quinta-feira, 14 de maio de 2020

Cultura (em tempo de pandemia)

O confinamento social a que estamos sujeitos tem revelado, simultaneamente, o melhor e o pior que há em nós. 

Temos assistido a um conjunto significativo de iniciativas solidárias para acudir aos menos protegidos, cuja precariedade é mais evidente no modelo económico (e social) vigente, o qual fragiliza quem está mais vulnerável. 

Por outro lado, proliferam as teorias da conspiração e a partilha de factos falsos e erróneos que disseminam o ódio (e o medo) pelo outro. 

A incerteza dos dias alimenta a oportunidade dos populistas que navegam no éter da timeline à procura de um lugar no pódio do soundbite, no qual “as redes sociais, espelho ampliado e distorcido da realidade, estão cheias de sinais de angústia e ressaca” (Cristina Fernandes, Revista Electra nº 8). 

Este não é o tempo de procurar inimigos sem rosto, nem reivindicações anacrónicas destituídas de sentido e representatividade. E com isto não estou a dizer que está tudo bem. Vivemos numa democracia, conquistamos o dever de ser críticos e de manifestar a nossa opinião com absoluto sentido de responsabilidade. 

Em dias de pandemia passamos (ainda) mais tempo em redor dos ecrãs, inertes à luz que emana dos vários dispositivos ao nosso dispor. 

A sedução é evidente. Perante o imobilismo passamos a socializar, quase em permanência, em formato digital. 

Mesmo os utilizadores mais relutantes renderam-se às evidências. E não se iludam, há mesmo um admirável mundo novo que veio para ficar. 

Os números dos serviços ‘on demand’ têm atingido valores nunca dantes atingidos e que só se explicam pelo aumento exponencial do consumo de conteúdos (comunicações) em casa.

A título de exemplo, o Barómetro de Telecomunicações da Marktest (28/04/20) indica que são, agora, mais de dois milhões os portugueses que subscrevem plataformas de entretenimento em streaming. E que registou, por exemplo, entre Fevereiro e Abril, mais 800 mil subscritores de serviços como a Netflix ou a HBO. 

Este ‘novo normal’ tem levado a concessões sem paralelo na indústria cinematográfica, sendo possível assistirmos, na cerimónia dos Óscares do próximo ano, à nomeação de filmes que foram exibidos (apenas) em ‘streaming”. 

Resta saber se esta é uma concessão temporária ou se veio para ficar. Só o mercado o dirá. 

Apesar do beneplácito pela profusão da disponibilização de conteúdos culturais/informativos online, há que sublinhar que existem pessoas por detrás do ecrã e que o produto do seu trabalho faz-nos “sentir vivos” mas cuja profissão - à semelhança de muitos outros sectores essenciais que têm sido valorizados por estes dias, é “mal renumerada, com pouco reconhecimento social, mas também (…) alvo de aplausos.” (Vitor Belanciano, 03/05/20). 

É importante que a emergência deste estado de coisas não conduza à calamidade do sector cultural, um dos primeiros a fechar e, muito provavelmente, um dos últimos a abrir, apesar do Plano de Desconfinamento apresentado esta semana. É uma área resignada a sucessivos “financiamentos insuficientes” (Cíntia Gil, 10/04/20), pelo que importa, por isto, não cair na tentação de aplicar um corte (cego) nos apoios aos artistas e no financiamento das instituições culturais. 

O futuro da cultura em tempo de pandemia dependerá, também, da prioridade que lhe for consignada.

* Publicado na edição de 04/05/20 do Açoriano Oriental
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domingo, 3 de maio de 2020

Atenção (e importância)

Calendarizar o futuro próximo (da programação cultural) é uma tarefa inglória (e angustiante), perante a incerteza dos dias e de uma realidade que já não será o que era.

Na semana passada a Presidente da Comissão Europeia - Ursula Von der Leyen, apresentou um "Roteiro europeu conjunto para o levantamento das medidas de contenção da covid-19", que define um conjunto de princípios orientadores para a retoma gradual da atividade económica.

