, “O Pacto Ecológico Europeu” assente em dez pilares que propõem 50 iniciativas para converter o combate às alterações climáticas no novo modelo de crescimento económico (do velho continente).

Os Açores não podem ficar fora desta discussão e, apesar de existirem sinais positivos para a construção de um futuro (verdadeiramente) sustentável, não podem existir dúvidas, nem posições titubeantes no caminho que temos de seguir.

O populismo ganha terreno (e por cá adeptos não faltam) numa sociedade “enraivecida e polarizada”, exercido por inúmeros “especialistas” com direito a opinião e com recurso a um processo de “vitimização” permanente, o qual leva “as pessoas a pensar que a vida deveria ser uma utopia perfeita concebida à medida das suas sensibilidade frágeis e específicas, encorajando-as a manterem-se crianças para sempre, vivendo num conto de fadas cheio de boas intensões.” (Bret Easton Ellis, 2019).

A leitura destes dias podia ser resumida por esta passagem: “Obcecados com números, indicadores, pontuações, rankings, ratings ou likes, já nem nos damos ao trabalho de pensar. O nosso espaço mental é uma tabuada. Consumimos percentagens como se fossem ansiolíticos. Vivemos em cálculo permanente. Desiste-se de elucidar, de reflectir ou persuadir.” Vitor Belanciano, 15/12/19).

Os Açores não são o paraíso que, por vezes, se lê por aí. Mas também não são a desgraça (colectiva) que se pretende veicular por alguns círculos.

Negar as evidências de uma urgência climática (e a tentativa de “silenciar o indivíduo” que a expõe) será, muito provavelmente, o maior crime deste “novo mundo”.

* Publicado na edição de 16/12/19 do Açoriano Oriental
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terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Sem fins lucrativos

A importância da literatura, na história e na vida cultural dos Açores, serve de bússola ao encontro literário “Arquipélago de Escritores”, realizado de 14 a 18 novembro, e que resulta, em larga medida, da saudável teimosia (militante) de Nuno Costa Santos.

O arquipélago é conhecido por ter sido berço de grandes nomes das letras nacionais, Antero de Quental, Vitorino Nemésio ou Natália Correia são (apenas) alguns dos mais reconhecidos e celebrados.

Nos últimos anos, vimos florescer um conjunto de novos valores que se têm afirmado no panorama literário nacional, onde podemos encontrar, a título de exemplo, João Pedro Porto, Joel Neto ou Renata Correia Botelho.

O encontro neste “Arquipélago de Escritores” de autores residentes, escritores (de renome) nacionais e internacionais e um público atento, fazem com que este se afirme como um momento importante no calendário cultural da região.

O carácter evocativo em torno da literatura e da memória de nomes menos conhecidos do grande público, a par do capital simbólico em realizar uma iniciativa, desta natureza, num período de menor procura turística, como forma de combate à sazonalidade do inverno açoriano, é muito pertinente mas não nos deve alhear de um factor (primordial): os escritores requerem ser lidos.

Este é, também, um tempo em que tudo flui a uma velocidade estonteante, no qual a voragem tecnológica transformou, sobremaneira, a nossa relação com a fruição cultural.

Apesar disto, o livro é, talvez, de todos os objectos culturais, aquele que melhor tem resistido ao processo de desmaterialização em curso.

Paradoxalmente, assistimos, um pouco por todo o país e em grande medida devido à torrente especulativa do mercado imobiliário, ao encerramento de livrarias históricas.

A par do surgimento de um número muito significativo de pequenas editoras especializadas, a distribuição está concentrada em grandes lojas (marcas) e outros espaços comerciais que são alimentadas pela massificação editorial que tomou conta dos escaparates.

Nos Açores, não existem muitos editores e já tivemos mais livrarias, a distribuição é frágil e a concorrência dos grandes portais nacionais (e internacionais) fazem com que o negócio seja um acto de resiliência às profundas mudanças operadas no sector (e na alteração comportamental dos consumidores).

Acredito que a educação e a cultura são imprescindíveis para o desenvolvimento sustentando de uma região como os Açores, não podemos almejar ser melhores sem alavancar social e culturalmente este povo. Esta não é uma tarefa fácil, nem existe uma fórmula mágica, mas pode e deve ser efectuada com um maior investimento (político e material) no acesso ao livro e à leitura.

Esta semana, na discussão do Plano e Orçamento dos Açores para 2020, não tenho conhecimento que tivesse sido apresentada uma proposta de alteração para aumentar em 5, 10 ou 20% o investimento no sector cultural, enquanto em qualquer outra área (económica), o investimento a fundo perdido é encarado, por exemplo, como normal (e fundamental).

A importância das humanidades tem sido sucessivamente obliterada por um mundo regido por uma fórmula automática no algoritmo do ditame financeiro que arrasta, e define, a política (pública) de muitos países e organizações, sendo certo que “o crescimento económico não gera invariavelmente melhor qualidade de vida” e porque, de forma mais ou menos transversal, “o desprezo e o desdém pelas artes e humanidades põe em risco a qualidade das nossas vidas e a saúde da nossa democracia” (Martha C. Nussbaum, Sem Fins Lucrativos, Edições 70, 2019).

* Publicado na edição de 02/12/19 do Açoriano Oriental
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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Pequenas (grandes) especificidades

A entrevista de Justine Simons (Público, 12/11/19), a vereadora para a Cultura e Indústrias Criativas de Londres, durante a sua estada em Lisboa para a Cimeira World Cities Culture, sintetiza muito daquilo que penso e tenho dito (e escrito) sobre o potencial (transformador) da cultura na nossa vida colectiva.

O arquipélago é tido como um laboratório (ideal) para a experimentação de um conjunto de medidas (das ciências do mar à sustentabilidade energética). E poderia sê-lo, igualmente, na implementação de outras áreas e sectores, nomeadamente, das indústrias culturais e criativas (um palavrão que aglutina sectores muito diversos mas que foi concebido para melhor explicar, a quem decide, as “pequenas especificidades” de cada um).

