terça-feira, 15 de maio de 2018

Autenticidade

Um dos pontos de paragem (obrigatórios) no roteiro turístico (contemporâneo) são os mercados citadinos, local de confluências várias, onde o viajante procura a autenticidade do local, através da participação num ritual realizado pelos residentes e como forma de enriquecer a sua experiência turística.

Para quem viaja regularmente, esta questão não é uma novidade, é apenas a constatação de um fenómeno em expansão.

O turismo democratizou-se e, por essa via, tenderá a massificar-se, quer queiramos, quer não. É algo que não podemos controlar, mesmo que não seja este o propósito com que nos alinhamos à partida.

A abertura do espaço aéreo (europeu) explica, em larga medida, o fenómeno turístico em destinos que nunca tiveram a oportunidade de crescer em número e em resultados.

Os Açores são (apenas) mais um exemplo de regiões, e cidades de pequena e média dimensão, que tiveram, de um dia para o outro, de se adaptar às novas contingências.

Considero que um desafio para viajantes e destinos passa hoje, inexoravelmente, por contrariar, dentro daquilo que é possível, a experiência massificada e indiferenciada, em que acabamos por ver, e degustar, as mesmas coisas, seja em que latitude for, na qual a ‘memorabilia’ acaba por ser idêntica para deixar de ser autêntica.

Pode parecer exagero mas devemos colocar as coisas em perspectiva, colocando de parte o número de camas, os proveitos da hotelaria, o número de passageiros desembarcados (por mar e pelo ar), focando as nossas atenções nos conteúdos (e serviços) que temos para oferecer.

A qualificação da oferta (da experiência turística Açores) não se pode distanciar da realidade e do quotidiano dos residentes, não podemos querer transformar estas ilhas num parque de diversões em formato radical, em que a natureza é servida como uma experiência limite, apenas, pelo facto, da sua mera contemplação ter passado a ser considerada: boring.

Como já aqui escrevi, e como referido numa das muitas palestras a que tenho assistido sobre este tema, uma das nossas vantagens é não ser identificados como um destino turístico, na medida em que em todos os destinos (consolidados) o pacote turístico já está formatado e customizado ao perfil do visitante.

Esta actividade é importante para a consolidação da retoma económica do arquipélago mas não deve ser a única (há que ultrapassar a ideia de ciclos económicos assentes na monocultura), sobretudo devido à fragilidade e riscos que a prossecução deste sector acarreta, em que qualquer oscilação, positiva ou negativa, representa, quase sempre, um impacto significativo para a cadeia de valor.

Voltando ao início deste artigo e aos mercados citadinos, como “espaços âncora” (adjectivação vazia de significado mas utilizada até à exaustão) de visitação, quem visita o Mercado da Graça, em Ponta Delgada, é confrontado com um espaço descaracterizado, sem alma e arquitectonicamente desastroso. Quem ainda se lembra do antigo Mercado?

Não sou saudosista mas urge requalificar aquele espaço dotando-o, e posicionando-o, para o que afirmarmos (de)ter em termos turísticos, na sustentabilidade dos produtos que produzimos e não na importação de frutas e legumes (indistintos e de origens diversas e pouco amigas da ideia daquilo que é sustentável) ao turista que vem à procura de autenticidade e que, muito provavelmente, a tem, em melhor qualidade, no seu destino de origem.

Importa não defraudar as expectativas de quem nos visita, sendo que não há promoção que compense a repercussão negativa de uma má experiência turística.

* Publicado na edição de 16/04/18 do Açoriano Oriental
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quarta-feira, 18 de abril de 2018

Há mais vida (para além do Rallye)

A Monocle é uma publicação de referência mundial, propriedade de um dos fundadores da Wallpaper, descrita, editorialmente, como um objecto entre a Foreign Policy e a Vanity Fair.

O número 57, publicado em outubro de 2012, continha, para surpresa, confesso, um artigo sobre os Açores, um local, segundo o jornalista, no “middle of nowhere”.

Hoje esta data parece longínqua, pois o clima económico, tal como estava, alterou-se significativamente, em que estes anos de alguma obscuridade, pela ostensibilidade provocada pela crise, transformaram o recente crescimento turístico num antidepressivo para as almas descrentes.

Um dos aspectos que mais me chamaram a atenção, para além de alguns comentários humorados, foi a abordagem pouco ortodoxa em relação ao desenvolvimento das ilhas, no qual são identificadas dez áreas de actuação (e de investimento futuro), a saber: a localização geográfica nomeada como central, um activo a potenciar, nomeadamente, como ponto de reuniões internacionais, associado a grandes organizações (NATO ou G20, por exemplo); outra solução passaria por uma prisão, uma solução polémica, é certo, mas a ideia de acolher uma Alcatraz do Atlântico por intermédio da implementação de um modelo de inclusão social experimental idêntico ao que é realizado na Noruega (Bastoy Island); um porto e um ponto de observação espacial; a sede de um canal noticioso para o espaço lusófono; uma universidade especializada para as questões da lusofonia; o nosso clima temperado podia permitir a existência de uma reserva e a criação de espécies exóticas; a criação de um ‘hub’ internacional para construção e reparação naval; o desenvolvimento da agricultura biológica e das energias renováveis e um resort de luxo com base na sustentabilidade.

Algumas destas ideias dão dimensão a muitas das nossas capacidades endógenas, atribuindo-lhes o contexto e a dimensão que lhes falta.

Passados estes anos, podemos constatar, felizmente, que algumas delas passaram a ser concretas, sobretudo, em termos ambientais.

A dinâmica económica obtida com o incremento turístico, e com a abertura do espaço aéreo dos Açores, tornaram obsoletas parte destas abordagens.

Saídos de um tempo de crise, esta súbita atractividade tem deixado tudo e todos deslumbrados, sendo que o ilhéu é um alvo fácil de seduzir.

Isto faz-me sempre lembrar o episódio (recorrente) do artista que afirma amar os Açores, esta terra linda, e as suas gentes mas que, no final, só conhece o quarto de hotel e a porta do camarim. O público, por regra, aplaude entusiasticamente.

Por estes dias, o arquipélago é vendido como uma jóia escondida, um animal exótico e um conjunto de outros atributos (ficcionados) para turista ler e que causam, sempre, alguma estranheza para quem aqui habita.

O verdadeiro desenvolvimento económico só terá significado se todas as acções promocionais reverterem, efectivamente, para uma melhoria sustentada da população residente, em termos sociais, culturais e ambientais.

De nada serve afirmar que queremos ser um destino sustentável se depois não construímos todos, sem excepção, de forma transversal, as bases para que tal possa acontecer.

E parte desta sustentabilidade passa por conseguirmos crescer como sociedade de forma equilibrada e não inflacionada por títulos, selos ou artigos na impressa nacional ou num teaser publicitário de um canal desportivo.

O sucesso dos Açores está na diferenciação das suas particularidades e nunca na proliferação de pacotes de animação massificada, dos empreendimentos aos serviços, na medida em que temos de conseguir promover o que outros destinos (já) não têm.

Este elemento surpresa está na afirmação da nossa escala e não em fazer do arquipélago uma coisa que ele não é.

É necessário ter presente que, temos de responder às elevadas expectativas dos visitantes, o retorno e o reflexo de uma má experiência provoca muito mais danos do que aqueles que possamos neutralizar pela melhor promoção do destino que dele se possa fazer.

E para que haja sustentabilidade, tem de existir um projecto (e um compromisso colectivo) a médio e longo prazo.

O festival Tremor é um bom exemplo do caminho que há a fazer. E a prova de que há mais vida para além do Rallye.

* Publicado na edição de 26/03/18 do Açoriano Oriental
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sexta-feira, 6 de abril de 2018

Napperon *

Ponta Delgada definiu como objectivo final do seu Plano Estratégico de Desenvolvimento ser Capital Europeia da Cultura em 2027 ou, no mínimo, realizar uma candidatura para sê-lo.

Três anos passados do anúncio desta aspiração, não encontro nada que me indique o que está a ser preparado para que tal aconteça.

A Cultura é quase sempre (des)considerada ou tida como uma coisa menor, desenvolvida por uns malandros subsidiodependentes com tempo livre e nada para fazer.

O tempo passou mas o preconceito mantém-se. E nestes dias, de maior constrangimento financeiro, ganhou nova força. Infelizmente, este discurso não escolhe ideologia e circula (abundantemente) em muitos dos corredores do poder.

No entanto, existem excepções mas há sempre quem configure a Cultura como um utilitário, nem que seja pelo lado figurativo ou simbólico na prateleira do adorno institucional.

Neste sentido, é muito provável ser este o entendimento, na aplicabilidade desta opção, através da qual podemos almejar cumprir com a métrica europeia apenas com a teoria económica, sem a capacitação da população em termos educacionais e culturais.

A economia ignora a realidade (social) para apenas se fixar no output.