Ficamos a saber que existem previsões para múltiplos cenários mas não iremos passar à “normalidade” de um dia para o outro, a aglomeração de pessoas será realizada de forma faseada, evoluindo progressivamente, existindo a intenção de privilegiar a reabertura de escolas e universidades, lojas, cafés e restaurantes. Para o final, ficará o retomar dos eventos públicos (festivais e concertos, por exemplo).

Ninguém questionará, acredito, este conjunto de recomendações mas não deixa de ser simbólico que a Cultura - ou tudo o que directa e indirectamente está relacionado com actividade artística - surja neste alinhamento (e noutras situações) na última posição.

Foram um dos primeiros serviços a ser encerrados e serão, muito provavelmente, os últimos a reabrir.

Neste período de paralisação (que todos compreendemos e concordamos), como será o acesso do público a salas de espectáculo e recintos fechados? São questões que, para já, carecem de mais dados (e tempo) para que se possa ter ou dar um resposta assertiva.

O sector cultural (e criativo) é frágil e demasiado fragmentado (nas suas variadas formas de actuação) mas é consensual que a Cultura será, neste período, um dos sectores mais afectados pelas medidas de contenção devido, em particular, ao encerramento de teatros, salas de concertos e outros espaços públicos.

A resposta pública tem apontado várias medidas de apoio para mitigar a perda de rendimento dos profissionais mas é necessário ter em linha de conta a especificidade de um sector económico com regras e dinâmicas próprias, nem sempre enquadradas com um contrato de trabalho, onde a maioria dos trabalhadores é independente, com cariz precário e intermitente, e sem o garante da protecção social que se exige num tempo como este.

Os artistas (técnicos e outros trabalhadores do sector cultural) não são indispensáveis para o combate à pandemia mas o resultado do seu trabalho tem sido vital nestes dias de confinamento social.

Neste período transitório é necessário assegurar que são tomadas medidas que abonem a sobrevivência do sector cultural num cenário pós-covid.

Continuam a existir muitas perguntas sem respostas mas a percepção dos profissionais deste meio é de que “a relação do público com os espectáculos vai sofrer uma mudança”. A começar pela bondade das actuações online, pois “ao contrário de toda a economia, os dividendos e lucros das plataformas digitais estão a subir”. (Pedro Wallenstein, presidente da GDA, 10/04/19).

Este parece-me um dado que importa estudar e analisar em profundidade, qual o impacto, por exemplo, na indústria dos espectáculos de toda esta exposição de conteúdos online?

Esta tem sido a solução encontrada por muitos artistas e produtores impedidos de actuar em espaço público. Fazem-no agora (gratuitamente) nas suas plataformas online.

A questão que todos colocam é a de “não é claro o modelo de negócio capaz de monetizar este tipo de eventos. (…) Como emprestar sustentabilidade e rentabilidade a estes concertos à distância?” (Miguel Cadete, 16/04/20).

A resposta europeia ao sector cultural tem sido, ela própria, desigual, com uma grandeza e impacto directamente proporcional à sua latitude.

Neste sentido, seria importante não fragilizar, sobremaneira, e de forma fatal, um sector que procura ser reconhecido pelo Estado como merecedor da atenção (e importância) que (aparentemente) tem sido dada por todos os que estão (agora) em casa.

* Publicado na edição de 20/04/20 do Açoriano Oriental
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quarta-feira, 29 de abril de 2020

A excepção (dos factos)

Assistimos a um acontecimento planetário em tempo real que nos remete para um universo ficcional, distópico e incerto, materializado por algo que nunca desejamos experienciar e que “até agora considerávamos impossível” (Slavoj Zizek, 12/04/20).

A percepção do que nos é dado a ver (ler) é a de que nada será como dantes e (ainda) sabemos muito pouco de como as coisas se irão processar daqui para a frente.

O tempo é de incerteza e de muitas perguntas sem resposta, a que se junta um distanciamento social (quase obrigatório), forçado pela emergência de um “estado de excepção” (Giorgio Agamben, 2003).

A internet nunca foi tão importante, como agora, na manutenção da normalidade (possível). E por possibilitar a proximidade social determinada por um período de distanciamento geográfico que nos impossibilita uma interação convencional mas que tem permitido manter, em padrões minimamente aceitáveis, parte da economia (e da nossa vida profissional) e o acesso a serviços essenciais, sejam nas plataformas públicas, na aquisição de produtos alimentares, no entretenimento ou na informação.