Para que tal possa vir (um dia) a ser possível, é imperioso que o tecido cultural (supostamente criativo) deixe de funcionar em pequenos círculos, fechados sobre si próprios mas com uma enorme determinação em culpabilizar outros pelo seu (aparente) insucesso, falta de reconhecimento (= financiamento) e, não raras vezes, cultivando uma enorme distância com o público (e a ilha).

A exiguidade geográfica do arquipélago, aliada a um meio conservador e com parcos recursos, fazem com que o trabalho em rede seja fulcral para a criação de uma escala que não temos (nem pode ser comparada com outros centros, com outras necessidades e saberes completamente distintos dos nossos).

Importa (primeiro) saber onde nos situamos e quantos somos.

O primeiro passo será o de mapear o território, identificando os diferentes actores e as infra-estruturas que nele operam, do bar ao atelier, da galeria ao museu de ilha.

Um dos nossos maiores condicionalismos, para além das dificuldades inerentes à circulação de projectos e artistas, no interior e para fora do arquipélago, é a escassez de recursos financeiros, cujo trabalho concertado poderá facilitar a procura de fontes alternativas de financiamento alicerçado na construção de projectos comuns.

Sem um fio condutor que una a acção no território (regional e municipal), assistimos à multiplicação de projectos sem critério (e porque sim), cuja sobreposição no calendário é apenas o factor (mais evidente) de uma aparente falta de discernimento.

O crescimento da actividade económica associada ao turismo veio colmatar o vazio (na acção) em torno da regeneração e do abandono do património construído das ilhas, em particular, nos centros das maiores cidades da região.

A cultura pode (e deve) ser um guia para esta regeneração urbana, melhorando as condições de vida de espaços degradados e integrando, por exemplo, populações que vivem nas margens, contrariando o investimento acéfalo e especulativo em torno do alojamento turístico (indiferenciado e pouco qualificado).

Já imaginaram estas ilhas ou as nossas cidades sem espaços de cultura, sem música, sem filmes e sem festivais, o que é que ficava?

Nesta entrevista ficamos a saber que a cultura é responsável por 4 em cada 5 turistas que vai a Londres. Se o nosso património (material e imaterial) é assim tão relevante, porque é que não lutamos pela quantificação da importância que afirmamos ter?

O orçamento do sector cultural é pequeno, no entanto, importa compreender que o seu impacto é muito maior do que a percentagem que ele ocupa no plano e orçamento.

A cultura é um bom investimento, tem de ser defendida e deve, também, lutar por ter mais recursos.

No final é tudo uma questão de opção na definição (rigorosa) das nossas prioridades pela construção de um desígnio comum (e profundamente inclusivo), nos domínios cultural, educativo e social.

* Publicado na edição de 18/11/19 do Açoriano Oriental
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segunda-feira, 18 de novembro de 2019

A urgência (do essencial)

A convite do Clube de História da Fundação Sousa d’Oliveira participei numa conversa sobre “A Cultura dos Açores: qual futuro?”.

O espaço foi moderado pela jornalista Teresa Nóbrega e partilhei o tempo de antena com Nélia Alves-Guimarães, vereadora da Câmara Municipal de Vila Franca do Campo, e Pedro Gomes (que aqui despiu a pele de advogado).

O tema era ambicioso e, ao contrário de algumas expectativas, ninguém vaticinou prognósticos sobre o futuro. Confrontados com o tempo disponível deambulamos sobre uma leitura do presente, elencando prioridades futuras. A abrangência do assunto materializou-se numa leitura diversa, segundo a forma como nos posicionamos neste território.

Na minha perspectiva, a Cultura nos Açores está demasiado ancorada sobre o prisma da salvaguarda das tradições e do património, num círculo estanque que necessita, forçosamente, de ser dado a conhecer à maioria da população residente.

Por estes dias ouvimos, frequentemente, que a (nossa) Cultura deve ser experienciada (=vendida) por aqueles que nos visitam, como se fosse essa a razão maior da sua existência. Parece-me extemporâneo (e paradoxal), na medida em que uma dose significativa dos residentes não a conhece (nem participa num conjunto significativo de iniciativas, a não ser nas de pendor tradicional e popular agora convertidas em animação turística).

Como é que divulgamos a Cultura (que nos assiste) se desconhecemos (em larga medida) aquilo que somos, porque agimos de determinada maneira ou edificamos as casas desta forma ou com aquela cor?

Outro dado que me pareceu relevante, para esta discussão, tem de ver com a forma como olhamos a descontinuidade arquipelágica. As ilhas são todas diferentes nas suas semelhanças e existem, em cada uma delas, enormes assimetrias que se acentuam do(s) centro(s) para a(s) periferia(s).

Os agentes ao serviço da Cultura repetem até à exaustão a necessidade de trabalhar ‘novos públicos’ porque a fruição cultural (hoje) acontece em diferentes camadas e numa profusão de canais. Pelo que é importante relembrar que a informação já não chega (apenas) pela RTP-Açores e que os meios tradicionais perdem (todos os dias) audiência para as outras plataformas.

O mesmo se passa com os espaços formais associados às actividades culturais, sejam eles museus, bibliotecas ou salas de espectáculo. A renovação de públicos é um desafio do presente, por forma a perspectivarmos um futuro. E não são os turistas que vão resolver o problema, o acréscimo de visitantes estrangeiros é muito importante mas o foco principal deve continuar a ser o residente e o seu acesso (regular) a locais de cultura.

Este continua a ser um desígnio de enorme importância e que, inevitavelmente, implica um reforço da dotação orçamental para a renovação de conteúdos, a criação e a circulação de obras (e artistas), sendo certo que estes espaços não podem funcionar segundo “a lógica do sucesso de um programa de televisão” ou “de um blockbuster" (João Fernandes, Público 20/10/19).

Para tal é imperioso olhar os números para além daquilo que eles nos dizem, conhecer o território e chegar às pessoas.