A falta de ambição mina e define muito daquilo que somos.

Em sentido oposto, o excesso de ambição, o facilitismo ou até a irrelevância e ignorância da acção política, definha a estratégia de desenvolvimento para uma cidade ou até mesmo para uma região.

Não há uma ideia agregadora e com objectivos concretos (a médio e a longo prazo) quanto a este desígnio.

É isto que cogito acerca do vazio desta intenção (a de candidatar Ponta Delgada a Capital Europeia da Cultura).

Em sentido contrário estão outras cidades nacionais candidatas ao mesmo título, a saber: Coimbra, Aveiro, Guarda, Leiria e Viseu, na região Centro, ou Braga e Viana do Castelo, no Norte, Cascais e Oeiras, na área de Lisboa, e Évora e Faro, no Sul do país.

Ponta Delgada não figura em nenhuma pesquisa sobre o tema.

Os concursos para a atribuição do título de Capital Europeia da Cultura começam seis anos antes, sendo que na passada semana ficamos a saber que a Guarda apresentou o grupo de trabalho, que ficará responsável pelo processo de candidatura a apresentar em 2021.

Por cá, quando é que perspectivamos iniciar este processo? Ou este objectivo não era para levar a sério? Se assim é, que sentido é que faz designar este propósito se não é nossa intenção levá-lo até ao fim? Não será este um dos problemas do descrédito em torno da política e dos políticos, o real comprometimento para com os seus concidadãos ou naquilo que se entende por uma política de verdade?

A meados da década passada, a par com um grupo de personalidades, acreditei ser possível candidatar os Açores a Região Cultural Europeia, e não apenas com a participação de uma ou mais cidades, mas com o todo regional, com todas as suas potencialidades e fragilidades, na medida em que a realidade insular, da ilha ou do concelho, é muito díspar e está longe de ser aquela que Ponta Delgada, por exemplo, representa.

Nesta linha de pensamento, o secretário de Estado da Cultura, Miguel Honrado, referiu, por estes dias, que neste tipo de projetos “sobretudo numa Europa que é cada vez mais uma Europa das regiões”, onde “as regiões são priorizadas, em termos de desenvolvimento”, faz todo o sentido “pensar-se numa escala regional”.

Contrariamente a tudo o que se passa, continuamos a agir de forma individualizada e pouco estruturada.

E para que conste, a Cultura não é um napperon, o investimento (continuado) neste sector representa desenvolvimento e progresso.

Importa reafirmá-lo, sem pudor.

* Título original: A Cultura não é um napperon


* Publicado na edição de 19/03/18 do Açoriano Oriental
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sábado, 24 de março de 2018

Pequenos gestos

Não tenho por hábito utilizar este espaço (público) em benefício de causa própria. Contudo, há assuntos que extravasam o mero âmbito da agenda (cultural) e servem, espero, como alerta, para derrubar barreiras (invisíveis) ou para que, ao menos, se fale deles.

Tema(s) incómodo(s) que a ilha (nós todos, entenda-se) não assume e para os quais reserva uma enorme parcimónia, conservando alguma da indiferença que caracteriza as sociedades pós-modernas (ou aquilo a que convencionou designar da hiper-realidade).

Vem isto a propósito da exibição do documentário “I Don’t Belong Here” de Paulo Abreu, construído a partir de uma peça de teatro com o mesmo nome, da autoria de Dinarte Branco e Nuno Costa Santos, concebida a partir das experiências pessoais dos próprios intérpretes que, oriundos dos EUA e do Canadá, são deportados para os Açores.

Esta peça conseguiu um feito inédito, colocou não actores em palco, partilhando as suas histórias de vida, com uma determinação e uma força que os próprios desconheciam (e que produtores e público testemunharam).

E não estamos a falar de exemplos de sucesso, falamos de percursos familiares disfuncionais, desestruturados, violentos e plenos de dependências.

A coragem destes indivíduos (deportados), no assumir um lado menos esplendoroso da sua existência, foi captado pelo realizador durante um período de cerca de dois anos, gerando cerca de 240 horas de material filmado que, após editado, deu origem a um filme com 75 minutos, estreado na edição de 2017 do Festival Doclisboa, no qual obteve o Prémio Escolas/Prémio ETIC para Melhor Filme da Competição Portuguesa.

Este projecto surgiu de um desafio lançado a Dinarte Branco pelo Observatório dos Luso-Descendentes e contou com o apoio de inúmeras entidades, e de muitas pessoas, sem as quais esta empreitada não teria chegado ao fim.

O processo de produção da peça foi muito difícil, não só em termos humanos e de logística, mas também, em termos de montagem financeira, a qual obteve o apoio decisivo da co-produção da Rede 5 sentidos, uma estrutura informal de programação cultural composta por 11 estruturas culturais, da qual o Teatro Micaelense, faz parte, e que possibilitou a itinerância deste objecto artístico. O qual é, ainda hoje, assumido como referência de boas práticas na produção artística em rede.

Destaco, igualmente, os contributos da Fundação AMI, do Governo dos Açores (Direção Regional das Comunidades e da Cultura), da SATA, do Grupo Bensaude, da Açoreana Seguros e da Associação Novo Dia, sem os quais não teria sido possível financiar esta ideia.

Apesar disto, parte substancial do trabalho associado à conclusão do filme, e de parte significativa do processo preparatório, e do decorrer da peça, é fruto do investimento pessoal de todos os envolvidos, os quais dedicaram a este projecto muito mais do que o mero retorno financeiro, muito espartano, diga-se em abono da verdade.

O subfinanciamento da actividade cultural é um constrangimento anterior à crise, estes tempos de contenção apenas vieram fragilizar, sobremaneira, um sector que resiste, irracionalmente, ao determinismo economicista que dita os dias do presente.

Este projecto é a prova de que é possível acreditar numa sociedade melhor, que podemos todos ultrapassar as dificuldades que nos são impostas e temos, como muito e bem disse Álvaro Borralho, no final da exibição do documentário, de conseguir quebrar com os estigmas paralisantes (e permanentes) associados à realidade do indivíduo deportado.

Esta não é uma tarefa fácil, como se depreenderá, é algo que exige muito do próprio, de alguém que vive num estado de permanente injustiça, pelo facto de ter cumprido com a sua pena e que aqui, no espaço que o acolhe, experiencia uma dupla penalidade, na medida em que se vê coarctado da sua família e do meio que o viu crescer.

A desumanidade associada às leis da emigração faz com que o desânimo, e a descrença, façam parte do dia-a-dia destas pessoas.

Pequenos gestos como este, primeiro a peça de teatro e o filme que se seguiu, são contributos para que a cultura, também ela, funcione, de forma activa, para a transformação social.

Se não acreditasse nisto, não faria o que faço.

* Publicado na edição de 12/03/18 do Açoriano Oriental
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segunda-feira, 12 de março de 2018

Complementaridade(s)

A romaria à Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL) faz parte do calendário da estação, sem que se questione, sobremaneira, a participação da região neste certame.

Uma montra nacional, dividida entre uma componente dedicada a profissionais e outra dirigida ao público que acorre ao Parque das Nações, durante o fim-de-semana, na expectativa de aceder às inúmeras provas de produtos regionais (queijos, vinhos e enchidos) ou participar num sorteio para ganhar uma viagem aérea para o destino da moda.

Todos os anos há uma polémica associada à representação açoriana, este ano não foi excepção.

Apesar do sucesso dos anos recentes, os Açores necessitam de se afirmar, de forma consistente, como um destino creditado e não apenas como uma moda passageira.

O arquipélago é, ainda, um ilustre desconhecido. Isto constitui, no meu entender, uma vantagem. Mas para tal, é necessário garantir a promoção do destino como um todo, e não de nove partes distintas, como alguns parecem querer acreditar.

Ao contrário de outras regiões, os Açores estiveram (re)partidos no complexo da Feira Internacional de Lisboa (FIL) pelo pavilhão 1, onde esteve o stand oficial dos Açores (organizado pela Associação Turismo dos Açores - ATA), e pelo pavilhão 2, onde estiveram a Associação de Municípios da Ilha de São Miguel (AMISM), a Associação de Municípios do Triângulo (Faial, Pico e São Jorge) e os municípios das Flores e Corvo.

Esta luta de protagonistas (e de protagonismo) dita que não importa a (pretensa) escassez de recursos, sendo que a racionalidade dos gastos, neste como em outros casos, não é tida em linha de conta, inclusive, na eficácia associada a uma acção promocional concertada, em que, infelizmente, todos lutam, apenas, por um lugar na fotografia.

Relativamente a esta questão, a dispersão verificada nesta representação, os responsáveis pela promoção turística falam de um “retrocesso”.

Contudo, convém não esquecer que esta proliferação de meios não se extingue apenas na presença na BTL, ela também se verifica nos múltiplos canais (sobretudo online) em que cada qual tenta promover a sua região, seja ela uma ilha (Terceira) ou grupo de ilhas (Triângulo).