Nesta experiência civilizacional, a dependência de uma boa rede de comunicações passou a ser vital e, sem dramatizar, um factor de sobrevivência.

A falta de uma estratégia comum no combate à pandemia é, muito provavelmente, o maior falhanço (político) europeu (e mundial) após a segunda grande guerra. Perante o estado de emergência em que nos encontramos, seria exigível - a quem governa ou dirige as maiores instituições globais - outro tipo de posição perante a necessidade imperiosa de agir para a salvaguarda do bem comum.

Na eminência de um colapso social e económico, poderá a União Europeia procrastinar indefinidamente tudo o que não é adiável?

A somar a tudo isto existe a preocupação - de alguns sectores da sociedade - com o “maior controlo social” - imposto pelas limitações à liberdade de circulação dos cidadãos e de vigilância digital, na medida em que este pode colocar em causa o bom funcionamento da democracia representativa e das instituições, uma vez que “indivíduos condicionados pelo pânico da mera sobrevivência são alvos ideais do poder” (Slavoj Zizek, 12/04/20). Não é o nosso caso (mas exemplos não faltam).

Num contexto tão exigente, como este, é fundamental o acesso à informação segura e fidedigna. Quem a garante? A crise na imprensa não tem estado imune ao processo de transformação digital mas vive num aparente paradoxo, na medida em que as suas notícias nunca foram tão lidas como agora, “sem que esse serviço público seja capaz de gerar receitas suficientes para garantir a sua sustentabilidade financeira” (Manuel Carvalho, 07/04/19).

A discussão sobre o financiamento da imprensa não é de hoje e tem múltiplas leituras, quer seja na concordância com o apoio público, quer por quem o conteste na defesa da liberdade editorial sem eventuais amarras à subvenção pública, sendo certo que a sociedade de leitores deverá pagar pelos conteúdos que quer ler. Algo que, como sabemos, nem sempre acontece.

Para um maior escrutínio da gestão da coisa pública é forçoso que haja uma sociedade mais esclarecida e isso só se consegue com “uma cultura das notícias”, sujeita “ao trabalho de edição e contexto de alguém que é suposto ter uma carteira profissional para exercer jornalismo”.

No entanto, alguns jornalistas facilitam o “estatuto noticioso” às “redes sociais”, sem a mediação e edição jornalística, provocando, intencionalmente ou não, uma (in)evitável “erosão da profissão feita pelos próprios profissionais” (José Pacheco Pereira, 02/01/16).

Nestes 185 anos do Açoriano Oriental, apesar de todos os desafios e dificuldades com que nos confrontamos, reitero a confiança nos seus profissionais para que continuem a alimentar a imprensa regional nos Açores com a “informação baseada em factos e não na manipulação sensacionalista dos factos” (Amílcar Correia, 11/4/20).

* Publicado na edição especial de aniversário do Açoriano Oriental (18/04/20)
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quinta-feira, 9 de abril de 2020

#quarentena

Por estes dias passamos a ser, quase sem excepção, especialistas em covid-19, peritos (de sofá) em saúde pública com opinião (formatada ao minuto pela avalanche noticiosa) e com sugestões para distribuir.

Aos primeiros dias desta #quarentena assumi que iria reduzir (significativamente) a minha exposição ao ruído das notícias em repetição - ad nauseam, por forma a salvaguardar a higiene mental da minha família. Assumi um detox noticioso e, neste momento, cumpro apenas os serviços mínimos da actualização diária dos números trágicos de uma pandemia (sem rosto), sendo certo que existem pessoas por detrás da estatística, algo que, tendencialmente, desvalorizamos.

Procuramos uma explicação plausível para o que nos atingiu mas não partilho da metáfora de que estamos em guerra, ou de que este é um castigo divino, como há quem goste de profetizar.

No entanto, considero que este é um tempo para reflectirmos sobre o nosso estilo de vida e analisarmos como chegamos até aqui, num momento em que assistimos às consequências do desinvestimento em áreas fundamentais da nossa vida pública em detrimento da especulação financeira.

