terça-feira, 8 de agosto de 2017

Mundividência(s)

Todos falámos, ninguém o ignora e os jornais fazem notícia com o assunto que está, inevitavelmente, presente em todas as mesas e convívios deste verão: o aumento exponencial de turistas na(s) ilha(s).

Um dos aspectos mais visíveis desta presença são os carros de aluguer com os seus dísticos no vidro traseiro, uns mais ostensivos do que outros, em que todos lutam pela conquista da cota alheia, como se estivéssemos perante uma guerra silenciosa.

Para fazer face à procura existente, as empresas de rent-a-car têm efectuado avultados investimentos e são as maiores responsáveis pelo crescimento das vendas de automóveis novos nos Açores.

Mas não tem sido apenas o número de veículos que tem aumentado, a cada dia que passa surge uma nova empresa de aluguer de automóveis, sendo que as grandes empresas do sector passaram a olhar os Açores com outra atenção.

O efeito directo desta acção empresarial por via da intensificação da actividade turística tem conduzido à melhoria substancial dos nossos indicadores económicos.

Contudo, depois de dois intensos verões, do aumento da chamada época alta para o período compreendido entre Abril e Outubro (antes estava concentrada entre Julho e Setembro), de um conjunto de outras evidências nos serviços disponibilizados, da restauração à animação turística, e de um número considerável de estudos e planos, continuamos sem agir de forma consistente, concertada e sustentável perante este enorme fluxo turístico.

A profusão de festivais, de concertos e de outras iniciativas, mais ou menos indiferenciadas, é, talvez, o exemplo mais flagrante do desnorte a que temos assistido.

Ano após ano, discute-se a importância da articulação de agendas e da necessidade imperiosa de delimitar, e regrar, o acesso a áreas ambientalmente sensíveis. Tal não tem acontecido e a situação deteriora-se a cada ano que passa.

Um exemplo destes dias, o Açoriano Oriental na sua edição de 25 de julho faz manchete com a seguinte chamada de capa: “Filas com mais de 200 metros para estacionar na Caldeira Velha”.

Esta não é uma situação nova, cuja resolução não passa, ao contrário do que é defendido, pelo aumento do estacionamento automóvel junto destes locais de interesse turístico.

Se, neste período, estes espaços já têm uma carga muito acima daquela que deviam ter, retirando a beleza e a tranquilidade pelas quais são conhecidos e são motivo de visita, aumentar o acesso (indiscriminado) automóvel é tornar ainda mais insuportável, e caótico, a experiência turística do destino que diz ser ambientalmente sustentável.

À semelhança do que já existe no ilhéu de Vila Franca do Campo, o acesso a determinados locais tem de ser controlado e pago. Os carros ficam à porta, em parques de estacionamento gratuito, longe de zonas de reserva ambiental, e devem ser gerados transportes alternativos para quem os queira visitar.

No final, é tudo uma questão de bom senso e de, eventualmente, mundividência.

Voltarei a este assunto no final de mais esta época estival, se entretanto vai andar por aí e se cruzar na estrada com um carro de aluguer, redobre os cuidados na condução, à vossa frente estará, muito provavelmente, um turista.


* Publicado na edição de 31/07/17 do AO
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terça-feira, 25 de julho de 2017

Uma vontade (aparente)

Estreou esta semana em Portugal Dunkirk, de Christopher Nolan (o realizador de Interstellar, Inception ou Batman - The Dark Night), um épico de guerra inspirado na Batalha de Dunquerque, em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial.

Ponta Delgada ficou, uma vez mais, fora do roteiro das estreias nacionais.

Este exemplo (simbólico) é apenas uma prova da ausência de uma estratégia consistente em torno do que se pretende para a cidade em termos culturais, apenas ditada por uma vontade aparente, feita de palavras vãs e de estudos feitos por medida.

Como é que uma cidade define como objectivo final do seu desenvolvimento estratégico, realizar uma candidatura a Capital Europeia da Cultura (em 2027), se não consegue garantir algo, tão banal, como a estreia nacional de um dos maiores acontecimentos cinematográficos do ano? - e não estou a ser, sequer, muito exigente.

Importa recordar que Ponta Delgada esteve sem exibição de cinema comercial durante quase um ano (entre Fevereiro e Agosto de 2013).

Neste período, foram muitas as vozes que se levantaram para que existisse uma sala pública que garantisse essa função.

Tal não foi possível, nem sequer é compaginável com as regras impostas, actualmente, pelo sistema de distribuição, concentrado em pequenas salas, com múltiplas sessões diárias.