Paralelamente à realização da BTL, em que os intervenientes parecem querer investir todas as fichas num única e determinada aposta, parece-me contraproducente que, à semelhança da inexistência de um verdadeiro sentido de união em torno da promoção do destino, todos os eventos e iniciativas de animação turística estejam concentrados na época alta, período que já está, antecipadamente, vendido e que já não dá resposta à procura que, actualmente, tem.

Na ausência de uma estratégia articulada, cada município promove, até à exaustão, as suas festas concelhias e os seus “eventos âncora”, ignorando, na maioria dos casos, que o público-alvo, destas iniciativas, se esgota localmente e não constitui um cartaz suficientemente apelativo, nem seja a razão primordial pela qual os turistas se deslocam aos Açores.

Como é óbvio, existem honrosas excepções, mas continuamos a negligenciar a sazonalidade (novembro a março), pelo que, complementarmente à natureza, disponível todo o ano, é necessário investir nas actividades dentro de portas, nomeadamente, através de uma melhor dinamização da multiplicidade de espaços culturais (ao nosso dispor).

Para tal não basta edificá-los, importa dotar-lhes de meios (sobretudo financeiros), para que os mesmos possam desenvolver, capazmente, a missão que lhes foi confiada. A este propósito destacaria a comunicação da professora Susana Goulart Costa, na conferência de abertura dos III Encontros Daniel de Sá, na qual sinalizou a importância que deve ser dada à valorização do património cultural dos Açores.

Outro aspecto a destacar na experiência turística local, é a necessidade de afirmação da nossa identidade, naquilo que nos diferencia e distingue de outros destinos, recusando qualquer tentativa de homogeneização (e carácter indiferenciado) da oferta. Importa ter isto bem presente, no garante de uma actividade económica que queremos afirmar de forma duradoura (e que não tenha somente um carácter transitório).

Essa garantia começa e termina “cá dentro”, só depende de nós e de mais ninguém.

* Publicado na edição de 05/03/18 do Açoriano Oriental
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terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Sociedade do espectáculo

Vivemos num tempo em que o espectáculo comanda a vida, a desconfiança pelas instituições passou a ser um ditame e a realidade parece suplantar a ficção.

Do público ao privado, a nossa acção quotidiana é determinada pela necessidade de partilhar o simulacro de uma existência sofismada.

A polissemia das palavras e das representações em actos oficiais, tornados públicos em conferências de impressa, inaugurações e outras cerimónias afins, alimentam as redações e a timeline contínua, sem que haja um grande embaraço perante o perfil anémico dos conteúdos.

Os Açores não são excepção.

O debate sobre a coisa pública não pode, nem se deve esgotar na esfera política.

Algo que acontece vezes sem conta (e de forma recorrente).

A oposição parlamentar reclama pelo peso do sector público na economia regional, sendo que depois apresentam iniciativas que visam, apenas, o reforço (= aumento dos gastos) dos apoios públicos (que tanto criticam).

Os representantes dos empresários reclamam o mesmo, menos estado, menos governo e, paradoxalmente, mais apoios para o desempenho de uma missão que antes era pública.

Ignoramos que parte significativa da prestação de um serviço público não é compaginável com o determinismo da lógica empresarial ou pela implementação (cega) de um modelo de gestão.

Se assim fosse, já teríamos encerrado uma parte significativa destas ilhas e de uma parte substancial dos serviços públicos associados aos transportes, saúde, educação e cultura.

Ao contrário do populismo vigente, persecutório da coisa pública, os constrangimentos passados (e presentes) impuseram a racionalidade na gestão do sector público.

Os que defendem um estado melhor (= menos), a transparência das contas públicas e o combate à corrupção acabam, inevitavelmente, por defender o seu contrário quando confrontados com a lógica imposta.

Esquizofrenia? Ainda não é uma palavra proibida no léxico político mas é uma das que melhor define o actual estado de coisas.

Na actualidade arquipelágica, ficamos a saber que a “smart citie” é aquela que tem uma aplicação para pagar parquímetros e para seguir o percurso percorrido pelo minibus mas que, simultaneamente, é incapaz de tratar (eficazmente) os seus resíduos urbanos e deter uma estratégia concertada relativamente à fluidez do trânsito automóvel (no centro histórico, e não só).

E que o estatuto dos deputados sofreu uma actualização forçada, mesmo antes de uma revisão no regimento da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, na medida em que uma greve de fome passou a ser considerada ‘trabalho político’.

Os dias parecem não convocar à sobriedade.

Mário Vargas Llosa (A Civilização do Espetáculo, Quetzal 2012) reflecte sobre o presente: “Hoje em dia, em todas as sondagens que se fazem sobre a política, uma maioria significativa de cidadãos opina que se trata de uma atividade medíocre e suja, que repele os mais honestos e capazes e recruta sobretudo nulidades e espertalhões que veem nela uma maneira rápida de enriquecer.” E não só.

Independentemente de concordarmos mais ou menos com estas afirmações, as generalizações são perigosas e alguns aspectos menos positivos da vida política têm sido muitas vezes “ampliados de uma maneira exagerada e irresponsável por um jornalismo sensacionalista”.

O bom senso rareia, este é o tempo da “sociedade do espectáculo”.

* Publicado na edição de 26/02/18 do Açoriano Oriental
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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Sinais

Por estes dias ouvimos, em diversos contextos e vezes sem conta, que “os Açores estão na moda”.

O (recente) aumento do turístico fez esbater a sazonalidade, sendo que esta continua a fazer-se sentir, com intensidade, nestes frios meses de inverno.

Este aumento regenerou o sector da construção civil, um dos que mais sofreu com a crise, o qual, perante o inusitado aumento de obras de reabilitação, reclama por falta de mão-de-obra especializada. Não deixa de ser curioso a ironia que tudo isto comporta.

Neste momento, uma das áreas que mais emprega é a dos serviços associados à actividade turística, seja na restauração, na hotelaria ou na animação.

Afirmamos não querer entrar em euforia(s) mas o que experienciamos é um devir colectivo em torno deste sector, para o qual convergimos em sentido único. O incremento do turismo é, tendencialmente, sazonal e muito concentrado num determinado período do ano. Será muito difícil alterar este estado de coisas. E devemos assumir que há respostas que têm um carácter associado à sazonalidade e que apenas, desta forma, poderão garantir a sua sustentabilidade (palavra que passei a odiar).

Para atenuar esta ocorrência, devemos apostar em eventos distintivos e no turismo de congressos, sendo que aqui a concorrência de outros destinos é muito eficaz (e não vamos lá apenas pelos nossos lindos olhos). Esta opção implica investimento. Não vale a pena escamoteá-lo. Se não o fizermos, serão outros a garanti-lo.

O crescimento turístico tem uma expressão mais acentuada em São Miguel e, de forma mais desigual, nas restantes ilhas dos Açores. Com destaque, permitam-me dizê-lo, para a ilha do Pico que se afirma a cada ano que passa, alicerçada no seu amplo território e numa enorme riqueza patrimonial natural/cultural que reforça a sua singularidade.

Cada ilha é uma ilha, é um erro querer promovê-las de forma igual. E é um erro querer que sejam todas iguais, quando não o são. A começar pelas gentes que as habitam e pela forma como expressam a sua matriz identitária (que embora comum, é distinta).

A riqueza deste arquipélago, já o referi por diversas vezes, está aqui, nesta diversidade.

Para tal importa respeitá-la, a começar por todos (nós) e, em particular, por quem tem o dever de nos representar, na defesa, intransigente, do bem comum.

O fantasioso conceito de “desenvolvimento harmónico” não significa o mesmo para todas as ilhas, tem de ser adaptado à realidade (de cada uma delas).

Viver em Ponta Delgada, nunca será o mesmo que habitar Santa Cruz da Graciosa. Afirmar o seu contrário é querer, deliberadamente, ludibriar o (seu) próximo.

O desenvolvimento (presente e futuro) do arquipélago deverá basear-se no equilíbrio do investimento público, baseado nas suas necessidades reais e não pela criação de distopias com carácter ilusório (incapazes de responder a anseios reais e de efeito imediato).

Mas afinal que “moda” é esta?

Em entrevista ao Correio dos Açores (31.01.18), o fotógrafo Daniel Blaufuks (que tem patente a exposição “O Monte dos Vendavais” na Galeria Fonseca Macedo) sinaliza a voragem deste fenómeno: «A paisagem e a vegetação aqui são incríveis (…), assusta-me que as viagens low cost não só venham trazer mais pessoas, que trazem, mas que tragam também um progresso low cost. Se olhar para Lisboa, que é o que me está mais próximo, essa transformação é terrível e está a descaracterizar completamente uma cidade que tinha uma cultura fortíssima. (…) Tenho pouca esperança e tenho medo que isso em São Miguel também aconteça. E já se vêem sinais disso. Acho que isso é triste porque o que estamos a visitar é uma imagem. (…) O turismo em que todos participamos é o problema porque tem o seu lado económico bom, sem dúvida, mas é avassalador como um exército de ocupação.»