E faz sentido falar de Cultura se esta não tiver público?

Respondo com uma frase retirada de uma entrevista de Edgar Morin à Folha de São Paulo (24/06/19): “ao sacrificar o essencial pelo que é urgente, acaba-se por esquecer a urgência do essencial”.

* Publicado na edição de 04/11/19 do Açoriano Oriental
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sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Estrutural

Uma das conquistas mais importantes da última legislatura, no que concerne ao trabalho de articulação entre os governos dos Açores e da República, foi a possibilidade das estruturas artísticas regionais terem acesso aos apoios nacionais atribuídos pela Direcção-Geral das Artes (DGArtes).

O usufruto desta medida introduz a equidade (há muito reclamada) e põe termo ao sentimento de injustiça com que estivemos confrontados (durante décadas).

Por estes dias ficamos a saber os resultados provisórios dos concursos de financiamento à Cultura para o biénio 2020/2021, cabendo “aos agentes culturais dos Açores, cujas candidaturas foram aprovadas, cerca de 343,4 mil euros”, o que significa que para a região “virão mais 126,8 mil euros do que nos dois anos anteriores” (Açoriano Oriental, 18/10/19). Apesar disto, os Açores são “a região do país que menos apoio da DGArtes recebe”, consequência, em larga medida, do ostracismo a que estivemos acometidos.

Este anúncio da DGArtes gerou um rol de protestos, sobretudo, porque deixaram sem apoio 75 das 177 candidaturas consideradas elegíveis pelos júris. Os resultados divulgados são provisórios, seguindo-se a fase de audiência que termina a 25 de outubro.

Além da exigência de um reforço na dotação dos concursos que estenda o financiamento público a todas as candidaturas elegíveis, os artistas exigem a revisão do modelo de apoio às artes e a abertura de uma via de diálogo entre o Ministério da Cultura e o sector artístico (Público, 18/10/19).

A contestação é legítima e deve ser entendida como um direito, cujo valor reivindicativo sobe de tom pelo simples facto de existir um número elevado de candidaturas consideradas elegíveis e não existir apoio atribuído por falta de orçamento.

Se é certo que devemos caminhar no sentido de existirem melhores condições de apoio à criação artística e à redução da precariedade laboral (dos profissionais deste sector), não é menos verdade que, de igual modo, devem ser garantidas condições financeiras às entidades e instituições (públicas e privadas) que acolhem o resultado gerado por este investimento (público).

Permitam-me a seguinte questão: qual o sentido de incentivar um artista (ou estrutura) a criar se, no momento de apresentar o trabalho realizado, as instituições (a quem cabe o papel de acolhimento), não têm capacidade para o(s) contratar?

Este aparente paradoxo não é de hoje mas existirá, porventura, uma maior percepção para as dificuldades inerentes à circulação de obras e de artistas pelo território nacional, no qual as ilhas não são excepção. Até pelo contrário, a nossa condição arquipelágica agrava, sobremaneira, o acesso e a itinerância (artística) que se impõe.

A Lei n.º 81/2019 criou a Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses (RTCP) existindo uma enorme expectativa quanto à sua implementação a partir de 1 de janeiro de 2020, com vista à diluição de assimetrias num país pequeno mas profundamente desigual.

Este é um sector frágil cujo trabalho de concertação será, quase sempre, insuficiente para dirimir as contingências com que está confrontado. A exigência por um maior financiamento caberá, naturalmente, aos dirigentes que gerem os destinos destas instituições mas importa que os artistas percebam que a defesa do seu trabalho passará, também, pelo apoio incondicional às instituições que os recebem.

Este é um caminho de diálogo feito de reciprocidade(s), não pode ter um carácter unívoco, para que a cultura “não seja qualquer coisa de decorativa, mas estrutural” (Paulo Pires do Vale comissário do Plano Nacional da Artes).

* Publicado na edição de 21/10/19 do Açoriano Oriental
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segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Compromisso

A campanha eleitoral não começou (oficialmente) mas o embate político, como a meteorologia, tem estado morno e à mercê de um pacto de não-agressão.

Para Manuel Carvalho, editor do Público, o frente-a-frente (televisivo) entre líderes partidários tem ocorrido sem excessos de linguagem, ou contorcionismos de ocasião, os portugueses querem ouvir os políticos e a comprová-lo estão os estudos de audiências, fazendo com este período de pré-campanha pareça, “como poucas vezes pareceu, uma campanha de uma democracia moderna e madura” (14/09/19).

Mais do que questiúnculas, e questões fracturantes, que agora se assumem estruturantes, num país a múltiplas velocidades e que cuja realidade (ainda) carece de necessidades fundamentais, parece esdrúxulo que, pelo menos de forma mais ou menos aparente, a agenda seja preenchida pela inverosimilhança de algumas propostas.

Aliás, a diatribe eleitoral vem apenas corroborar a clivagem existente entre os centros urbanos e o resto do território, cuja desertificação populacional e deslocalização económica sufoca a sua existência quotidiana.

A população procura uma resposta eficaz para os seus anseios e para as entropias com que se depara no seu dia-a-dia. Os grandes temas da discussão política (deste tempo) não podem ser menorizadas mas parecem descontextualizadas da urgência dos dias.

Existe um descrédito nas sociedade contemporâneas (ocidentais) quanto ao desempenho das funções políticas/serviço público, e apesar de alguns progressos, é necessário alterar a forma como se organizam as campanhas eleitorais, mas “só por cinismo torcem alguns entre nós o nariz e desvalorizam o trabalho que os responsáveis realizam para esclarecimento geral. Dir-se-ia que estão cansados da democracia e não acreditam na sinceridade dos propósitos dos actores políticos, a quem imputam as piores intenções. Alguns destes, infelizmente, dão razões de queixa, mas não se pode julgar todos pelos erros de uns quantos de inferior qualidade cívica” (João Bosco Mota Amaral, 10/09/19).