Felizmente, durante esse período, o 9500 Cineclube, com sede no Solmar Avenida Center, garantiu a exibição de cinema na cidade, através da sua actividade regular, composta por ciclos temáticos, cinema de autor (e documental) e dedicado à nova produção cinematográfica nacional.

Contudo, as condições de exibição e a ausência de apoios públicos para manter a regularidade, e uma maior consistência da programação, fizeram com que esta resposta não correspondesse às expectativas do público.

No entanto, esta é, e foi, uma acção muito importante, desenvolvida por amor e paixão, e sem qualquer contrapartida financeira, por parte dos elementos da direcção do 9500 Cineclube, aos quais deixo uma palavra de estímulo pelo trabalho que continuam a desenvolver.

O encerramento de cinemas tem sido uma constante, por todo o país, devido à profunda alteração dos hábitos de fruição cultural (e dos downloads ilegais), por intermédio de uma plateia que não tem tempo a perder.

Mesmo e apesar disto, os cinemas têm sido repescados como importantes elementos de revitalização dos centros históricos, não em formato multiplex, mas apontando a públicos mais especializados, exibindo aquilo que não tem lugar num espaço mais massificado.

A recuperação do Cinema Batalha, na cidade do Porto, com um projecto de arquitectura do mestre Alexandre Alves Costa, é um bom exemplo daquilo que devemos seguir, envolvendo, para o efeito, a comunidade local.

Apesar de Ponta Delgada ter recuperado a exibição comercial de cinema, o facto é que a programação existente não contempla uma série de opções, bloqueando o público cinéfilo do acesso a uma maior diversidade.

Caberá ao exibidor privado garantir esse desígnio? Provavelmente não, na medida em que a sustentabilidade da sua actividade dependerá de um outro conjunto de acções. Simultaneamente, esta mesma opção afastará, paradoxalmente, um público potencial.

A Cultura requer conhecimento, investimento e a criação de boas práticas. Sem um sólido desenvolvimento sócio-cultural, não será um plano (nem o Turismo) que o garantirá.


* Publicado na edição de 24/07/17 do AO
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quarta-feira, 19 de julho de 2017

O passo seguinte

Na abertura da edição 2017 do Festival Walk & Talk - que decorre entre 14 e 28 de Julho - o Secretário Regional da Educação e Cultura, Avelino Menezes, e o Secretário de Estado da Cultura, Miguel Honrado, anunciaram que no próximo ano, e decorrente da revisão dos apoios às artes da Direcção-Geral das Artes (DGArtes), os agentes culturais dos Açores (e da Madeira) passarão a ter acesso aos apoios nacionais.

Tal como é referido numa nota à comunicação social, o regime de atribuição de apoios financeiros do Estado, através do Ministério da Cultura, a entidades que exerçam actividades de carácter profissional de criação, exclui, desde 1997, os artistas e agentes culturais das Regiões Autónomas (GaCS, 14/7/17).

A alteração introduzida, neste decreto-lei, é uma questão de justiça e repõe a equidade, no panorama nacional, dos que aqui desenvolvem, de forma profissional, a sua actividade na área cultural.

O que é estranho é que estejamos a regozijarmo-nos por algo que é basilar mas que, de modo incrível, levou 20 anos a ser ultrapassado.

Nos Açores, esta situação não se verifica, porquanto o regime jurídico de apoio a actividades culturais nos Açores, cuja primeira legislação remonta a 2006, é aplicável aos agentes, individuais ou colectivos, regionais, nacionais ou estrangeiros, que desenvolvam actividades culturais consideradas de relevante interesse para a Região, não existindo, nesta medida, uma limitação de acesso aos apoios em função do local de residência do candidato (GaCS, 14/7/17).

Esta questão reveste-se de modo simbólico pelo timing do anúncio, inserido naquele é, actualmente, o evento cultural que mais longe leva o nome dos Açores, afirmando-se, hoje, como uma referência, crescente, no panorama da criação artística contemporânea nacional, extravasando, largamente, a geografia das ilhas.

A acessibilidade da Associação Anda & Fala, e de outras suas congéneres, no concurso a outras fontes de financiamento, poderá permitir a melhoria das suas condições de funcionamento e uma maior estabilidade na sua acção, sobretudo, na capacitação, entre nós, de estruturas profissionais ou com carácter profissionalizante.

No entanto, desengane-se quem pensar que este percurso é óbvio ou que venha a ter efeitos imediatos.