Opiniões como esta são, comumente, desvalorizadas e encaradas como fatalistas (e inimigas do “progresso”).

Saibamos ler os sinais (de que fala o artista).

* Publicado na edição de 05/02/18 do Açoriano Oriental
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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Um símbolo de resistência

Num período de profundas mutações nos hábitos de consumo de bens culturais e de lazer, as livrarias (tradicionais e independentes) lutam de forma desigual pela afirmação da sua cota de mercado, o qual não tem em linha de conta a diferenciação da prateleira mas o valor do desconto.

Isto numa semana em que ficamos a saber que encerrou mais uma livraria histórica em Lisboa, a Aillaud & Lellos, no Chiado.

Esta circunstância teve inúmeras repercussões e levou, inclusive, a uma chamada de atenção da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) para a necessidade de implementação de medidas de apoio (urgente) às livrarias ameaçadas de extinção, recomendando a análise dos mecanismos de apoio vigentes em França, exemplo maior nas políticas de difusão do livro.

Nos Açores, o número de livrarias é reduzido e há ilhas que não as têm. Por regra, o acesso ao livro é possível através das bibliotecas públicas (governamentais, municipais ou escolares), de outros espaços comerciais cuja vocação primordial não é o livro e, num número cada vez mais significativo, pela aquisição online.

Felizmente, ainda, existem espaços que mantêm a sua actividade de forma resiliente. Um dos melhores exemplos, entre nós, é a Livraria Solmar que, complementarmente, ao usual lançamento de livros com autores regionais e nacionais, mantém a organização de feiras temáticas e de iniciativas como a dos ‘Livros do Ano’, cujo principal objetivo é dar a conhecer os livros que constituíram a preferência dos leitores (convidados).

E aqui faço uma declaração de interesses, na medida em que fui um dos convidados da edição deste ano.

Tenho uma relação de amizade para com os seus proprietários, sou um frequentador diário da livraria, um espaço de encontros, de tertúlia improvisada, de conversas distendidas, num tempo dado a pressa(s).

A livraria é, igualmente, um campo de ansiedade e contenção, na medida em que ao olhar para as propostas alinhadas na prateleira, no gosto em desfolhar as páginas à minha frente e sentir o cheiro do papel, sei que não vou conseguir ler tudo o que (já) tenho (até final da minha vida).

Compro mais do que leio, é quase compulsivo, gosto de livros e, em Portugal, as edições estão melhores: nas traduções, na impressão, no design e no papel.
A humidade das ilhas deixa (na maioria dos casos) tudo a perder.

Devia ler mais mas, se pensar bem nisso, nunca li tanto como agora. O dia é preenchido a ler, de forma fragmentada (e acelerada).

Este é um fenómeno transversal a (quase) tudo o que fazemos, pessoal e profissionalmente.

O nosso consumo é realizado na diagonal, em formato descartável e de bolso. Vivemos um período de enormes transformações tecnológicas (que ainda só agora começaram) e que ditam (inconscientemente) a forma como nos correlacionámos, por exemplo, com o cinema, a música e o livro.

Passamos do disco, para a faixa e para a playlist do Spotify.

O cinema (em Ponta Delgada é um duplo desafio) passou para a BOX (oficial e pirateada) e as estrelas cinematográficas estão, preferencialmente, na série televisiva.

O ponto de encontro dos amigos passou a ser um grupo no Facebook.

E o livro dá muitas vezes lugar ao artigo na revista, ao jornal ou ao post.

Afirmar o (pretenso) cosmopolitismo de Ponta Delgada passa por olhar a singularidade de espaços como este, pela promoção (consequente) de políticas de apoio à difusão do livro (e da leitura) e pelo enquadramento de uma linha de apoios públicos a esta actividade (que é cada vez menos um negócio e devia ser entendida como um serviço público).

A livraria (Solmar e muitas outras suas congéneres) é, hoje, um símbolo de resistência à voragem do tempo (e do mercado).

* Publicado na edição de 22/01/18 do Açoriano Oriental
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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Ignomínia

Nos Açores, continua a ser necessário defender o investimento (incondicional) na Cultura, na criação cultural e na consolidação de meios físicos e humanos para a sua realização.

O populismo é epidémico, qualquer opinião que veicule o ‘desperdício’ de recursos públicos em prol da acção cultural, por regra, colhe muitos aplausos, muitos ‘likes’ e uma adjectivação menos abonatória para quem vive e trabalha no meio artístico.

Considero que o desconhecimento já foi maior mas continua a existir uma enorme depreciação pelas áreas artísticas.

O cenário é antigo, existem melhorias mas, ocasionalmente, são veiculadas um conjunto de preconceitos ou considerações avulsas, sem rigor, de quem desconhece o que se fez e o que se anda a fazer.

A ideia de que a cultura, ou a fruição cultural, tem apenas como destinatário uma suposta elite, é uma presunção perigosa que faz aumentar o estigma sobre este sector.

Os círculos de públicos associados à fruição cultural tendem a estender-se mas continuam, é certo, a ser preenchidos por uma minoria da população, sendo que o trabalho das instituições culturais passa por fazer chegar a cultura e um cada vez maior número de pessoas.

E não nos iludamos, a Cultura continuará a ser, se assim a considerarmos, um ‘privilégio’ de alguns. O desejo de futuro é permitir que este processo se dilua e os diferentes públicos possam encontrar o seu espaço. E ele existe.

Este trabalho não se baliza por uma fórmula de excel, nem se realiza de um dia para o outro.

Esta acção exige um trabalho contínuo, objectivos a curto e médio prazo e de ser consistente e, sobretudo, consequente.

Não sou adepto do fazer por fazer, os resultados são importantes, não menosprezo os quantitativos, são eles que ditam muito do que hoje fazemos, mas valorizo os quantitativos, mais difíceis de medir e de defender, num tempo em que tudo é mensurável.

A acção cultural nas áreas ditas tradicionais (música erudita, artes performativas, por exemplo) não é compaginável com a produção em série. Esta foi uma ideia veiculada nestes anos de crise, numa associação às indústrias culturais e criativas, facto que não corresponde ao que realmente se passa ou cujo papel não é, nem pode, ser confundido.

A Cultura tem de ser entendida como essencial, a par de outros sectores vitais (Educação), para o crescimento (desenvolvimento) da nossa comunidade, pelo que não pode ser medida, apenas, em termos economicistas. Fazê-lo é redutor.

O problema é que continuam a existir vozes que tendem a menosprezar o trabalho realizado pela comunidade artística, ignorando que este trabalho só é tornado possível, na sua esmagadora maioria, pela pulsão de quem ama o que faz, sem dele retirar grandes rendimentos e investindo muito do seu tempo pessoal (e familiar).

Olhar a Cultura apenas como uma forma de deleite de uma imensa minoria, é desconhecer a realidade que o rodeia e o intenso percurso percorrido por artistas e instituições.

No espaço público, continuamos a ser muito poucos na defesa da Cultura e do necessário investimento para a sua prossecução.

É tempo de repudiarmos toda e qualquer opinião mesquinha e falaciosa em torno do universo cultural.

O combate às desigualdades sociais também se faz por defender o acesso ilimitado aos bens culturais.

A inclusão (social e cultural) não se faz por exclusão de partes.

Defender o seu contrário, é uma ignomínia.

* Publicado na edição de 15/01/18 do Açoriano Oriental
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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Actuar (excepcionalmente)

O (re)início de uma nova temporada convoca a balanços, ao rearrumar da secretária e ao folhear de uma nova agenda.

Na arte de bem procrastinar, adiamos tudo até mais não e recusamo-nos a admitir o desacerto.

Na assumpção da (ir)responsabilidade, reencaminhamos o assunto, na vã esperança que alguém possa ler o email, identifique a origem do problema e actualize o perfil para o modo agir.

O Rui Tavares escreveu, na sua crónica diária, algo que baliza muito daquilo que hoje vivenciamos: “Às vezes o nosso trabalho mais importante é ver o óbvio. Às vezes, o trabalho mais difícil é admiti-lo. Ver o óbvio parece demasiado fácil. Admitir o óbvio parece demasiado simples. E nós preferimos, por múltiplas razões pessoais e sociais, passar por complexos e difíceis”.

O óbvio não significa, forçosamente, uma simplificação, nem uma menorização, muito menos, a sua banalização.