Presos ao populismo da imediatez mediática e do politicamente correcto, políticos e partidos agarram-se à redução dos custos associados às campanhas e - na procura pela validação popular (do like virtuoso) - fazem por tornar pública as suas opções com o avale do Presidente da República. Não basta. Era olhar para o modelo norte-americano para daí retirarmos algumas lições. A começar pela institucionalização dos lobbies.

Na desconfiança destes dias, as pessoas andam presas ao(s) ecrã(s) e alimentam (profusamente) a sua ‘second life’, pelo que a intenção de introduzir o voto electrónico como forma de ‘acabar’ com a abstenção (e alienação colectiva?) é, na essência, um convite ao comodismo e à passividade.

Passaríamos a ter uma democracia sufragada no sofá, cuja implementação acarreta inúmeros riscos, a começar pelo garante da salvaguarda dos dados informáticos e dos resultados do escrutínio eleitoral. Considero que o problema não está no meio, nem na facilitação da forma como se vota (independentemente desta ser uma discussão em curso e deste ser um processo que carece de aperfeiçoamentos).

A melhoria da qualidade da nossa (jovem) democracia reside na forma como cada um nós exerce, responsavelmente, os direitos que lhe foram concedidos. Por este andar, o wifi terá de ser subsidiado para garantir que os cidadãos possam exercer livremente o seu direito de voto.

Tal como José Pacheco Pereira (07/09/19), subscrevo o candidato que não vai “fazer 50 coisas” mas que se compromete a “fazer três, mas três estruturantes”.

Para tal, bastará coragem (política) e um sólido compromisso ético (e colectivo).


* Publicado na edição de 16/09/19 do Açoriano Oriental
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segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Mesa de amigos

Este Verão o tópico mais debatido na mesa de amigos terá sido a chuva de Agosto (e o turista rent-a-car).

Vivemos num antagonismo permanente, se antes tínhamos a reivindicação pela intensificação da actividade turística (para justificar os investimentos e para melhorar a rentabilidade do sector), assistimos, por estes dias, à perplexidade do residente perante a enchente de visitantes que percorre a ilha.

Como já aqui referi, a intensidade deste fenómeno não é vivenciada de forma idêntica por todas as ilhas, existindo, dentro de cada uma delas, locais cujo impacto é sentido de forma mais intensa.

Nestes últimos dias foi notícia um alerta da população das Furnas para o “caos” que se vive na freguesia, devido ao “excesso de viaturas e de turistas” (Açoriano Oriental, 23/08/19).

As Furnas são um espaço extraordinário que o tornam um local de visita obrigatória, a quem vem a São Miguel, os constrangimentos não são de agora mas o aumento do volume de trânsito, dos últimos anos, agudizou o problema.

Pela importância que tem e pelo equilíbrio que se pretende obter, entre economia e natureza, as Furnas há muito que deviam ter um plano de pormenor onde estivessem estipuladas, com rigor e clareza, as regras de ocupação de um território tão sensível quanto este.

Simultaneamente, este é um dado paradoxal, sobretudo, numa economia que vive, em larga medida, do turismo (e dos veraneantes).

É necessário olhar com outra atenção para esta realidade, sendo que mais vale tarde que nunca.

O Plano Estratégico e de Marketing para o Turismo dos Açores defende uma “Cultura de Turismo nos Açores” e a integração de temas sobre o setor do turismo na Disciplina de Cidadania (1º e 2º ciclos), como forma de “Educar para o Turismo”.

Em que ponto é que estamos na implementação deste plano?

As histórias que nos contam chegam de quase todas as ilhas e revelam a necessidade premente de aprender a lidar com uma nova realidade que interfere, inevitavelmente, com o nosso quotidiano.

Não vale a pena escamoteá-lo, nem ignorar que temos problemas (neste crescimento abrupto), eles não vão desaparecer (e é bom que não desapareçam).

A economia gerada pelo aumento do fluxo turístico é fundamental para a melhoria da qualidade de vida (de muitos açorianos), temos de nos adaptar e corrigir o que não está bem, para que esta seja uma coabitação pacífica.

Para além do roteiro que todos fazem, a ilha não está o “inferno” que se ouve por aí.

Não questiono a necessidade de melhorar as condições de visitação (estacionamento, sanitários ou centros interpretativos) aos locais de maior procura mas temos de ter presente, a bem da sustentabilidade ambiental e de uma boa prática no usufruto do território, que é urgente tomar medidas mais restritivas no acesso de pessoas (e veículos) a lugares sensíveis.

Para que isto seja possível, importa diversificar os pontos de atração turística e introduzir novos roteiros, para mitigar a pressão pelos existentes, os quais já não conseguem absorver o volume e a carga da procura actual.

Para quem (ainda) não tenha percebido, a influência da actividade turística no território não é virtual, assim como o residente insular não é um mero figurante (num cenário idílico).

O desenvolvimento desta matriz (identitária e de autenticidade) exige um enorme compromisso de todos nós.

Convém sublinhá-lo.

* Publicado na edição de 02/09/19 do Açoriano Oriental
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segunda-feira, 29 de julho de 2019

Menos é Mais

A atenção mediática tem colocado o arquipélago no topo das preferências dos destinos turísticos nacionais, e até internacionais, vendido como uma preciosidade em bruto e a descobrir (antes da chegada da uniformização turística).

A sazonalidade já não é o que era, a época baixa (pelo menos em São Miguel) passou a estar concentrada de novembro a março, passamos a ter um período intermédio (entre abril/maio e outubro) e a época alta aumentou o seu ciclo temporal (de junho a setembro).

Como já aqui referi, o impacto da actividade turística não acontece de forma homogénea pelo todo arquipelágico, existem ilhas que têm, inevitavelmente, um maior capital de procura e uma diversidade na oferta, a qual não é, não pode, nem deve ser, replicável por todas as outras (como alguns agentes pretendem que seja).