Muitas das vozes que hoje se fazem ouvir (na defesa do Sistema Nacional de Saúde) eram as mesmas, que há uns anos a esta parte, exigiam a privatização deste e de muitos outros sectores (essenciais) da nossa existência colectiva. Ironicamente, são agora os primeiros a exigir o apoio do Estado, uma postura que não deixa de ser, simultaneamente, paradoxal e hipócrita.

Nestes dias (letárgicos) têm sido comuns os elogios aos que estão na primeira linha do combate da epidemia - profissionais de saúde, bombeiros, polícia ou funcionários dos supermercados, os quais, na maioria das vezes, depreciamos, criticamos ou até ignoramos na azáfama quotidiana, e cujas condições de trabalho (e de segurança) estão longe, como já vimos, de serem as ideais.

Será que é necessário uma pandemia para sermos generosos com aqueles que nos socorrem numa situação de emergência?

Desejaremos regressar ao que tínhamos anteriormente ou será este o tempo de repensarmos e de actuarmos de forma diferente?

A normalidade que se seguirá a estes dias será, muito provavelmente, diferente daquela que a sucedeu mas, também aqui, o regresso ao passado dependerá do tempo em que permaneceremos nesta pausa forçada.

Num olhar mais transversal (e global), não é que nos sirva de grande conforto mas não estamos sós (nesta crise económica e social), e o vírus não escolhe fronteiras nem «olha para condições económicas quando se trata de escolher hospedeiros”, no entanto “não nos iludamos sobre a “democraticidade” da epidemia ou das medidas adotadas para a sua contenção: as suas consequências são brutalmente desiguais.» (Pedro Magalhães citado por Rolando Lalanda Gonçalves, Açoriano Oriental 05/04/20). Este é, infelizmente, um dado incontornável.

Temos de nos preparar, desde já, para o dia seguinte e agir (responsavelmente) perante os desafios que se nos colocam.

Este é um trabalho que não é apenas de alguns mas é de todos, como comunidade, num período (de excepcionalidade) que nos convoca a ser melhores.

Façamos a nossa parte (por mais que isto nos custe), confiando que a contingência nos ajude a chegar mais depressa (e com saúde) ao fim desta situação.

* Publicado na edição de 06/04/20 do Açoriano Oriental
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quarta-feira, 25 de março de 2020

Anormalidade temporária

Este é um daqueles momentos em que a realidade parece ter suplantado a ficção.

Se já (antes) tínhamos esta percepção, num tempo de múltiplas incertezas, das alterações climáticas à política, este novo quotidiano que (todos) experienciamos valida este dado incontornável que mais parece um argumento saído de um filme-catástrofe.

É difícil contornar o vírus que nos contamina, amedronta e paralisa como sociedade (globalizada).

A rotina destes dias remete-nos para uma realidade distópica, na qual uma larga percentagem da população (mundial) acatou, sem precedentes na história recente, uma ordem de confinamento e de isolamento social para suster a pandemia.

Este é, também, um tempo propício a uma “epidemia de informação”, na medida em que “as pessoas prestam mais atenção às informações negativas” e “sentem-se mais motivadas a transmiti-las aos outros” sobretudo, agora, que estão ligadas o tempo todo (Samuel Paul Veissiere, 14/03/20).

Este comportamento é inteiramente justificável perante o receio de algo que nos é desconhecido (e estranho), e porque necessitamos encontrar uma razão para justificar o que nos está a acontecer. Proliferam as teorias da conspiração, o estigma e a exacerbação de estereótipos: há quem acredite no anátema do estrangeiro ou do vírus que veio do longe; ou da punição da mãe natureza à acção do homem sobre o planeta.

O “pânico moral” difunde-se a uma velocidade estonteante perante a avalanche informativa, promove o medo e o receio perante as dúvidas de uma cura que não se compagina com o horizonte temporal da racionalidade económica (e da necessária normalização dos tempos modernos).

As ilhas (já) não estão isoladas, a distância geográfica aqui não funciona como defesa natural, apesar de, por estes dias, procurarmos um corte umbilical com a conectividade que sempre lutamos por ter, por forma a tentarmos (sós) conter os malefícios desta (nova) peste que nos remete para uma “memória arcaica” e de “temores que pensávamos esquecidos e enterrados” (Paulo Pires do Vale, 20/03/20).

