quinta-feira, 17 de maio de 2018

#aculpaedogoverno

Ano após ano, a tradição renova-se e a imundice marca lugar.

Todos os anos alimento esta crónica com a minha estupefacção perante a maré selvática que atropela o espaço público em dia de festa.

Este ano não foi excepção, ficando a prova que é necessário, por todas as razões e mais algumas, rever a componente profana associada às Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres.

Os Açores são reconhecidos internacionalmente pelas suas práticas ambientais e, de momento, estão a tentar implementar um ambicioso plano associado à sustentabilidade, consubstanciado através de uma candidatura à certificação de destino de turismo sustentável, sendo o primeiro arquipélago do mundo a almejar (de)ter este selo do Conselho Global de Turismo Sustentável (Global Sustainable Tourism Council - GSTC), organismo que integra várias entidades das Nações Unidas.

Como foi possível testemunhar, e vivenciar, este desígnio não é compaginável com a organização do espaço público do local da festa e da zona (da cidade) limítrofe às festividades, no que concerne à limpeza, à disposição dos espaços de restauração, de venda ambulante, de trânsito e de estacionamento.

O município terá consciência que não é possível dar tolerância de ponto a determinados serviços municipais em dias como estes (ou a atribuí-los tem de, forçosamente, garantir alternativas)? Não é possível aumentar e melhor a ordem pública e a salubridade da cidade? Será normal que (tudo) isto aconteça de forma recorrente e negligente?

Quando se concentra um número (inusitado) de vendedores ambulantes é normal que os resíduos, daí resultantes, sejam em grande número, os recipientes já foram menos, agora são mais, mas continuam a ser insuficientes para a procura.

Perante a mundanidade das ocorrências, deixo aqui algumas questões.

A dimensão das evidências será capaz de perturbar a passividade do município?

Caberá à Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres a gestão do espaço público ou será responsabilidade do município acautelar e zelar pelo destino a dar à festa, naquela que é a maior expressão religiosa do Arquipélago?

(Ou) será que esse galardão passou a estar consignado às Grandes Festas do Espírito Santo (com autonomia autárquica)?

A insalubridade de Ponta Delgada constituirá o tão propalado “motor de desenvolvimento dos Açores”, naquela que é divulgada como “a porta de entrada do turismo”? E será este o “novo pilar de desenvolvimento do concelho, da ilha de São Miguel e do arquipélago”?

Esta minha preocupação não tem apenas que ver com o crescimento da actividade turística, nem com os peregrinos que nos visitam, é uma preocupação que me assiste, sobretudo, como residente, e habitante desta cidade, numa situação insustentável, aparentemente, insolúvel e incómoda.

A sua resolução deve passar por uma ampla discussão (pública) e de reflexão por quem tem a incumbência de gerir a vida na cidade.

Não vale a pena ignorar o problema, nem culpabilizar a falta de civismo de uns quantos.

Já estivemos mais longe de afirmar que #aculpaedogoverno.

* Publicado na edição de 14/05/18 do Açoriano Oriental
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quarta-feira, 16 de maio de 2018

Será que aprendemos a lição?

Um estudo da Organização Mundial de Turismo identifica Portugal como um dos países (desenvolvidos) que mais depende do turismo na contribuição directa para o seu Produto Interno Bruto (PIB). O turismo representa 9% da riqueza nacional, ou o mesmo é dizer, que vale 9 euros em cada 100 gerados pela economia portuguesa.

Após o período conturbado da história recente, o incremento turístico foi recebido como um milagre da multiplicação.

O fenómeno é global e alastrou-se, rapidamente, a todo o território. Os Açores não são excepção. Em particular, Ponta Delgada (e São Miguel).

Após anos ao abandono, assistimos a um crescente retorno do investimento (privado com recurso ao sistema de incentivos regional) ao centro histórico da maior cidade açoriana, com ênfase na restauração e no alojamento local.

Apesar da nossa (reduzida) escala, e da reconhecida diferença da pressão exercida em cidades como Lisboa e Porto, estamos a ser confrontados com os primeiros impactos da intensificação da actividade turística.

Ninguém dúvida da importância económica deste sector, sobretudo, no estímulo da reabilitação urbana e no maior dinamismo da construção civil.