Nesta fase, o acesso aos concursos é uma realidade mas não está, de forma alguma, garantido o respectivo financiamento.

É necessário ter consciência que as estruturas regionais estarão a concorrer com estruturas sólidas, com um trabalho consistente e com um histórico invejável, uma situação que agrava, indelevelmente, as condições de acesso a estes concursos.

Não obstante todas as desigualdades inerentes a este processo, a começar pelo tempo em que estivemos arredados do processo concursal, é necessário afirmar o trabalho dos criadores regionais noutros palcos e junto de um público mais alargado.

Este confronto é fundamental para afirmar o arquipélago na agenda nacional, quer como local de criação contemporânea, quer como espaço de fruição e desenvolvimento sócio-cultural em torno da comunidade local.

A Cultura não pode ser, apenas, elemento de animação turística, como muitas vezes é defendido. Deve servir como elemento disruptor e de capacitação (formativa e educativa) da população residente.

No caso dos Açores as dificuldades são agravadas, como sabemos, pela descontinuidade do território, Mas apesar do atraso, evidente, a acessibilidade ao financiamento nacional virá atenuar, esperamos, as nossas insuficiências.

Resta-me endereçar os parabéns aos protagonistas deste longo, e moroso, processo negocial.

Competirá aos agentes, e a todos os intervenientes (regionais) da coisa cultural, o passo seguinte.

* Publicado na edição de 17/07/17 do AO
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terça-feira, 11 de julho de 2017

Exiguidade(s)

O presente ano prova que as autarquias pouco, ou nada, aprenderam com a crise.
Na maior parte do tempo, o calendário e o investimento associado à cultura é apenas uma questão simbólica, feita de boa(s) vontade(s), diplomas de reconhecimento municipal, discursos, medalhas e placas comemorativas. Mas, em concreto, pouco investimento e nenhuma estratégia ou planeamento.
A justificação para esta precariedade, é de que existem, sempre, áreas prioritárias (!). A cultura é, habitualmente, referência obrigatória em discursos e acções evocativas.
Nestes dias de crise, ou de menor intensidade crítica, que na prática significam menor disponibilidade orçamental, a política cultural autárquica extingue-se na atribuição de valores monetários (simbólicos) a entidades culturais e ao discurso de circunstância.
Contudo, em ano eleitoral parece existir, quase sempre, outra disponibilidade no fundo do baú, para acudir as festas concelhias que marcam, indubitavelmente, o cartaz estival do arquipélago.
Outrora, estas festividades assentavam noutros pressupostos. Agora, passaram a designar-se, pomposamente, festivais, sem que ninguém questione o porquê desta mutação.
Nestes actos, a identidade cultural e a perpetuação da tradição passaram a ter na animação turística, e na oportunidade de negócio, a justificação para a sua realização.
Por estes dias, o turismo justifica, sem grande discernimento, quase toda a nossa acção pública e privada.
Esta semana, numa iniciativa da Confederação do Turismo Português, ouvi da boca de um profissional da PWC (PricewaterhouseCoopers), em relação à evolução (recente) do turismo dos Açores, que “depois do sol vem a chuva”. O director deste jornal escreveu, no seu editorial da semana passada, que o Plano Estratégico Turístico de Ponta Delgada, apresentado em final de mandato, “limita-se, em boa medida, a propor o óbvio”. Estas declarações acabam, no final, por ser a prova de como na teoria concebemos uma coisa e, na prática, acabamos a fazer outra.
Isto não é, apenas, apanágio de Ponta Delgada. Aqui terá, porventura, outra escala, relativamente à maior cidade dos Açores, e a este estafado slogan, cheio de pretensão e vazio de conteúdo.
O calendário de eventos do próximo fim-de-semana, na ilha de São Miguel, confirma que não existe qualquer tipo de planificação, no agendamento deste tipo de eventos nos Açores, numa região onde os turistas apontam como insuficiente, ou inexistente, a animação turística que lhes é proposta (convinha reflectir seriamente sobre o que isto significa).
Existem largos períodos do ano onde não acontece rigorosamente nada, para depois se realizar um conjunto infindável de iniciativas, dirigidas maioritariamente aos residentes, mas divulgadas como cartaz turístico (para aqueles que nos visitam).
Convém não ignorar outro factor, os residentes passaram a viajar com maior frequência, na procura, por exemplo, dos Festivais com f maiúsculo. Um movimento que não deve ser olhado de forma despiciente.
Quem nos procura não vem atrás de animação nocturna, ruído e lixo, procura a tranquilidade, segurança e a preservação ambiental que já não encontra noutras paragens. Aquilo que, na essência, afirmamos (de)ter mas que nos custa concretizar na sua real plenitude.
Para vos dar conta desta aparente esquizofrenia, deixo-vos aqui os eventos mais significativos do próximo fim-de-semana (14, 15 e 16 de julho): Música no Colégio (Ponta Delgada), Festival Walk & Talk (com sede em Ponta Delgada mas com reflexo em vários pontos da ilha de São Miguel), Festival Ilhas de Bruma (Ponta Delgada, Praia do Pópulo), Festa do Baleeiro - São Vicente Ferreira, Feira Quinhentista (Ribeira Grande), Festas do Nordeste e ainda, com a participação de muitos micaelenses, o Santa Maria Blues.
Se se tratassem de iniciativas sem recurso a fundos públicos, não tinha nada a opor. Como não são, a reflexão impõe-se. É tempo de repensar e redefinir os apoios públicos associados à chamada animação turística (e não cultural, convém não confundir uma coisa com a outra).
A excelência e a exuberância ambiental do destino Açores não pode ser fruto do acaso, nem pode ser compaginável com a promoção da mediocridade, nem da falta de articulação programática.
A exiguidade dos recursos (disponíveis) assim o exige.

