terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Sem fins lucrativos

A importância da literatura, na história e na vida cultural dos Açores, serve de bússola ao encontro literário “Arquipélago de Escritores”, realizado de 14 a 18 novembro, e que resulta, em larga medida, da saudável teimosia (militante) de Nuno Costa Santos.

O arquipélago é conhecido por ter sido berço de grandes nomes das letras nacionais, Antero de Quental, Vitorino Nemésio ou Natália Correia são (apenas) alguns dos mais reconhecidos e celebrados.

Nos últimos anos, vimos florescer um conjunto de novos valores que se têm afirmado no panorama literário nacional, onde podemos encontrar, a título de exemplo, João Pedro Porto, Joel Neto ou Renata Correia Botelho.

O encontro neste “Arquipélago de Escritores” de autores residentes, escritores (de renome) nacionais e internacionais e um público atento, fazem com que este se afirme como um momento importante no calendário cultural da região.

O carácter evocativo em torno da literatura e da memória de nomes menos conhecidos do grande público, a par do capital simbólico em realizar uma iniciativa, desta natureza, num período de menor procura turística, como forma de combate à sazonalidade do inverno açoriano, é muito pertinente mas não nos deve alhear de um factor (primordial): os escritores requerem ser lidos.

Este é, também, um tempo em que tudo flui a uma velocidade estonteante, no qual a voragem tecnológica transformou, sobremaneira, a nossa relação com a fruição cultural.

Apesar disto, o livro é, talvez, de todos os objectos culturais, aquele que melhor tem resistido ao processo de desmaterialização em curso.

Paradoxalmente, assistimos, um pouco por todo o país e em grande medida devido à torrente especulativa do mercado imobiliário, ao encerramento de livrarias históricas.

A par do surgimento de um número muito significativo de pequenas editoras especializadas, a distribuição está concentrada em grandes lojas (marcas) e outros espaços comerciais que são alimentadas pela massificação editorial que tomou conta dos escaparates.

Nos Açores, não existem muitos editores e já tivemos mais livrarias, a distribuição é frágil e a concorrência dos grandes portais nacionais (e internacionais) fazem com que o negócio seja um acto de resiliência às profundas mudanças operadas no sector (e na alteração comportamental dos consumidores).

Acredito que a educação e a cultura são imprescindíveis para o desenvolvimento sustentando de uma região como os Açores, não podemos almejar ser melhores sem alavancar social e culturalmente este povo. Esta não é uma tarefa fácil, nem existe uma fórmula mágica, mas pode e deve ser efectuada com um maior investimento (político e material) no acesso ao livro e à leitura.

Esta semana, na discussão do Plano e Orçamento dos Açores para 2020, não tenho conhecimento que tivesse sido apresentada uma proposta de alteração para aumentar em 5, 10 ou 20% o investimento no sector cultural, enquanto em qualquer outra área (económica), o investimento a fundo perdido é encarado, por exemplo, como normal (e fundamental).

A importância das humanidades tem sido sucessivamente obliterada por um mundo regido por uma fórmula automática no algoritmo do ditame financeiro que arrasta, e define, a política (pública) de muitos países e organizações, sendo certo que “o crescimento económico não gera invariavelmente melhor qualidade de vida” e porque, de forma mais ou menos transversal, “o desprezo e o desdém pelas artes e humanidades põe em risco a qualidade das nossas vidas e a saúde da nossa democracia” (Martha C. Nussbaum, Sem Fins Lucrativos, Edições 70, 2019).

* Publicado na edição de 02/12/19 do Açoriano Oriental
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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Pequenas (grandes) especificidades

A entrevista de Justine Simons (Público, 12/11/19), a vereadora para a Cultura e Indústrias Criativas de Londres, durante a sua estada em Lisboa para a Cimeira World Cities Culture, sintetiza muito daquilo que penso e tenho dito (e escrito) sobre o potencial (transformador) da cultura na nossa vida colectiva.

O arquipélago é tido como um laboratório (ideal) para a experimentação de um conjunto de medidas (das ciências do mar à sustentabilidade energética). E poderia sê-lo, igualmente, na implementação de outras áreas e sectores, nomeadamente, das indústrias culturais e criativas (um palavrão que aglutina sectores muito diversos mas que foi concebido para melhor explicar, a quem decide, as “pequenas especificidades” de cada um).

Para que tal possa vir (um dia) a ser possível, é imperioso que o tecido cultural (supostamente criativo) deixe de funcionar em pequenos círculos, fechados sobre si próprios mas com uma enorme determinação em culpabilizar outros pelo seu (aparente) insucesso, falta de reconhecimento (= financiamento) e, não raras vezes, cultivando uma enorme distância com o público (e a ilha).

A exiguidade geográfica do arquipélago, aliada a um meio conservador e com parcos recursos, fazem com que o trabalho em rede seja fulcral para a criação de uma escala que não temos (nem pode ser comparada com outros centros, com outras necessidades e saberes completamente distintos dos nossos).

Importa (primeiro) saber onde nos situamos e quantos somos.

O primeiro passo será o de mapear o território, identificando os diferentes actores e as infra-estruturas que nele operam, do bar ao atelier, da galeria ao museu de ilha.

Um dos nossos maiores condicionalismos, para além das dificuldades inerentes à circulação de projectos e artistas, no interior e para fora do arquipélago, é a escassez de recursos financeiros, cujo trabalho concertado poderá facilitar a procura de fontes alternativas de financiamento alicerçado na construção de projectos comuns.

Sem um fio condutor que una a acção no território (regional e municipal), assistimos à multiplicação de projectos sem critério (e porque sim), cuja sobreposição no calendário é apenas o factor (mais evidente) de uma aparente falta de discernimento.

O crescimento da actividade económica associada ao turismo veio colmatar o vazio (na acção) em torno da regeneração e do abandono do património construído das ilhas, em particular, nos centros das maiores cidades da região.

A cultura pode (e deve) ser um guia para esta regeneração urbana, melhorando as condições de vida de espaços degradados e integrando, por exemplo, populações que vivem nas margens, contrariando o investimento acéfalo e especulativo em torno do alojamento turístico (indiferenciado e pouco qualificado).

Já imaginaram estas ilhas ou as nossas cidades sem espaços de cultura, sem música, sem filmes e sem festivais, o que é que ficava?

Nesta entrevista ficamos a saber que a cultura é responsável por 4 em cada 5 turistas que vai a Londres. Se o nosso património (material e imaterial) é assim tão relevante, porque é que não lutamos pela quantificação da importância que afirmamos ter?

O orçamento do sector cultural é pequeno, no entanto, importa compreender que o seu impacto é muito maior do que a percentagem que ele ocupa no plano e orçamento.

A cultura é um bom investimento, tem de ser defendida e deve, também, lutar por ter mais recursos.

No final é tudo uma questão de opção na definição (rigorosa) das nossas prioridades pela construção de um desígnio comum (e profundamente inclusivo), nos domínios cultural, educativo e social.

* Publicado na edição de 18/11/19 do Açoriano Oriental
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