Um exemplo - deste efeito de neutralização - são os noticiários que passaram a ser um sucedâneo em horário nobre (e a tempo do jantar) de um ‘reality show’, na medida em que o alinhamento dos acontecimentos tem de ser estimulado, carecendo de um carácter sensacionalista, persecutório ou extraordinário. À semelhança da ida ao supermercado, a rotina quotidiana do ‘agenda setting’ passou a ser um aborrecimento, uma chatice.

Por estes dias, li uma entrevista a Naomi Klein, na promoção do seu último livro Dizer Não Não Basta (Relógio D’Água, 2017), em que a autora afirmava isso mesmo: “as pessoas vêem as notícias da mesma maneira que vêem ‘reality shows’. Vêem-nas como entretenimento, causam dependência, criam expectativa como as Donas de Casa Desesperadas” (Público, 29.12.17).

Uma síntese (quase) perfeita da causalidade sem nexo, num período conturbado da nossa existência global, onde a informação passou a ser ruído ou um contributo activo para o permanente desnorte em torno da próxima vítima, catástrofe ou escândalo.
 
No entanto, o poder de atracção é, simultaneamente, paradoxal, num tempo em que se consomem menos jornais pela via tradicional, qual a solução para combater a transferência de audiências (e receitas publicitárias) para o online?

Bem sei que esta pode ser entendida como uma visão pessimista mas não encaro a realidade (presente) com nostalgia, nem como uma inevitabilidade, opto por imprimir algum pragmatismo na minha utopia.

O tempo, como as relações sociais (pessoais e profissionais), passaram a ser encaradas em ‘fast forward’, reduzidas a um prazo de validade. Andamos agarrados a algo que não sabemos bem o que é mas cujo objectivo (per)seguimos, de forma mais ou menos inconsciente, abandonando o que verdadeiramente importa.

Mal comparando, é como preconizar a solidariedade em prol dos mais desfavorecidos à distância do ecrã, em detrimento do vizinho idoso, solitário e carenciado que, ostensivamente, negligenciamos.

As acções de beneficência passaram a ter uma contabilidade em ‘selfies’, ‘likes’ e na partilha, sem questionar, da caridade alheia. Quem (realmente) ajuda e dedica o seu tempo em prol de quem mais necessita, será que o faz a troco de uma fotografia, da notícia no jornal e/ou do reconhecimento público? Provavelmente não, mas não faltam candidatos em sentido inverso.

O ano que passou foi a prova da incapacidade nacional em reconhecer a sua participação na acção do Estado, essa entidade sem rosto que todos culpam, na procura incessante por um bode expiatório para as suas insuficiências.

Esquecemo-nos, vezes demais, que o Estado somos (todos) nós. É bom que possamos actuar - excepcionalmente, sem carácter de excepção - melhor.

Simples desejos para o ano que, agora, se inicia.

* Publicado na edição de 09/01/18 do Açoriano Oriental
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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Ir para além das aparências

A RTP-Açores inaugurou, finalmente, a remodelação das instalações em Ponta Delgada, colocando a rádio e a televisão a trabalhar lado a lado ou, pelo menos, debaixo do mesmo tecto.

Esta era uma reivindicação antiga, a necessidade imperiosa de dotar (e actualizar) tecnológica, e materialmente, as ferramentas de quem trabalha no serviço público de rádio e televisão.

Após anos de avanços e recuos, este é um acto que transporta uma enorme carga simbólica mas é, simultaneamente, importante, na redefinição do que se pretende para a sua missão futura.

O momento inaugural foi consubstanciado pela presença do Presidente do Governo Regional, a Administração da RTP, o Conselho Geral Independente e inúmeros convidados da sociedade civil.

Ninguém negligência a importância que este serviço tem, mediante aquilo que foi transmitido nos discursos oficiais, sendo certo que este é apenas um (pequeno) passo e que os desafios de futuro não se extinguem com a chegada do “digital”.

Os profissionais da RTP-Açores são os primeiros a dizê-lo (e já o assumem há muito tempo).

A acompanhar este processo de fusão, deveria (foi?) ter sido promovido, em paralelo, a criação de um grupo de trabalho para discutir (definir e/ou objectivar) os conteúdos futuros da “nova” RTP-Açores.

Mais importante do que a qualidade da imagem, do cenário ou do som, importa alicerçar a acção de serviço público em matéria de relevante interesse para a comunidade (e para o território), cuja concretização não pode estar à mercê, como já foi defendido, das vicissitudes da “sociedade civil”.

Quando se falam dos “anos dourados” da televisão regional, esquecemo-nos que, muito do que foi realizado (e ficcionado), só foi tornado possível por ter existido investimento. A partir do momento em que ele desapareceu, tudo se esfumou e passamos a viver de nostalgia, memória e “enlatados”.
Entendo que pudessem existir, no passado recente, questões de ordem técnica que inibissem a renovação dos conteúdos. Mas nem tudo se explica por aqui.

Em virtude deste (aparente) vazio (na programação), considero que a alteração do paradigma (tecnológico) irá revelar (ao invés de potenciar) as múltiplas fragilidades da actual produção de conteúdos.

Nestes últimos anos, mesmo e apesar das dificuldades que se conhecem, a rádio pública conseguiu, de forma mais ou menos tranquila, sobreviver ao ostracismo a que foi votada.

O mesmo não se poderá dizer da televisão. Quando afirmamos a importância que esta tem para a autonomia regional, para a afirmação dos Açores no país e no mundo, que imagem é que transmitimos (para os decisores externos) quando se promove uma emissão consolidada por um conjunto de programas datados e indiferenciados? Será que ninguém se preocupa com o público que vê e que procura na televisão regional um conteúdo com o qual se identifique? Conhecem alguém com menos de 30 anos que assista à emissão (diária) do canal regional?

Perguntas não faltam, preocupa-me, sobretudo, a alheamento das respostas.

A minha percepção leva-me a concluir que continuamos a preconizar (para a televisão pública) um modelo do passado (em HD), assente na glória do passado e na produção (pouco criteriosa) da “ficção regional”.

Podem, obviamente, não concordar com esta leitura, nem quero aqui afirmar que não haja espaço para a ficção. No entanto, os conteúdos devem ser mais abrangentes, visando outros âmbitos, nomeadamente, na discussão do que são hoje os Açores e no “ir para além das aparências (…) e da concorrência” (Pierre Bourdieu, in Sobre a Televisão).

O caminho desta autoestrada (da comunicação digital, global e em tempo real) não se faz num só sentido, existe uma enorme reciprocidade e importa perceber, de uma vez por todas, que (já) não estamos sozinhos (no éter).

A sustentabilidade (futura) - do serviço público de rádio e televisão nos Açores - será aquilo que nós quisermos que ela seja.

Saibamos lidar com os desafios do presente mediante um posicionamento de futuro.

* Publicado na edição de 11/12/17 do Açoriano Oriental
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quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Fake News


A notícia nacional: Autarquias gastaram menos em atividades culturais em 2016.

Qualquer semelhança com a realidade, e por aquilo que se entende por "actividades culturais", é pura ilusão!

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Orgulho (a quanto obrigas)

A Açoreana/Tranquilidade e o jornal Expresso realizaram, esta semana, em Ponta Delgada, um debate sobre os desafios e as oportunidades que se colocam ao Turismo dos Açores.

O painel foi moderado por João Vieira Pereira, diretor-adjunto do Expresso, e teve como convidados Filipe Macedo, director regional do Turismo dos Açores; Isabel Barata, vogal executiva da SATA; Jan de Pooter, CEO da Tranquilidade/Açoreana; João Welsh, administrador do grupo CBK; e Miguel Muñoz Duarte, professor da Nova School of Business.

O arquipélago está no centro de todas as atenções, sobretudo, devido ao fenómeno, recente, do crescimento turístico.

Este tipo de discussões são bem-vindas e gosto, particularmente, de observar a forma como são recebidas entre portas, oscilando entre o entusiasmo incontido e a desconfiança, na medida em que há quem não concorde (e aceite) que outros falem de nós.

Mais do que qualquer avaliação da prestação (de quem olha de fora para dentro), considero fundamental a prossecução deste tipo de iniciativas, como impulso à reflexão, que se impõe, sobre a realidade que nos rodeia. Esta tem sido uma incapacidade endógena. A resposta não pode ser reactiva. Importa, primeiro, conhecer e aprofundar os nossos pontos fortes e as nossas fraquezas. Temos, inclusive, uma dificuldade em rir de nós próprios, sendo que já me disseram que, por cá, não há espaço para ironia. Sintomático?

Deste painel, retive várias leituras mas sublinhei o que disse João Welsh, madeirense, quando referiu a importância estratégica que a SATA/Azores Airlines tem para os Açores. Já não é a primeira vez que uma individualidade do “arquipélago irmão” realça esta questão, reveladora de alguma mágoa, o facto de não deterem este capital - uma companhia aérea regional. E o que dizem (e têm dito) os açorianos a este respeito?