* Publicado na edição de 10/07/17 do AO
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quarta-feira, 21 de junho de 2017

Olhar para dentro (da caixa)

A 25 e 26 de Maio os Açores foram palco da 35ª Conferência anual da Associação Europeia de Televisões Regionais (CIRCOM). A organização da edição 2017 esteve a cargo da RTP que propôs que a mesma se realizasse nos Açores, uma proposta bem acolhida e que contou, desde o primeiro momento, com o apoio incondicional do governo regional.

Durante estes dias, cerca de 200 profissionais de 32 países europeus marcaram presença, contribuindo directa (e indirectamente) para uma maior notoriedade do arquipélago fora de portas.

O tema da conferência deste ano - “Regional TV facing new screens” - surge num momento decisivo de afirmação do jornalismo em todo o mundo, face às mudanças tecnológicas operadas no tempo presente e que revolucionaram os media, a visão sobre o trabalho dos jornalistas, das empresas de comunicação social e, inclusive, a forma como interagimos (espectadores/consumidores) com os novos ecrãs (new screens).

Este terá sido, porventura, uma oportunidade (sem paralelo) para os profissionais da RTP/A, co-organizadores do evento, auscultarem os seus congéneres europeus, de realidades diferentes mas com as mesmas dúvidas (e incertezas) com que se confronta o serviço público de rádio e televisão nos Açores.

É urgente um estudo de audiências e um amplo debate público (e interno) sobre aquilo que é, e deve ser, a RTP/A do futuro. Os desafios são múltiplos e não se cingem à escassez de recursos técnicos (e humanos). Esta será, apenas, uma parte (substancial) do problema. 

Perante as questões que se levantam na missão a desempenhar pela RTP/A, entrincheirada num confronto entre o global e o local, num universo cada vez mais globalizado (e homogéneo), José Lopes de Araújo, vice-presidente do CIRCOM e antigo director da RTPA, afirmou, em entrevista ao Açores 24 (23 maio), algo que me parece óbvio: “É uma coisa terrível quando as pessoas pensam que a história se pode repetir. As coisas têm um tempo. Agora há desafios igualmente importantes. (…) É preciso ousar, não ter medo, é preciso fazer”.

Os novos media, catapultados pelo efeito de individualização/personalização do consumo de produtos culturais, informação e de entretenimento, disponíveis para uma ampla audiência, por intermédio das plataformas móveis, são algo que não podemos ignorar.

Nos Açores, os consumidores também acompanharam as evoluções tecnológicas e passaram a ter o mundo na palma da mão. Longe vai o tempo em que tinham acesso, exclusivamente, a um único canal de rádio e de televisão.

O efeito é disruptivo, sem dúvida. No entanto, persiste a ideia, em alguns círculos da RTP/A, e não só, de que nada deva ser alterado, que o mundo continua o mesmo e o que foi realizado no passado, é válido no presente (futuro). Persistir no erro poderá conduzir o destino - do serviço de rádio e televisão nos Açores - a um ponto sem retorno. Daí que importa sublinhar (a bold) o que disse (e fez questão de enfatizar) Lopes de Araújo.