No entanto, se em Lisboa se comparam preços do metro quadrado com Paris, nós, por cá, comparamos Ponta Delgada com a capital portuguesa, com a ressalva que a riqueza instalada não é equiparável.

Um dos aspectos mais visíveis, deste fenómeno, são os preços disponíveis para aquisição e arrendamento, que nos fazem questionar a quem se destinam aqueles imóveis. A prova é que alguns promotores imobiliários reconhecem (publicamente) que a sua carteira de clientes é, por estes dias, constituída por 50% de estrangeiros, com um poder de compra diferenciado e que fazem inflacionar, sobremaneira, o valor de mercado.

O centro histórico de Ponta Delgada está condenado, no futuro imediato, a ser habitado por turistas.

A discussão em torno da descaracterização das cidades, fruto da massificação do turismo, pode não ser (ainda) uma realidade a full-time mas terá (e já tem), inevitavelmente, efeitos na forma como acedemos à habitação em algumas zonas da cidade e da ilha.

Muito recentemente, a Secretaria Regional da Energia, Ambiente e Turismo implementou um registo mensal obrigatório, que visa monitorizar o número de hóspedes e dormidas no alojamento local, passando a fazer parte das estatísticas oficiais.

Mais do que a (importante) recolha de dados, para a monitorização da evolução desta forma de alojamento no sector turístico, considero importante o debate em torno do acesso acessível à habitação, na medida em que assistimos a um mimetismo empresarial em que, tudo e todos, parecem convergir para o mesmo.

E não é tudo bom, há muita oferta pouco qualificada que não dignifica o destino.

A euforia está aí mas importa, rapidamente, que se estabeleça uma regulação concreta que não penalize o investidor (mas o prevaricador do alojamento ilegal), mas cujo licenciamento não pode ser ilimitado e deverá responder a uma necessidade efectiva.

No caso da quebra da actividade turística (e consequentemente, de rendimentos), será que vamos assistir a um coro de indignados à procura de uma intervenção governamental que salve empresários e proprietários?

O passado (recente) é um bom exemplo daquilo que, de futuro, não devemos (ou devíamos) perpetuar.

Será que aprendemos a lição?

* Publicado na edição de 30/04/18 do Açoriano Oriental
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terça-feira, 15 de maio de 2018

Autenticidade

Um dos pontos de paragem (obrigatórios) no roteiro turístico (contemporâneo) são os mercados citadinos, local de confluências várias, onde o viajante procura a autenticidade do local, através da participação num ritual realizado pelos residentes e como forma de enriquecer a sua experiência turística.

Para quem viaja regularmente, esta questão não é uma novidade, é apenas a constatação de um fenómeno em expansão.

O turismo democratizou-se e, por essa via, tenderá a massificar-se, quer queiramos, quer não. É algo que não podemos controlar, mesmo que não seja este o propósito com que nos alinhamos à partida.

A abertura do espaço aéreo (europeu) explica, em larga medida, o fenómeno turístico em destinos que nunca tiveram a oportunidade de crescer em número e em resultados.

Os Açores são (apenas) mais um exemplo de regiões, e cidades de pequena e média dimensão, que tiveram, de um dia para o outro, de se adaptar às novas contingências.

Considero que um desafio para viajantes e destinos passa hoje, inexoravelmente, por contrariar, dentro daquilo que é possível, a experiência massificada e indiferenciada, em que acabamos por ver, e degustar, as mesmas coisas, seja em que latitude for, na qual a ‘memorabilia’ acaba por ser idêntica para deixar de ser autêntica.

Pode parecer exagero mas devemos colocar as coisas em perspectiva, colocando de parte o número de camas, os proveitos da hotelaria, o número de passageiros desembarcados (por mar e pelo ar), focando as nossas atenções nos conteúdos (e serviços) que temos para oferecer.

A qualificação da oferta (da experiência turística Açores) não se pode distanciar da realidade e do quotidiano dos residentes, não podemos querer transformar estas ilhas num parque de diversões em formato radical, em que a natureza é servida como uma experiência limite, apenas, pelo facto, da sua mera contemplação ter passado a ser considerada: boring.

Como já aqui escrevi, e como referido numa das muitas palestras a que tenho assistido sobre este tema, uma das nossas vantagens é não ser identificados como um destino turístico, na medida em que em todos os destinos (consolidados) o pacote turístico já está formatado e customizado ao perfil do visitante.