Por intermédio de uma reportagem da RTP-Açores tomamos conhecimento dos lamentos de um operador turístico (do grupo central) pela indisponibilidade de lugares (de avião) para aquelas ilhas. Não há muito (tempo) tínhamos a mesma reportagem a referir que não existiam passageiros. Agora a questão coloca-se de forma diametralmente oposta, o constrangimento não está na escassez mas no excesso da procura. E se não há lugares nos aviões, será que existem táxis, viaturas de aluguer, alojamento (legal) e restaurantes com capacidade de resposta para estes novos fluxos (turísticos)?

Este é um pequeno (grande) detalhe do qual pouco se ouve falar. Na resposta ao ímpeto turístico o défice na qualidade da resposta é significativo, e falta (ainda) muito por onde melhorar, da animação turística (qualificada) aos transportes públicos. Até porque se o destino é de natureza, existem muitos turistas que não estão disponíveis para alugar um carro e muitos são compelidos a fazê-lo porque, simplesmente, não há alternativa.

O Açoriano Oriental, na sua edição de 13 julho, fazia a seguinte manchete - “Turistas insatisfeitos com transportes públicos”, em cujo desenvolvimento podíamos ler: “O turista que visitou os Açores no Inverno IATA 2018-2019 está, de uma forma geral, muito satisfeito com a oferta do destino, mas apresenta níveis mais baixos de satisfação quando estão em causa os horários dos transportes públicos, a sinalização turística das estradas e a divulgação dos eventos socioculturais.”

Esta não é uma questão nova, está amplamente sinalizada mas carece da atenção devida. Numa região em que o transporte público é depreciado e observado (transversalmente) como se de um estigma se tratasse.

Mas se queremos o retorno económico da actividade turística, será que desejamos, assim tanto, os turistas que aqui aportam? Será que todas os ilhéus têm essa vocação, será que estes querem abdicar do seu modo de vida ou será que este é apenas o intento de alguns (poucos)?

Nos Açores, a história diz-nos que a economia é feita de ciclos (e de monoculturas), sendo certo que (hoje, tal como em outros períodos do passado) o turismo não pode ser o (único) eixo sobre o qual assenta a nossa economia. No entanto, ninguém ignora que, neste últimos anos, tem sido este o motor do (nosso) crescimento económico.

O mimetismo empresarial (em curso) é perigoso e pode ser tremendamente pernicioso numa inevitável normalização da procura, na medida em que não será possível continuar a crescer a dois dígitos, pois “os ciclos são os ciclos” e será “mais importante” a forma como saímos do ciclo e o modo como vamos “à procura do novo ciclo” (Pedro Costa Ferreira/APAVT, 17/07/19).

Regulação, diversificação e qualificação são medidas imprescindíveis para que possamos melhorar a experiência turística e o rendimento de todos os que trabalham neste sector.

É uma frase feita, muitas vezes repetida, mas importa, mais do nunca, saber como aplicamos a fórmula “menos é mais”.

* Publicado na edição de 22/07/19 do Açoriano Oriental
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quinta-feira, 11 de julho de 2019

PDL AL

Ponta Delgada é uma cidade de pequena/média dimensão no contexto português e à escala regional assume-se como a maior cidade açoriana.

Os Açores não têm uma capital, apesar de existirem muitas ‘capitais’ para os mais variados gostos e devaneios (Cascatas, Queijo, Turismo Rural, etc), umas mais ridículas do que outras.

No entanto, ninguém ignora que Ponta Delgada representa, por razões que não será necessário esmiuçar, uma parte substancial da actividade social, cultural e económica do arquipélago.

Apesar da importância que lhe está associada, a cidade tem tido um desenvolvimento atabalhoado e casuístico, consagrado por uma gestão municipal errante que, nas últimas décadas, tem intercalado o seu ‘modus operandi’ pela euforia triunfante e a (actual) apatia do “deixa andar”.

Esta semana numa reportagem do Correio dos Açores (03.07.19), a propósito do movimento turístico no centro histórico de Ponta Delgada e o seu impacto na economia da pequena restauração, comprovei algo que está ao alcance de todos mas cujo depoimento (na primeira pessoa) apenas veio confirmar uma constatação quotidiana.

Já (quase) ninguém habita o centro da cidade e a população flutuante é determinante para manter o negócio de porta aberta, senão vejamos o que nos é dito por um comerciante local: “se não fossem os turistas o Verão seria uma desgraça porque ninguém quer estar na cidade, e até aos Sábados, a partir das 14h00, não se vê ninguém nestas ruas”.

Outro dado que me parece relevante (salientar) é o facto de nenhum dos entrevistados negligenciar o cliente local, pois são estes que os sustentam durante a chamada época baixa.

Uma particularidade que merece ser sublinhada, na medida em que a volatilidade inerente ao sector turístico não nos deve iludir (subtraindo, neste processo, os residentes).

Alinhando pelo mesmo diapasão, o arquitecto Kol de Carvalho foi bastante contundente na crítica ao momento que experienciamos (entrevista ao Correio dos Açores, 15.06.19), onde não foi parco na adjectivação da (nossa) qualidade de vida e dos impactos da actividade turística (na cidade e na ilha).

Quando questionado se concordava com o Presidente da Câmara (de Ponta Delgada) quando diz que a pressão do turismo não está a ter impactos no urbanismo na cidade, respondeu simplesmente: “ou ele não sai à rua ou não se apercebe. Se calhar, anda sempre naqueles carros com os vidros pretos e não vê cá para fora.

E não se ficou por aqui, tocou em inúmeras feridas, ostensivamente ignoradas ao longo dos últimos anos, nomeadamente, a mobilidade urbana e a pressão do automóvel num espaço demasiado sensível para ser massacrado com o excesso de viaturas e poluição: “as ‘bertinhas’ não dão resposta e não estão coordenadas com o resto dos transportes públicos.

E no final deixou um aviso: “Não estou a dizer que se corte com o turismo. Estou a dizer é que se modele o turismo porque isto não é como as Canárias (…) Isto tem outra escala, tem outras necessidades, tem o diabo da paisagem e do ambiente que nós não podemos destruir. Quando destruirmos isso, o que é que temos?