Não defendo um modelo comercial (e indiferenciado), que não olhe as especificidades locais e a identidade que, ainda, justifica a existência de um canal regional com sede nos Açores. Não podemos ignorar, isso sim, a necessidade imperiosa na renovação (e actualização) dos conteúdos. E, interiorizar, que o serviço público não vive da memória (e da repetição até à exaustão) do seu passado.

E o financiamento, a Região terá capacidade para suportar a RTP/A? Não sei responder a esta questão. Mas mesmo que tenha, considero que esta função deve ser assegurada pela RTP, na disponibilização de um serviço público (do Estado), a par de tantos outros que existem nos Açores.

Para tal, e parafraseando Pierre Bourdieu (in ‘Sobre a Televisão’, Celta, 1997): “Para superarmos a dificuldade, é preciso que os (…) que estão na sua pequena fortaleza saibam sair dela e lutar, colectivamente (…).” 

Sem um colectivo, sem uma equipa coesa e motivada, será mais difícil superar o caminho que há a percorrer. Hoje, mais do que em qualquer outra altura, é necessário olhar para dentro (da caixa) e saber ousar.

* Publicado na edição de 19/06/17 do AO
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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Barracada

Ponta Delgada é palco para a maior festa religiosa dos Açores: o Senhor Santo Cristo dos Milagres.
Esta imensa manifestação de religiosidade popular renova-se a cada ano que passa, protagonizada por milhares de fiéis e peregrinos que se deslocam ao Convento da Esperança, junto ao Campo de São Francisco.
A sua popularidade está mais enraizada entre nós, e na comunidade açoriana emigrada, mas congrega cada vez mais devotos que, por agora, se desloca em maior número ao arquipélago.
A taxa de ocupação das unidades hoteleiras é sempre elevada durante os dias da festa e, este ano, terá ficado próximo dos 100%. A somar a este valor, temos de contabilizar toda a nova oferta associada ao Alojamento Local (AL), cuja repercussão vai muito para além dos números oficiais.
A romaria a Ponta Delgada é intensa e não está circunscrita ao lado poente da cidade. A sua realização afecta toda a dinâmica da população que aqui habita e trabalha, nomeadamente, na gestão do trânsito e na salubridade do espaço público.
Contudo, este não parece ser o entendimento de quem gere os destinos do município. Esta não é uma situação nova, repete-se ano após ano, pelo que importa repensar, de forma responsável, toda a componente profana associada a esta grande festa.
O aparente desleixo na gestão do espaço público, de uma cidade como Ponta Delgada, não é compaginável com a imagem de sustentabilidade ambiental e de respeito pelo património que apregoamos (de)ter.
Perante alguns comportamentos e cenários menos aprazíveis, fingimos que não é nada connosco. Mas é. Basta ouvir os comentários e o olhar incrédulo de quem nos visita. Será esta a “diferenciação” de que se fala?
Vamos a exemplos. Não existe nenhum plano que regule o enorme fluxo de veículos ao centro histórico, com todos os constrangimentos que daí advêm: em que a falta de estacionamento alternativo conduz, inevitavelmente, ao parqueamento selvagem, sem respeito por quem tem problemas de mobilidade ou tenha um carrinho de bebé; a informação das alterações do trânsito automóvel não pode estar circunscrita a um edital (publicado numa página interior de um jornal que ninguém tem acesso), tem de existir uma acção pró-activa e pedagógica; e falta uma correcta sinalização e acompanhamento permanente na gestão do trânsito.
O caos parece ser o denominador comum. A proliferação de lixo e a localização/organização da zona de restauração continuam a ser as chagas desta festa.
Se queremos turismo de qualidade, temos de inovar (e renovar) um conjunto de conceitos, transformando as chamadas “barraquinhas” num festival gastronómico, por exemplo, organizado num espaço condigno.
Absolutamente tenebroso, é o espaço onde estão localizadas as actividades lúdicas, local para onde confluem, sobretudo, famílias.
A somar a tudo isto temos os inefáveis sanitários, em maior número, é certo, mas colocados, indiscriminadamente, em plena via pública, uns, inclusive, em frente ao forte de São Brás. Indescritível.
Nunca compreendi a razão pela qual não foram previstas infraestruturas de apoio, a esta grande festa e ao acolhimento de peregrinos, a quando das obras de requalificação do Campo de São Francisco. Uma situação que podia (e devia) ser solucionada em definitivo.
A somar a tudo isto temos, ainda, o triste espectáculo da venda ambulante no passeio da avenida marginal e das festas autorizadas, em pleno centro da cidade, até às seis da manhã.
Tenho consciência das dificuldades inerentes à articulação das várias entidades envolvidas na organização das festas do Senhor Santo Cristo. Mas a responsabilidade maior, desta tarefa, cabe ao município. Aqui não vale encolher os ombros, apontar o dedo à falta de civismo da população ou, simplesmente, “play dead”. Isto será sempre o mais fácil.
Por estes dias, o cosmopolitismo do município de Ponta Delgada rima com Barracada.