O orgulho açoriano é passivo/reactivo, em particular, e quase sempre, devido uma crítica proferida por uma entidade externa. Contudo, somos filhos pródigos em depreciar muito do que temos, estabelecendo comparativos irrealistas e procurando culpar, não raras vezes, os outros, por algo que (só) depende de nós.

Para ilustrar o que aqui escrevo, e a título superlativo, quando estamos num restaurante na Madeira e pedimos uma cerveja, quais as opções que nos apresentam? Uma, a cerveja regional. E se pedirmos outra marca? O empregado faz por insistir (orgulhosamente) nos adjectivos qualitativos, até que nos convença que é a melhor cerveja do mundo. E por cá? A marca regional já nem sequer é opção na maior parte dos locais, sendo que passou a ser uma epopeia beber, nos Açores, uma Melo Abreu. Simbólico?

Antes dos outros, temos de ser nós a valorizar, a promover e a consumir o que produzimos.

Isto já para não falar da “dinâmica” do mercado interno, no qual todas as ilhas querem “exportar” para São Miguel mas em que a presença dos produtos da ilha verde em determinadas ilhas, é o que sabemos. Assim, não vamos lá, enquanto se mantiver o bairrismo ilhéu, em que cada ilha copia a do lado, como revindicação de um (falacioso) desenvolvimento harmonioso.

Transpondo esta leitura para o período consumista que se avizinha, existe um factor que, na minha opinião, tem sido profusamente negligenciado: a saída exponencial de recursos da região, com um impacto económico significativo no tecido empresarial local. Se é verdade que temos mais visitantes, e que há sectores da economia que estão a beneficiar com isto (hotelaria, restauração e aluguer de automóveis, por exemplo), noutros sectores, reféns dos gastos de quem cá habita, estamos a assistir a uma transferência desse consumo para o exterior, consubstanciado por viagens mais frequentes e pelo incremento das compras online. Seria interessante analisar estes dados. Alguém?

E aqui, será difícil empurrar a(s) culpa(s) para o Governo. E daí, talvez não, dirão os mesmos, já que este ousou aumentar o rendimento disponível das famílias.

O orgulho por aquilo que é “nosso”, também, se (des)materializa, por (in)acções como esta(s).

* Publicado na edição de 04/12/17 do Açoriano Oriental
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segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Oportunidade

Os Açores continuam a bater recordes de passageiros (nos aeroportos), turistas e estadias.

Os investimentos (privados) multiplicam-se e animam a economia, sendo certo que, muitos deles, representam uma fuga em frente, agindo ao sabor do rebanho. Os melhores prevalecerão.

A resposta aos novos desafios não pode significar mais do mesmo, ou a mera replicação de modelos (desajustados) à nossa identidade e geografia. Do mesmo modo, que não é possível responder qualitativamente às exigências do consumidor contemporâneo através das nossas referências pessoais.

Não podemos descurar este ponto. Temos de saber ler o outro, estudar o perfil de quem nos visita e perceber o que procura.

E, sobretudo, não cair na tentação de ficcionar o destino Açores, promovendo uma coisa que ele não é.

Partilho um exemplo, destes dias, para aqui demonstrar o que quero dizer. Um empresário, detentor de um alojamento de turismo rural, foi acometido pelo desabafo de um casal de turistas nórdicos que considerava que a ilha (em que estavam) apresentava uma paisagem muito humanizada, contrária às imagens promocionais a que tinham tido acesso. Procuravam um território menos habitado, e menos construído, para fugir à azáfama de um grande centro. Perante este facto, decorrido numa das maiores ilhas do arquipélago, acabaram por rumar ao grupo central, na esperança de encontrar o arquipélago intocado que lhes tinha sido vendido.

Nada como algo totalmente inesperado para fazer alterar (e reponderar) as nossas convicções (absolutas). Este episódio é apenas mais um, dos muitos que todos temos e partilhamos entre amigos.

A ideia de desenvolvimento que preconizamos será compaginável com o destino turístico que afirmamos ter (e queremos ser)?

Parece-me que o conflito de interesses é, neste capítulo, uma evidência. Ignorá-lo, poderá determinar um conjunto de consequências imprevisíveis no desenvolvimento que preconizamos.

Neste sentido, o investimento reprodutivo deu, hoje, lugar a um novo jargão em torno da ideia de sustentabilidade.

No essencial, e conceptualmente, estamos todos de acordo quanto à necessidade de aplicar nos Açores, um espaço geográfico circunscrito, um conjunto de boas práticas quanto à gestão do território, dos recursos e dos resíduos.

Contudo, a sua aplicação prática revela-se bem mais difícil de operacionalizar, esbarrando num conjunto indeterminado de regulamentação, de inoperância e de falta de liderança (nos projectos).

Apesar da nossa exiguidade territorial (e populacional), a plêiade de entidades que gerem o nosso pacato modo de vida fazem-nos colidir, invariavelmente, com uma muralha burocrática (dita simplificada) em rede.

Agimos digitalmente (ainda) através do ditame do papel timbrado, passando da fotocópia ao PDF. O expediente parece fluir mas o carácter é, extremamente, ilusório.

No devir da hiperbolização mediática, em que o gosto/(des)gosto - e a partilha viral ditam a abertura do noticiário e do telejornal, parece existir menos tempo para a reflexão ponderada e a sensatez dos actos de gestão (e de governação).

Após o tempo eleitoral, parece tudo continuar como dantes. A inconsequência não exige responsabilidade e a impunidade reina ao sabor da indiferença generalizada (com a oportuna ajuda da imprensa apaniguada).

O momento actual representa uma oportunidade para a sustentabilidade (social e económica) dos Açores, um lugar “identitário, relacional e histórico”, não façamos deste local um “não-lugar” (Marc Augé, 2012).

* Publicado na edição de 20/11/17 do Açoriano Oriental
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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Antero Hoje (e Amanhã?)

Os 175 anos do nascimento de Antero de Quental foram motivo para a realização das jornadas “Antero Hoje”, que decorreram na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, numa organização conjunta do Governo dos Açores e da Fundação Calouste Gulbenkian, para evocação da memória do poeta que Eduardo Lourenço (um dos oradores convidados) nomeia como exemplar único da nossa literatura, excedendo Camões, e com uma obra “naturalmente universal” (Açoriano Oriental, 09/11/17).

A exaltação da obra de Antero é motivo de um orgulho (in)contido, na medida em que as palavras não acompanham a(s) prática(s). O paradoxo está instalado no meio de nós.

Nunca entendi a razão pela qual, na sua terra de origem, a manifestação cultural da sua obra é feita com alguma parcimónia, ensombrada, talvez, por um pudor, sem sentido, em torno da forma como morreu.

Mais do que apenas o estudo da obra e do homem, é necessário que o conhecimento ultrapasse os muros da academia e contamine, sem rodeios, o território e a comunidade que nos rodeia.

Com isto não estou a dizer que devamos dessacralizar a sua obra, temos, sim, de encontrar formas de fazer chegar Antero aos dias de hoje, por intermédio de outras linguagens artísticas, utilizando, paralelamente, as novas plataformas digitais para chegar ao público de hoje (e de amanhã).

A simbiose estabelecida entre Lisboa e Fernando Pessoa é apenas um bom exemplo para o que deve ser realizado entre nós. Um e o outro são sinónimos, a reciprocidade beneficia todos. E porque, já, não o fizemos em Ponta Delgada?

Porque razão não se avançou, há mais tempo, com um espaço de promoção da sua memória? Qual o impedimento na identificação e dinamização do roteiro concebido pela Direcção Regional da Cultura (sob a orientação do Professor Fagundes Duarte)? Porque é que não existe um prémio literário com o seu nome?

Por desleixo, desinteresse ou, simples, ignorância?

Considero que ainda vamos a tempo de ultrapassar todas estas insuficiências, sendo que a oportunidade gerada por estas jornadas, e pela importante parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian, deve servir de catalisador a futuras iniciativas, ou mesmo, na criação de um evento literário com carácter anual que posicione a cidade, e os Açores, no mapa das letras do país (e do mundo).

Tempo (ainda) para (+) uma polémica
Paddy Cosgrave, fundador da Web Summit, já pediu desculpa ao país pela realização de um jantar no Panteão Nacional, em Lisboa, onde juntou vários empresários e investidores no último dia da cimeira de tecnologia.

Está instalada a mais recente “polémica pop up” (André Bradford), instigada por uma nação que procura nos escombros da memória, o alimento para a tragédia seguinte.

Polémica à parte, o que esta questão revela, como referiram, e bem, o BE e o PCP, é a precariedade dos orçamentos associados à gestão do património e à política cultural.

Caso os orçamentos fossem compatíveis com a responsabilidade que o estado tem, e assume, este(s) caso(s) não seria(m) notícia.

A hipocrisia também andam em alta, na medida em que o que antes era entendido como “boa gestão”, hoje representa a indignação colectiva ao sabor do populismo viral.