Perante esta súbita mudança de paradigma impõe-se uma outra atitude e pro-actividade na gestão do espaço público.

A responsabilidade destes dias não é compaginável, nem comparável, com a bonomia de um desnorte continuado, nem a gestão da cidade pode estar consignada a uma mera função de porta de (des)embarque e de paraíso AL.

* Publicado na edição de 08/07/19 do Açoriano Oriental
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segunda-feira, 1 de julho de 2019

Sem excluir (ninguém)

A pressão gerada pelo crescimento turístico (dos últimos anos) tem contribuído para o presente dinamismo económico, visível em diversos quadrantes da sociedade.

Este movimento tem sido fundamental para a revitalização da economia, a qual tem operado uma enorme transformação da nossa disponibilidade (e atenção) em prol de uma actividade que foi até aqui, essencialmente, sazonal.

No contexto actual, não sou anti-turismo, nem contra os turistas (até porque todos nós acabamos por sê-lo), mas não posso aceitar que toda a iniciativa (e investimento), público e privado, tenha como única justificação, e prioridade, aqueles que nos visitam.

Andamos inebriados com o movimento gerado pelo fluxo crescente de turistas e há, em cada um de nós, um potencial empresário de alojamento local. No coração de uma cidade onde a reabilitação urbana só é possível devido a este mimetismo colectivo, como é que podemos falar de “autenticidade” se ninguém a habita e só existem casas (vazias ou de ocupação temporária)?

Até que aconteça um ajustamento na procura não me parece que esta situação se altere. O arrendamento de longa duração é uma missão (quase) impossível e 50% do negócio imobiliário é gerado por não-residentes.

Será que a nossa vivência colectiva é passível de ser transformada num “produto”?

Este devir ignora a(s) ilha(s) que fica(m) de fora do roteiro turístico e uma parte substancial da população não está preparada (nem disponível) para engrossar a fileira deste sector (seja por falta/excesso de qualificações ou por baixas remunerações), sendo que se trata de uma área que carece de recursos humanos especializados (num mercado altamente exigente e concorrencial).

Neste cenário que papel cabe à Cultura? Convinha primeiro destrinçar o que é animação cultural/turística de Cultura. No entanto, a realidade associada às festas (e festivais) de verão prova o contrário.

A Cultura é um instrumento útil quando afirmamos a nossa identidade e pretendemos valorizar as idiossincrasias que nos distinguem de outros destinos. Parece-me pouco.

Nos anos da (última) crise passamos a ouvir que era possível “fazer mais com menos” e que que as “indústrias culturais e criativas” (um equívoco) adicionavam economia à Cultura. Há coisas que vieram por bem, outras nem tanto. A escassez de recursos veio para ficar, esse é um cenário que dificilmente se alterará. E nem tudo é passível de ser produzido em série, importa, sobretudo, perceber isto.

E de que Cultura é que falamos? O programa cultural que vendemos aos turistas (mas que é na essência apenas para locais) não pode ser apenas preenchido com entretenimento, apesar de este ser, igualmente, necessário e de cumprir um importante capital (numa economia informal e de pequena escala).

O apoio da Cultura aos agentes (culturais) deve consagrar a sua acção na criação artística, na promoção das tradições, na valorização do passado e no acesso ao conhecimento.

O entretenimento não faz parte desta equação, pelo que importa, de uma vez por todas, clarificar esta questão, neutralizando a confusão vigente entre os diversos actores.

E o Turismo Cultural? Pode vir a constituir-se como um recurso diferenciador, pressupõe planeamento e requere um enorme esforço (colectivo) de concertação.

A sustentabilidade (ambiental, patrimonial e social) só fará sentido quando for vivenciada em pleno, e de forma transversal, por toda a comunidade (e sem excluir ninguém).


* Publicado na edição de 24/06/19 do Açoriano Oriental
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segunda-feira, 24 de junho de 2019

Turismo (cultural)

O turista que opta por vir aos Açores não o faz (na sua maioria) pela nossa matriz cultural (patrimonial e identitária) mas pela exuberância natural (ambiental) associada ao arquipélago.

Este é um destino recente na rota do turismo contemporâneo, isto se o compararmos com outros destinos amplamente consolidados em território nacional, como, por exemplo, o Algarve e a Madeira.

As peculiaridades do arquipélago, e a sua pequena escala, fazem com que a oferta não seja, tendencialmente, massificada (pelo menos é esse o entendimento estratégico, exemplos recentes têm revelado sinais em sentido contrário).

A curiosidade e o trabalho de promoção (dos últimos dez anos) fazem com que o destino Açores cresça, hoje, a dois dígitos.

Neste período (de transição) convém não negligenciarmos que os efeitos do incremento da actividade turística (e económica) não se distribui de forma homogénea pelo todo arquipelágico, pelo facto de sermos uma região multifacetada (um dos nossos maiores activos) alicerçada em múltiplas realidades (de ilha para ilha e de outras “ilhas” no interior da própria ilha).

Apesar de não existirem dados exaustivos (e detalhados) daquilo que o turista procura ver (e fazer), podemos socorrer-nos do trabalho realizado pelo Observatório de Turismo dos Açores (OTA), nomeadamente, o mais recente inquérito de “Satisfação do Turista que Visita os Açores” (dados de 2017), do qual realço alguns parâmetros que nos podem ajudar a (melhor) compreender o perfil e a opinião do turista que anda por aí: 67% apresenta elevadas habilitações académicas (licenciatura, mestrado e doutoramento); 50% programa a sua viagem com uma antecedência até 3 meses e 60% não viaja com pacote turístico. E terminam, este inquérito, com a sua opinião quanto ao que temos (ainda e muito) a aperfeiçoar (indicadores que não são, espero, novidade para ninguém): melhorar a preservação ambiental; a divulgação e os horários dos transportes públicos e, inevitavelmente, a divulgação dos eventos culturais.