* Publicado na edição de 29/05/17 do AO
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terça-feira, 9 de maio de 2017

Na periferia (da Periférica)

Participei na Periférica, um seminário promovido pelo Walk & Talk, enquadrado no Programa de Conhecimento do Festival, que visou discutir a “Programação Cultural” o seu “âmbito, escala e relevância”.
Esta iniciativa antecede a realização do festival (que se realiza no mês de Julho) e é uma chamada de atenção para a necessidade, premente, entre nós, de uma reflexão crítica em torno da criação artística contemporânea.
O seminário contou com a participação de oradores locais, nacionais e internacionais, cada qual com uma perspectiva pessoal mas com muitos pontos em comum, demasiados até, quando se olha para as geografias envolvidas.
Parece-me relevante que o Walk & Talk procure marcar uma presença no calendário para além do tempo de realização do Festival, propriamente dito, e desta forma, procure disseminar a discussão, a reflexão com quem aqui trabalha todo o ano, através do paralelo com exemplos de latitudes distantes da nossa, cuja proximidade encontramos nos objectivos e na missão em que procuram trabalhar.
A partilha de experiências e de conhecimento são importantes para o desenvolvimento de novas competências e serve como elemento comparativo, numa análise crítica ao trabalho de cada um. Muitas vezes serve apenas para comprovar que as práticas vigentes são semelhantes em quase todos os locais, alterando-se, como é óbvio, mediante questões de “âmbito, escala e relevância”.
Este exemplo evidencia, a par de outras iniciativas que se têm desenvolvido no nosso meio cultural, a importância de não perdermos o contacto com a realidade que nos rodeia, sendo que é para ela que, numa primeira instância, o nosso trabalho se confronta, para depois ganhar outra relevância quando confrontada, num plano posterior, noutro âmbito.
Para que tal aconteça, importa, acima de tudo, ter presente e conhecer, com rigor, as condições de trabalho dos artistas/criadores regionais a uma escala que é nossa.
Considero erróneo, e desajustado, fixar pontos de comparação com realidades que distam, em quase tudo, da nossa. Não quero dizer que não devamos olhar para os bons exemplos que daí advêm. Aliás, o que me parece fundamental, é saber aplicar, à escada e ao contexto da(s) ilha(s), modelos de criação, fruição e de gestão que sirvam de referência ao desenvolvimento do tecido criativo regional.
Neste sentido, é importante investir em iniciativas que façam a ponte entre quem aqui trabalha e que, no âmbito de uma residência artística, um workshop, uma formação técnica, ou simples conferência, partilhe conhecimento com quem está mais longe dos centros, onde este tipo de experiências é mais regular, está disseminada de forma mais abrangente, e não se encontra reduzido a uma cadência pontual e para um público circunscrito, como é o nosso caso.
Deste modo, é necessário amplificar os círculos, deste conhecimento, a um público cada vez mais alargado, e não apenas afunilar este capital para um público que já o detém. Não pretendo excluir ninguém, parece-me importante, no que à relevância diz respeito, que consigamos contaminar, pela acção cultural que desenvolvemos, um cada vez maior número de participantes, em particular, aqueles que ainda não são consumidores regulares de produtos culturais.
Para tal, importa apostar num trabalho de mediação de públicos, trabalhando em estreita parceria com as escolas e outras entidades formativas, na medida em que “uma comunidade emancipada é uma comunidade de contadores e tradutores” (Jacques Rancière, 2010).
A periferia que aqui se vive é tanto geográfica, como cultural. Iniciativas como esta visam tornar este caminho mais acessível, sendo que ele não óbvio para uma imensa maioria.
No final, a programação cultural tem de encontrar a escala adequada sem dispensar de “sentir o espírito do tempo” (António Pinto Ribeiro, 2009), sem pretender ser aquilo que não é (ou o que somos) mas apontando, sempre, pistas de futuro (progresso).
A Periferia está, na maioria dos casos, no meio de nós.

* Publicado na edição de 08/05/17 do AO
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