A falta de orçamento para a Cultura, não pode tudo justificar, sendo que obtenção de receitas deve cumprir com limites e “o respeito pela dignidade dos espaços e pela sua preservação” (António Filipe, 12/11/17).

Sublinho.

* Publicado na edição de 13/11/17 do Açoriano Oriental
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terça-feira, 14 de novembro de 2017

Valores (renovados)

Por vicissitude familiar, percorro, semana após semana, os múltiplos campos de futebol (sintéticos) disseminados pela ilha.

Um conjunto significativo de clubes possui, e bem, uma escola de formação, por forma a contribuir para a sustentabilidade futura da instituição. E para, acredito, contribuir para a aquisição de hábitos de vida saudáveis através da prática desportiva (dos escalões mais jovens).

Se por um lado é verdade que os princípios basilares estão lá, quando chegados à competição acabamos por não encontrar estes jovens a jogar na equipa principal.

Estes dão lugar a um conjunto indiferenciado de interesses que chocam com o que é, sistematicamente, apregoado. Nesta lógica de capitalização cega, perpassa a fidelidade à região (e ao que é ‘nosso’), sendo que na prática não é isto que acontece, onde os plantéis das equipas apresentam, na sua maioria, um conjunto importado (e de pouco valor acrescentado). E porquê?

Mais do que o agitar da bandeira (e o exacerbar do nacionalismo endémico), será mais prudente, e relevante, investir na formação desportiva, por forma a garantir a continuidade da prática desportiva através do cultivo de uma fileira de recursos endógenos. Só aqui é que poderá existir uma ideia de sustentabilidade (futura).

Esta é uma questão transversal às diversas modalidades e não apenas um exclusivo do universo associado ao futebol, o qual terá, porventura, no arquipélago, maior expressão.

Considero que a região deve analisar, se é que já não o faz, os critérios de seriação e os objectivos inerentes à participação desportiva das equipas açorianas, nos inúmeros campeonatos nacionais, nomeadamente, com o cumprimento de regras, por exemplo, quanto ao número de praticantes residentes no arquipélago presentes nas equipas em disputa.

Que sentido é que faz que um clube açoriano, a participar num campeonato nacional, não tenha nos seus quadros um jogador oriundo dos Açores? Se assim é, qual a pertinência do investimento em formação nos escalões juvenis? Ou ela apenas preenche uma formalidade no acesso aos apoios oficiais?
Estas são apenas algumas questões com as quais me tenho deparado nos últimos anos, sem que haja uma real evolução quantos aos objectivos elencados a cada temporada que passa.

Eles existem, é certo. Mas ficam-se pela subida (de divisão) e pelo aumento dos recursos financeiros.

A importância do desporto na formação dos jovens, numa cada vez mais acentuada necessidade de gerar estilos de vida saudáveis, numa região com propensão para dependências, é algo incontornável.

Contudo, devemos olhar, igualmente, para o que passa dentro e fora do campo.

Isto porque, por um lado, chamamos a atenção dos mais novos para a criação de uma boa conduta desportiva, alicerçada no respeito mútuo, na convivialidade e na disputa salutar. Por outro, assistimos, fora das quatro linhas, a um paradoxo protagonizado por algumas entidades parentais que olham para os filhos como um projecto de rentabilidade futura, inebriados pelas luzes da ribalta mediática, vociferando valores dissonantes aos que são incutidos nos jovens desportistas.

Importa projectar para as novas gerações, valores renovados. E que estão para além do mero valor mercantil (e do sucesso fugaz) associado à prática desportiva. Nada disto se constrói pela lei do mais forte (ou do que grita mais alto).

A Educação e a Cultura, também, fazem parte desta equação.

É bom que não nos esqueçamos disto.

* Publicado na edição de 06/11/17 do Açoriano Oriental
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segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Sentido de responsabilidade

O fogo do país real rebentou com a bolha de uma nação refugiada no litoral, em torno dos grandes centros urbanos e que se esquece(u) do interior profundo (e da periferia das ilhas).

A aldeia arde todos os anos - já todos sabemos - mas este foi um ano atípico, em que os incêndios foram mais que muitos e, para infortúnio nacional, o número de mortos ascendeu à centena.

Acordamos, incrédulos, para uma realidade que sabemos, remotamente, existir. Contudo, nesta situação, a distância da tragédia foi suprimida pelo ‘prime time’ noticioso, o qual encheu de indignação a ‘timeline’ do livro que todos aparentam ler.

Independentemente das falhas do sistema nacional de protecção civil, e do desacerto da acção política na gestão dos acontecimentos, é justo reconhecer, sem parecer descabido, que estamos perante uma situação anómala, na qual a meteorologia desempenhou um importante papel.

Do governo aos autarcas, ninguém tem dúvidas: há mão criminosa nos fogos. Não será tempo de encarar seriamente esta questão, alterando a moldura penal dos incêndios com origem criminosa? Neste sentido, e para além da vontade governativa, existe (desde Agosto) uma petição online que conta com cerca de 60.000 assinaturas, reunindo as condições para que seja discutida no parlamento nacional.

Simultaneamente, e paradoxalmente, para quem assiste na serenidade do arquipélago a esta tragédia, sem paralelo entre nós, é incrível que Outubro, ainda, nos propicie um banho de mar. Mas não deixo de me questionar sobre este facto, agradável, sem dúvida, mas o resultado de um mundo em mudança, cujos impactos são difíceis de medir e que se fazem sentir, sobretudo, através de fenómenos meteorológicos extremos, num país de contrastes e que se encontra, actualmente, num acentuado processo de erosão e desertificação (física e humana).

Apesar do aparente relativismo da nossa posição geográfica, os Açores não estão imunes a este estado de coisas, sendo que esta localização nos torna, porventura, mais vulneráveis aos efeitos negativos das alterações climáticas.

Por forma a antecipar o impacto que estas irão ter no nosso modo de vida, foi criado um grupo de trabalho multissectorial para elaborar uma proposta do Plano Regional para as Alterações Climáticas (PRAC), assumida como “uma ferramenta fundamental para o planeamento e intervenção ao nível do território, no que respeita à mitigação das emissões e às necessidades de adaptação às mudanças climáticas” (GaCS, 25/01/17).

O resultado deste exercício de sistematização está disponível para consulta pública até 15 de novembro de 2017.

Era bom que deixássemos o like de ocasião no conforto do sofá e que contribuíssemos, efectivamente, para uma mudança de comportamentos que a todos dizem respeito.

Este tipo de atitudes implicam compromisso, rigor e múltiplas cedências.

Será que estamos disponíveis para as assumir?

Noutras dimensões, a nossa reduzida expressão pode ser um problema, neste caso, é uma vantagem, na medida em que temos todas as condições para ser uma região exemplar na apli(ação) de boas práticas ambientais.

Saibamos fazê-lo, agindo em conformidade e com sentido de responsabilidade.

* Publicado na edição de 23/10/17 do Açoriano Oriental
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segunda-feira, 23 de outubro de 2017

(In)ventos

A história repete-se. O número de festas populares e religiosas no arquipélago multiplica-se e sobrepõe-se, a cada ano que passa, sem que nada, nem ninguém pareça muito incomodado com a ocorrência.

O que é ainda tradição, identidade e memória deu lugar ao que hoje, num acto de modernidade provinciana, se designa por Festival (e outras designações equiparadas).

O ano eleitoral autárquico, apenas, veio conferir uma áurea, ainda, mais difusa à balbúrdia instalada.

Nada disto acontece por livre e espontânea vontade, existe, por regra, um apoio público que viabiliza o investimento privado.

O que parece não existir, para além de uma total ausência de critérios e objectivos programáticos em torno de uma pretensa agenda de animação turística, para a totalidade do território arquipelágico, é a responsabilidade de quem promove estes supostos (in)ventos sob a égide da promoção do destino (Açores).

Actualmente, a profusão de entidades promotoras é absurda, e já perdi a conta ao número de associações, cooperativas, e restantes organizações, que concorrem aos apoios disponíveis.

Se há uma ilação a retirar da crónica destes “anos de chumbo” (Eduardo Paz Ferreira), é a de que os recursos são escassos e devem ser utilizados com enorme parcimónia.

Os últimos meses provaram o seu contrário.

Que sentido é que faz apostar na divulgação de iniciativas concentradas em três meses do ano, num período que já se encontra vendido e que já não tem capacidade de resposta à solicitação presente?

Os problemas estão amplamente diagnosticados mas tarda em chegar uma resposta consentânea para um conjunto de questões prementes.

Embora se considere que a sazonalidade já não é o que era, o facto é que ela não desapareceu e é, porventura, por estes dias e nos que se avizinham, ainda mais vincada perante o aumento exponencial da oferta (de serviços).