Permitam-me que faça uma extrapolação (porventura abusiva) na correlação destes dados com a tendência crescente para o designado “turismo cultural”, o qual, na interpretação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OECD), está orientado segundo um determinado conjunto de factores: aumento do interesse pela cultura, como um fator de identidade e diferenciação face à globalização; níveis elevados de capital cultural, estimulados por crescentes níveis de educação; envelhecimento das populações nos países desenvolvidos; o estilo de consumo moderno, o qual dá prioridade ao desenvolvimento pessoal; a crescente importância da cultura imaterial e a crescente mobilidade, facilitando o acesso a outras culturas.

A relação dos turistas com a actividade cultural nos Açores é, maioritariamente, acidental mas pode e deve ser objecto de atenção e incentivo.

Existem, naturalmente, excepções e algumas organizações, face ao conteúdo que oferecem, apelam e comunicam de forma especializada para o público que pretendem atingir.

Cultura e Turismo estão condenados à correlação.

Para que desta interdependência possam surtir resultados, existem questões que importa colocar: a cultura deve estar ao serviço do turismo mas será que deve ser transformada num “produto turístico”? E aqui chegados será que corremos o risco de perder “autenticidade”? Temos recursos humanos capazes de responder à exigência deste(s) público(s)? A população está preparada para o acolhimento pretendido? Falamos de cultura ou de entretenimento/animação turística?

A resposta à pertinência e complexidade deste assunto fica para uma próxima entrada.

* Publicado na edição de 17/06/19 do Açoriano Oriental
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terça-feira, 4 de junho de 2019

Populismo

No rescaldo das eleições europeias, a brutalidade dos números da abstenção, no país e na região, não deixaram ninguém indiferente.

Estes valores não foram surpresa e, muito recentemente, tivemos conhecimento das conclusões do estudo solicitado pela Assembleia Legislativa Regional dos Açores (ALRA), no qual ficamos a saber (cientificamente) que os açorianos ‘culpam’ os políticos pelo facto de não votarem.

Este não deixa de ser um dado paradoxal e, permitam-me a extrapolação, um retrato sociológico desta sociedade. A qual, perante uma qualquer adversidade, ou contrariedade, culpa sempre alguém pelo seu infortúnio, refutando, a priori, qualquer responsabilidade na matéria. Mal comparando, faz-me parecer uma criança que ao fazer uma traquinice, responde com um culpabilizado: ‘não fui eu’.

No entanto, não podemos olhar para os resultados, nem para o nível de abstenção destas europeias, como uma fatalidade, sendo certo que, desde 1975, como refere o estudo, a abstenção nos Açores sempre foi superior à média nacional e manifesta-se de forma desigual nos diversos actos eleitorais (por exemplo, é nas autárquicas que se registam as menores taxas de abstenção).

No estudo do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade dos Açores, com coordenação do sociólogo Álvaro Borralho, as razões que estão no cerne da abstenção dos eleitores açorianos são a “falta de interesse”, 59,9%, seguida da “falta de cidadania”, 12,8% e, curiosamente, digo eu, a “falta de educação”, com apenas 2,5%.

Nas causas imputáveis aos partidos políticos, os quais os açorianos ‘responsabilizam’ por não se deslocarem às urnas, sobressai a categoria “estarem interessados em si mesmos”, com 33,5%, seguida de “estarem a perder credibilidade”, com 29,7%, com 15,1% surge o “estarem afastados das pessoas” e o serem “todos iguais”, com 13,8% (in Público, 15/05/19).

Estas são, na minha opinião, razões plausíveis, é certo, mas imbuídas de uma forte carga ‘emotiva’ e, tendencialmente, ‘populista’. E passo a contextualizar.

Para Cas Mudde, politólogo especialista em “populismo” (citado por Pedro Magalhães, 01/06/19), esta é uma “ideologia que considera que a sociedade está dividida entre dois grupos homogéneos e em antagonismo, o povo ‘puro’ e a elite ‘corrupta’, e onde a política deveria ser a expressão da ‘vontade geral’ do povo”. Nesta leitura, “o populista olha com ceticismo para o pluralismo de interesses e preferências entre a população e para tudo o que, nas democracias representativas, foi engendrado para o gerir - instituições e regras que impõem limites à hegemonia de uma única ideia e obrigam a cedências e compromissos. Por outro, encara a “classe política” com hostilidade, recusando a divisão de tarefas entre representados (o povo) e os representantes (os políticos) e desconfiando da ideia de que os segundos agem primariamente segundo a vontade dos primeiros.

Este é, na minha modesta opinião, o ponto em que nos encontramos. Estamos entrincheirados no interesse individual, e pouco, ou nada, motivados para o bem comum (e do próximo), andamos entretidos na partilha acéfala do ‘like’, no ódio ao que é diferente e em julgamentos na praça pública.

A ‘culpa’ não pode morrer solteira mas não é, apenas, imputável aos políticos e às instituições públicas. A democracia confere-nos direitos e responsabilidades, nas quais se insere a nossa participação cívica. Recusamos participar mas depois criticamos ‘ad nauseam’ aqueles em que não fomos votar.

Por estes dias, é mais sedutor diabolizar o sistema, os políticos e, recorrentemente, os beneficiários do Rendimento Social de Inserção (RSI).

Termino com um recurso que utilizo (frequentemente), “o que não faz sentido é o sentido que tudo isto tem” (Fernando Pessoa).

* Publicado na edição de 03/06/19 do Açoriano Oriental
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quarta-feira, 15 de maio de 2019

Vertigem

A cadência com que se anunciam novos investimentos imobiliários e turísticos é, deveras, vertiginosa.

Esta semana não foi excepção.

Através da comunicação social fomos informados que irá ser construído um empreendimento turístico na Rua de Lisboa, onde antes esteve projectada uma Central de Camionagem (entretanto engavetada), por um dos principais grupos hoteleiros a operar em Portugal.