Paralelamente, há quem acredite que, depois de tudo isto, a humanidade sairá reforçada e que iremos todos (empresas, estado, indivíduos e sociedade) agir melhor e, de forma, mais solidária. Será que perante esta (nova) crise económica abrupta (e total), haverá espaço para repensarmos todo o percurso até aqui ou, no dia seguinte, haverá necessidade de acelerar todo o processo económico na reposição do tempo perdido e dos rendimentos das famílias?

O mundo como o conhecemos será, inevitavelmente, diferente. Resta saber quanto e em que medida?

Iremos alterar a nossa forma de mobilidade? Se assim for o turismo, como hoje o conhecemos, irá sofrer um duro reajustamento.

Para o filósofo Yuval Noah Harari (21/03/20), a solução de futuro não passa por desmantelar o nosso sistema global de comércio e transportes, pois isto “não nos protegerá verdadeiramente de epidemias futuras” mas, sim, por mais “investigação científica”, pela “troca de informações mais aberta” e pela “criação de um sistema de saúde verdadeiramente global”.

Desejo que esta seja, efectivamente, uma “anormalidade temporária” e que este seja o tempo de (primeiro) cuidar dos vivos, para que a economia recupere depois (Rui Tavares, 18/03/20).


* Publicado na edição de 23/03/20 do Açoriano Oriental
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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Teatro (profissional)

A ideia não é nova, a discussão é antiga e, ocasionalmente, surge quem a recupere e a intente.

Desconheço o que está na génese desta iniciativa, se é apenas um mero expediente na agenda política ou se resulta da auscultação do sector artístico.

Fazendo fé na reacção dos artistas à intenção de gerar uma nova entidade pública empresarial (paradoxalmente quando estamos num processo de reformulação da participação da região no número de empresas e associações em que participa) para gerir os destinos de uma companhia de teatro profissional, com sede na ilha Terceira, o projecto está longe de ser consensual ou ter a sua validação.

E não será difícil perceber porquê.

No passado recente, temos assistido a um maior dinamismo dos agentes culturais da região, fruto de uma geração que saiu para estudar e que pretende regressar (se não a totalidade pelo menos uma parte), pela actividade desenvolvida por um conjunto de entidades públicas e privadas no sector cultural (que têm posicionado o arquipélago no mapa artístico).

Formalizar a intenção de sediar a constituição deste grupo profissional, na ilha Terceira, por via da “grande tradição que a ilha tem no desempenho de artes cénicas (…)” e “pelo próprio caráter espontâneo associado às danças e bailinhos de Carnaval” é um péssimo princípio, na essência é redutor e é revelador da forma como continuamos a olhar para a nossa descontinuidade territorial, na medida em que a localização é o dado menos importante desta equação.

Como já (aqui) defendi por inúmeras ocasiões, o futuro das artes nos Açores é o da profissionalização, não há volta a dar, mas não por este caminho.

Para que isso possa (um dia) vir a acontecer, temos todos de trabalhar em estreita cumplicidade (entidades oficiais: locais, municipais e regionais; artistas e instituições), no sentido de gerar sinergias que permitam um apoio consistente, e duradouro, a esta actividade, permitindo sedimentar o trabalho realizado (como continuado e não esporádico), quer na redefinição de políticas para o sector, quer na formação de públicos e na construção de melhores cidadãos (e de uma melhor cidadania).

A componente pedagógica não carece de uma companhia profissional para ser desenvolvida, ela pode e já é desenvolvida por todos aqueles que actuam nos palcos da região. Se pode ser incrementada e melhor promovida? Parece-me evidente. Pode, inclusive, ser uma âncora da sustentabilidade da própria actividade artística, na colaboração com outros sectores da sociedade, da educação à inclusão social, passando pela sensibilização ambiental à animação turística.

Pela forma como está idealizada, a fundação desta companhia profissional não implica, pelo contrário, desresponsabiliza o papel dos municípios na gestão de conteúdos e das equipas que habitam os auditórios e salas desta região.