Daí que considere fundamental (tal como foi, e bem, anunciado pelo Governo Regional) que se introduzam critérios rigorosos na atribuição de apoios públicos para iniciativas que tenham um retorno, real e efectivo, para os Açores. E que não estejam assentes num cálculo especulativo de visibilidade mediática, em meios que não têm a repercussão adequada às características do destino, nem são compagináveis com o perfil do turista que procura e visita estas ilhas.

O pior que nos poderá acontecer é cairmos na tentação de promover uma amálgama de animação indiferenciada (e desqualificada), sem qualquer valor acrescentado, mascarada pela partilha (promovida) nas redes sociais.

A mantermos o nível da oferta a que assistimos este verão, o risco está bem mais próximo do que possamos imaginar.

Do mesmo modo, continuaremos a ter uma escassez de recursos para o funcionamento de instituições e instalações basilares à prossecução de actividades culturais/ambientais. Assim como, para a materialização de iniciativas fundamentais à qualificação presente e futura das comunidades locais.

Este é o tempo de afirmamos, de uma vez por todas, o que queremos para o desenvolvimento da animação turística e da própria actividade turística nos Açores.

É altura de agir, deixemo-nos de (in)ventos sem sentido, nem expressão.

* Publicado na edição de 16/10/17 do Açoriano Oriental
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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Mudar para melhor

A abertura de uma rota directa entre Nova Iorque e os Açores é uma notícia sem precedentes e a confirmação da notoriedade obtida pelo arquipélago, ao longo da estratégia delineada nos últimos anos, consubstanciada pelo turismo de natureza e pela sustentabilidade ambiental.

Complementarmente, a abertura do espaço aéreo da região terá originado um efeito de contágio associado à sua localização geoestratégica, a meio caminho entre a europa e o continente norte-americano, a uma distância relativamente próxima (curta) deste mercado turístico.

Parte deste sucesso deriva, igualmente, da instabilidade política mundial, dos recentes desastres naturais nas Caraíbas e ao contínuo devir turístico contemporâneo, na procura incessante por lugares remotos, intocados e, paradoxalmente, como refere recentemente a Airbnb, num vídeo promocional aos Açores, por destinos “Not Yet Trending”. Realço o Yet, porque a intenção é torná-lo, a breve trecho, Not.

Estes são sinais evidentes da reformulação do turismo à escala mundial, num processo dinâmico e em curso, no qual passamos de (ilustres) desconhecidos a (notáveis) emergentes.

Apesar de existir uma consciência, entre nós, dos particularismos deste fenómeno, o mesmo acarreta, sem margem para grandes dúvidas, uma responsabilidade acrescida, na medida em que não nos podemos deixar cair num processo de “Disneylização”.

Para tal, temos de implementar (ontem, já era tarde) um sem número de opções para melhor responder a estes fluxos, cada vez menos sazonais e com um carácter mais permanente (e intenso). Contudo, receio que, este fenómeno, já está para além de qualquer controle ou delimitação.

Em parte, porque estamos a sair de uma crise económica, com efeitos mais ou menos visíveis, e que tem no crescimento da actividade turística, um dos aspectos mais evidentes da nova dinâmica presente na economia regional.

Ninguém o ignora, e perante o cepticismo inicial, assistimos a um movimento de sentido único, em que tudo converge - numa espiral acéfala - para o turismo. No passado recente, já testemunhamos os efeitos da concentração do investimento (colectivo) num único sector económico, com os resultados que se conhecem.

Outro aspecto - amplamente discutido mas imensamente ignorado - é a qualidade da oferta dos serviços que prestamos a quem nos visita. A qualidade do destino não está em causa. Contudo, o perfil de cliente a bordo da Delta Airlines não se compadece com uma parte significativa do que temos para oferecer, não só em termos de restauração mas em todos os serviços complementares, incluindo, o alojamento e animação. A exigência e a disponibilidade terá de ser, forçosamente, outra.

A este respeito, socorro-me de um exemplo corriqueiro, em tempo de eleições autárquicas, para demonstrar o muito que há por fazer (e que não foi feito, nem foi acautelado).

Para o candidato que pretende renovar o mandato à frente dos destinos daquele que considera ser: “o motor de desenvolvimento dos Açores, a porta de entrada do turismo, o novo pilar de desenvolvimento do concelho, da ilha de São Miguel e do arquipélago”, não existe espaço na agenda cultural do município para os eventos, e para as instituições, que não fazem parte do perímetro municipal.

Alguém imagina, por exemplo, que um turista ao chegar a Lisboa não tenha acesso à informação cultural relativa ao Centro Cultural de Belém, ao Museu de Arte Antiga ou à Fundação Gulbenkian?

Em Ponta Delgada, nos últimos quatro anos, foi o que aconteceu. Será esta postura compaginável com um discurso aparentemente conciliatório?

A par de outras medidas fundamentais, importa implementar “uma agenda cultural anual que agregue toda a informação da oferta disponível no concelho e que não promova apenas os eventos municipais.

Os desafios deste tempo (e dos que se adivinham) não são solúveis com estados de alma, requerem determinação e um projecto afirmativo para a cidade e para o concelho.

Ponta Delgada, como um todo, merece mudar para melhor.

* Publicado na edição de 25/09/17 do Açoriano Oriental
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terça-feira, 26 de setembro de 2017

Ontem, já era tarde

Em determinados períodos da sua história, os Açores foram, e têm sido, precursores em múltiplos domínios.

Não é necessário enumerá-lo mas os atributos identitários, pelos quais o arquipélago é, actualmente, (re)conhecido, são fruto da visão de alguns (poucos) homens bons -“que lutaram pela luz e o progresso” (Arturo Pérez-Reverte, 2016).

Ninguém ignora, ou contraria, que as plantações de Chá, a produção de Ananás ou o Parque Terra Nostra, são exemplos maiores daquilo que melhor caracteriza e diferencia esta(s) ilha(s), num tempo em que proclamamos a sustentabilidade como a riqueza turística dos Açores.

Estes recursos (permitam-me que os defina deste modo) são lidos como símbolos identitários (e distintivos) perante a homogeneização do gosto e da democratização do turismo (com ou sem massificação, seja ela qual for).

Questiono-me, frequentemente, do porquê de tais concretizações: como é que foram possíveis e como é que chegaram até aos nossos dias? E se haverá, entre nós, a capacidade de dar corpo a ideias ou a projectos equivalentes?

A sua idealização foi realizada num período em que as dificuldades económicas eram mais que muitas, na ruína de um ciclo económico grandioso, após o qual foi necessário encontrar alternativas produtivas para colmatar o declínio em que a economia da(s) ilha(s) se encontrava.

Nessa altura não existiam fundos comunitários, nem apoios à exportação, pelo que o engenho e a verdadeira capacidade empreendedora (palavra perigosa nos tempos que correm) foram factores determinantes para alavancar algumas destas produções (que são hoje marca da nossa contemporaneidade).

Estes são, mais do que a sua mera produção, exemplos de resiliência e de visão, num espaço geográfico pequeno e longínquo, com recurso a uma população rural, pouco escolarizada mas que teve a sorte de poder contar com o investimento de alguns “homens bons”, na capacitação da sua comunidade e da luta pelo bem comum.

A (quase) inexistência de um projecto partilhado faz com que a escassez de meios (ao nosso dispor) seja, ainda, mais insuficiente e torne evidente a sagacidade empresarial e os egos daqueles que agora se preparam para ir a eleições.

Este estado de coisas tem levado à desertificação do campo em detrimento da cidade, à competição insana entre concelhos, da mesma ilha, e entre as ilhas, num desgaste sem sentido.

Contudo, os bons exemplos perduram ao tempo e à história.

A explicação para a longevidade de tais símbolos emana da necessidade, do querer e, sobretudo, do saber de quem olha o mundo e o (re)conhece. Procurando um ponto de convergência com a sua origem geográfica, através da partilha da sua riqueza (e da sua cultura) com os seus conterrâneos.

Parte do nosso problema colectivo é cultural. Sem conhecimento - e sem educação - num mundo globalizado não alcançaremos grande coisa.

A produção de bens em grande escala é uma ilusão, temos de saber competir pela qualidade e nunca pela quantidade (daquilo que a natureza nos proporciona e do que aqui produzimos).

A geotermia, a água que nos rodeia e a pequenez das ilhas = o laboratório vivo que constituímos são, porventura, as nossas maiores riquezas.

Saibamos aproveitar este bom momento económico para implementar boas práticas e um modelo de efectiva sustentabilidade futura, garantindo uma visão de futuro e rejeitando modelos do passado.

Citando Antero de Quental (nas Causas da Decadência dos Povos Peninsulares), “se não reconhecermos e confessarmos francamente os nossos erros passados, como poderemos aspirar a uma emenda sincera e definitiva?”.

Ontem, já era tarde.

* Publicado na edição de 18/09/17 do AO
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