Ponta Delgada, e a ilha de São Miguel, vivem uma forte dinâmica económica incrementa pelo crescimento do sector turístico.

A diversificação económica é importante para quebrar períodos de menor crescimento ou de crise.

Não o ignoramos.

No entanto, receio que não haja capacidade para suster o ímpeto, interno e externo, em torno do investimento no sector turístico.

Somos demasiado apetecíveis e muito condescendentes com quem nos afaga o ego, afirmando que as ilhas são um “paraíso” (mas cuja acção no território segue em sentido contrário).

Nesta medida, teria sido pertinente que tivéssemos trocado umas ideias sobre o assunto para que, na situação em que nos encontramos, pudéssemos agir (antecipadamente) na implementação de medidas de planeamento (e restrição), sobretudo, em áreas sensíveis.

A nossa atitude é, na maioria das vezes, passiva e reactiva.

Perante um certo imobilismo, ficamos reféns do investimento que nos propõem e mimetizamos exemplos de desenvolvimento que não são compagináveis com a realidade (social e económica) desta(s) ilha(s).

Volto ao início deste texto para referir um fenómeno, do qual, por cá, pouco ou nada se fala, e que tem, é certo, maior incidência, nacional, em cidades como Lisboa e Porto: a gentrificação.

E o que é isto da gentrificação (do inglês ‘gentrification’)? Para o Priberam, trata-se de um “processo de valorização imobiliária de uma zona urbana, geralmente acompanhada da
deslocação dos residentes com menor poder económico para outro local e da entrada de
residentes com maior poder económico.”

Não detemos a mesma escala de uma grande cidade mas os efeitos são equiparados e fazem-se sentir por toda a ilha, em particular, na cidade de Ponta Delgada e em zonas com valor imobiliário acrescentado, onde se observa o aumento significativo do valor de venda e de renda das casas (quando as há), a proliferação de estabelecimentos de alojamento local e, por exemplo, o encerramento de lojas históricas, com a inerente perda de identidade (rumo à homogeneização).

Mas nem tudo é negativo. Se o incremento turístico não existisse o centro histórico de Ponta Delgada estaria moribundo, a reabilitação urbana em curso é (muito) positiva mas é obra que resulta de uma situação fortuita.

Este investimento (incontrolado) será sustentável (para usar o adjectivo que nos serve de “mola”)? Andamos demasiado inebriados com os resultados do crescimento turístico? Ou nem sequer ousamos colocar a hipótese dele um dia se extinguir?

Acredito que a resposta está no equilíbrio (exigente) e na coabitação de interesses dos vários intervenientes (públicos e privados).

E para que isto possa resultar, será necessário exigência, responsabilidade e competência.

Contudo, a vertigem é grande.

* Publicado na edição de 13/05/19 do Açoriano Oriental
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sexta-feira, 3 de maio de 2019

À procura do próximo Ronaldo

Num tempo onde discutimos os benefícios do incremento da actividade física, a prática desportiva, que lhe está subjacente, visa a melhoria da qualidade de vida das populações e promove a competição (saudável) entre os indivíduos.

Na essência é assim, na prática nem sempre.

A política é (por esmagadora maioria) o alvo quando se falam de “casos” em Portugal, enquanto o futebol, em particular, é idolatrado e glorificado, mesmo e apesar dos impropérios, cujos sucessos (individuais) são avançados como referência para aquilo que o país deve (ou devia) ser.

Ele (futebol) está presente em quase tudo, os (piores) exemplos enchem a programação das televisões com vedetas de ocasião, e egos a condizer, distribuindo ressentimento e ódio a quem vê ou por lá, infelizmente, passa.

A irracionalidade clubística, seja em que modalidade for, incluindo, a política, não augura nada de bom, sendo que a incapacidade de olhar para além do desempenho da nossa equipa, por regra, não colhe bons frutos.

A actividade desportiva em torno do futebol é um grande negócio, com múltiplas ramificações e interesses, não podemos ignorá-lo, muito menos escamoteá-lo.

A intenção do alargamento de 10 para 12 clubes no Campeonato de Futebol dos Açores, só porque sim, deve servir de motivo à reflexão dos agentes desportivos.

Em entrevista ao Açoriano Oriental (26/04/19), António Gomes, o Diretor Regional do Desporto, refere que, mais do que as questões económicas, importa “verificar se as condições de base em termos do número de equipas garantem de forma valiosa as provas de ilha e se existem indicadores que assegurem esse futuro.

Esta não é uma questão menor, e acrescento mais algumas: fará sentido depreciar a formação de atletas formados nos clubes em detrimento da importação de jogadores (aparentemente de forma indiferenciada)? Estão garantidas as condições (logísticas e financeiras) para que este aumento do número de equipas no campeonato regional se verifique ou vivemos na expectativa do reforço orçamental (por subvenção pública)? Temos (a região) condições para apoiar todas as equipas/participantes que (seja em que modalidade for) subam de divisão?

Como resposta plausível, considero fundamental que seja definido um plafonamento do valor máximo de apoio a atribuir por equipa/modalidade. Garantido, deste modo, uma previsibilidade aos clubes para definirem, com rigor, os objectivos de cada temporada.

O que não faz sentido é que intendem o mesmo fim, sabendo, de antemão, que não existem apoios disponíveis (públicos e privados) que possibilitem uma participação ao mesmo nível (e ao alcance de todos).

Manifesto (também) esta minha preocupação por aquilo que assisto, semanalmente, nos campos da ilha e nos jogos de futebol dos escalões de formação. A distância é grande entre aquilo que se apregoa e o que se ouve fora do campo. Os pais nem sempre dão o melhor exemplo. E os clubes também não. Sobretudo, quando são permissivos perante as atitudes de quem assiste aos jogos.

A formação (a educação e a pedagogia) interessa(m) a quem? Ou andamos (apenas) à procura do próximo Ronaldo?

* Publicado na edição de 29/04/19 do Açoriano Oriental
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