Para que se possa conceber um circuito de circulação (e de itinerância à escala regional), temos de garantir que existem condições materiais para poder acolher objectos artísticos contemporâneos, não menorizando as exigências elencadas por companhias e artistas. Como muitas vezes acontece.

Respeitar o trabalho alheio, neste caso artístico, não é favor, é uma condição fundamental para o profissionalmente que nos assiste.

Mais do que fundar uma companhia profissional de Teatro (e já agora porque não de Dança ou mesmo uma Orquestra), o que é necessário é apoiar, de forma substantiva, a actividade de quem já a exerce, inserir critérios de diferenciação (entre os diferentes agentes), realizar encomendas, acompanhar de forma presente a acção desenvolvida no território e fomentar a circulação dentro e fora da região.

* Publicado na edição de 25/02/20 do Açoriano Oriental
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Democracia cultural

O Plano Nacional das Artes (PNA) foi apresentado, formalmente, em Junho do ano passado com a chancela dos Ministérios da Cultura e da Educação (mas a sua práxis pretende distender-se a toda a esfera pública).

Para melhor se dar a conhecer, o PNA tem utilizado a frase de Sophia de Melo Breyner Andresen, na intervenção que fez na Assembleia Constituinte de 2 de Setembro de 1975: «a cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar».

O comissário do Plano Nacional das Artes, Paulo Pires do Vale, curador e professor universitário, esteve, na passada semana, no Museu Carlos Machado para protocolar com a Direção Regional da Cultura a extensão, aos Açores, desta iniciativa que será materializada através do projecto “De Fenais a Fenais: Cultura Matriz do Desenvolvimento Local”.

“De Fenais a Fenais” tem a coordenação do Museu Carlos Machado (cuja acção no território não está confinada aos ‘muros da cidade’ que o acolhe, como fez questão de referir o seu director) e será implementado e desenvolvido, até 2022, num espaço geográfico identificado como de "intervenção prioritária no combate à pobreza e exclusão social, abrangendo as freguesias de Fenais da Luz, Rabo de Peixe, Maia e Fenais da Ajuda".

A escolha do Museu Carlos Machado não é inocente, e parte da sua actividade recente (Museu Móvel, projecto “Para Além da Paisagem - Sete Cidades, para dar alguns exemplos), influenciou, nas palavras do comissário nacional, o carácter de que se reveste o PNA, o qual visa aproximar a cultura e as artes dos cidadãos.

Este não é um Plano que exista por si só, pretende contaminar toda a comunidade, da escolar à empresarial, e terá, igualmente, a responsabilidade de coordenar outros planos sectoriais já existentes, como o Plano Nacional de Leitura, o Plano Nacional de Cinema, a Rede Portuguesa de Museus ou o Programa de Educação Estética e Artística.

A visão que preside a este conjunto de boas intenções é vista sem paternalismos, na medida em que não se pretende decidir sobre o que os cidadãos devem consumir do ponto de vista cultural, pois mais do que ser um facilitador na “democratização da cultura" prende-se incutir um conceito de "democracia cultural", utilizando as palavras de Paulo Pires do Vale, o qual acredita que "todos têm algo a dar para a cultura de todos".

Este é um programa que pretende levar (dar) conhecimento ao (do) território, passando pelo património material e imaterial, e realizando o (necessário) cruzamento com um olhar contemporâneo. A desmistificação da ideia que temos dos artistas, e a sua presença no espaço escola, procura, igualmente, contribuir para operar mudanças na forma como lidamos com a fruição mas, também, com a produção cultural. Contribuindo activamente para “alavancar o pensamento crítico, a nossa capacidade de resolução de problemas e a nossa capacidade de criatividade individual e colectiva” (Tiago Brandão Rodrigues, Público, junho 2019).

Este é um período que implica (forçosamente) uma leitura esclarecida - sobre a volatilidade do que se passa à nossa volta - e torna pertinente o “repensar a nossa noção de literacia. O que é hoje ser-se culto ou alfabetizado?” (George Steiner, Expresso, junho 2017).

E em boa hora se corporizou este Plano Nacional das Artes, num tempo em que os países têm de cortar em coisas “supérfluas”, alienando as humanidades em detrimento de “competências úteis e profundamente técnicas e adequadas à geração de lucro” (Martha C. Nussbaum, 2019).

* Publicado na edição de 10/02/20 do Açoriano Oriental
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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Reflexão (colectiva)

A reportagem do serviço público de rádio e televisão mostra a escassez de bens alimentares nas ilhas das Flores e Corvo, as imagens de prateleiras vazias não deixam ninguém indiferente, em particular, num período (simbólico) como o Natal.

Para além da destruição (quase total) do porto das Lajes das Flores, este é o efeito mais evidente da incapacidade gerada pela inoperacionalidade desta infraestrutura que, apesar do enorme esforço de adequação por parte da entidade que gere os portos da região, tem levado à intermitência do abastecimento regular (por via marítima) do grupo ocidental.

Todos os anos o rigor do inverno torna (mais) difícil as ligações (aéreas e marítimas) com as ilhas mais ocidentais da europa, esta não é uma situação nova para estas populações habituadas que estão à borrasca das intempéries e a dias (consecutivos) de (maior) isolamento.

As comunicações são hoje, felizmente, possíveis através da fibra óptica que torna menos penosa a lonjura que as separa do multibanco mais próximo (que indica como alternativa a deslocação ao Faial, Terceira ou mesmo Santa Maria - não é piada, já o testemunhei).

No entanto, temos de ter consciência que nada será como dantes, e os efeitos da passagem do furacão Lorenzo, pelos Açores, não podem ser considerados como um caso isolado e devem constituir um sinal de alerta para o futuro.

A este respeito devemos encarar com enorme seriedade os efeitos resultantes das alterações climáticas e o seu impacto nas ilhas. Temos aqui um exemplo concreto do que poderá ser o nosso futuro (mais próximo) no que concerne à ocorrência de fenómenos climáticos extremos.

Os furacões poderão assolar o arquipélago de forma mais regular e, para tal, devemos, desde já (se é que já não os temos), pôr em prática planos de contingência (alimentar, por exemplo) para mitigar situações como a que as Flores e o Corvo têm experienciado.

Apesar de todos os esforços envidados, pelas entidades oficiais, locais, municipais, regionais e nacionais, para o restabelecimento da normalidade (possível) àquelas ilhas, desengane-se quem assumir compromissos com prazos irrealistas e soluções impossíveis.

Importa frisar que os danos infligidos por este fenómeno (extremo) ascendem aos trezentos milhões de euros, em todo o arquipélago, os quais levarão anos a ser recuperados. Este não é um assunto que se resolva de um dia para o outro.

O político que intenta retirar dividendos (com recurso a uma calamidade pública) não pode ser uma pessoa idónea. A ética democrática deve ser um valor estimado perante a sistemática desvalorização do compromisso e da palavra, numa realidade paralela e num espaço (online) repleto de ódio, vitimização, notícias falsas, factos alternativos e teorias da conspiração.

Outro dado a destacar desta ocorrência (extraordinária) tem de ver com a importação de produtos agrícolas. Considero que a defesa da nossa sustentabilidade ambiental, também, passará por aqui. Mas será que já medimos a pegada ecológica das batatas e cebolas que nos chegam do exterior? Não será esta uma oportunidade para alterarmos comportamentos e questionar se faz sentido importar vegetais e legumes frescos? E, complementarmente, reduzirmos a nossa dependência alimentar, tornando a nossa existência, efectivamente, mais saudável, sustentável e evitando a rotura de produtos alimentares?

A este propósito cito John Fowler no seu ‘”Diário de um Náufrago nas Flores e no Faial” (IAC, 2017), no qual retrata a vivência na ilha das Flores na primeira metade do século XIX: “têm um solo de invulgar riqueza e fertilidade, produzindo milho indiano, trigo, inhame e batatas e uma oferta abundante de forragem, entre as quais devo incluir o tremoço, criado e cortado para alimentar gado (…) a par com algumas plantações de laranja, maçã, pêras e figos (…)”.

Fica o testemunho histórico para reflexão (colectiva).

* Publicado na edição de 13/01/20 do Açoriano Oriental
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