Esta actividade é importante para a consolidação da retoma económica do arquipélago mas não deve ser a única (há que ultrapassar a ideia de ciclos económicos assentes na monocultura), sobretudo devido à fragilidade e riscos que a prossecução deste sector acarreta, em que qualquer oscilação, positiva ou negativa, representa, quase sempre, um impacto significativo para a cadeia de valor.

Voltando ao início deste artigo e aos mercados citadinos, como “espaços âncora” (adjectivação vazia de significado mas utilizada até à exaustão) de visitação, quem visita o Mercado da Graça, em Ponta Delgada, é confrontado com um espaço descaracterizado, sem alma e arquitectonicamente desastroso. Quem ainda se lembra do antigo Mercado?

Não sou saudosista mas urge requalificar aquele espaço dotando-o, e posicionando-o, para o que afirmarmos (de)ter em termos turísticos, na sustentabilidade dos produtos que produzimos e não na importação de frutas e legumes (indistintos e de origens diversas e pouco amigas da ideia daquilo que é sustentável) ao turista que vem à procura de autenticidade e que, muito provavelmente, a tem, em melhor qualidade, no seu destino de origem.

Importa não defraudar as expectativas de quem nos visita, sendo que não há promoção que compense a repercussão negativa de uma má experiência turística.

* Publicado na edição de 16/04/18 do Açoriano Oriental
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quarta-feira, 18 de abril de 2018

Há mais vida (para além do Rallye)

A Monocle é uma publicação de referência mundial, propriedade de um dos fundadores da Wallpaper, descrita, editorialmente, como um objecto entre a Foreign Policy e a Vanity Fair.

O número 57, publicado em outubro de 2012, continha, para surpresa, confesso, um artigo sobre os Açores, um local, segundo o jornalista, no “middle of nowhere”.

Hoje esta data parece longínqua, pois o clima económico, tal como estava, alterou-se significativamente, em que estes anos de alguma obscuridade, pela ostensibilidade provocada pela crise, transformaram o recente crescimento turístico num antidepressivo para as almas descrentes.

Um dos aspectos que mais me chamaram a atenção, para além de alguns comentários humorados, foi a abordagem pouco ortodoxa em relação ao desenvolvimento das ilhas, no qual são identificadas dez áreas de actuação (e de investimento futuro), a saber: a localização geográfica nomeada como central, um activo a potenciar, nomeadamente, como ponto de reuniões internacionais, associado a grandes organizações (NATO ou G20, por exemplo); outra solução passaria por uma prisão, uma solução polémica, é certo, mas a ideia de acolher uma Alcatraz do Atlântico por intermédio da implementação de um modelo de inclusão social experimental idêntico ao que é realizado na Noruega (Bastoy Island); um porto e um ponto de observação espacial; a sede de um canal noticioso para o espaço lusófono; uma universidade especializada para as questões da lusofonia; o nosso clima temperado podia permitir a existência de uma reserva e a criação de espécies exóticas; a criação de um ‘hub’ internacional para construção e reparação naval; o desenvolvimento da agricultura biológica e das energias renováveis e um resort de luxo com base na sustentabilidade.

Algumas destas ideias dão dimensão a muitas das nossas capacidades endógenas, atribuindo-lhes o contexto e a dimensão que lhes falta.

Passados estes anos, podemos constatar, felizmente, que algumas delas passaram a ser concretas, sobretudo, em termos ambientais.

A dinâmica económica obtida com o incremento turístico, e com a abertura do espaço aéreo dos Açores, tornaram obsoletas parte destas abordagens.

Saídos de um tempo de crise, esta súbita atractividade tem deixado tudo e todos deslumbrados, sendo que o ilhéu é um alvo fácil de seduzir.

Isto faz-me sempre lembrar o episódio (recorrente) do artista que afirma amar os Açores, esta terra linda, e as suas gentes mas que, no final, só conhece o quarto de hotel e a porta do camarim. O público, por regra, aplaude entusiasticamente.

Por estes dias, o arquipélago é vendido como uma jóia escondida, um animal exótico e um conjunto de outros atributos (ficcionados) para turista ler e que causam, sempre, alguma estranheza para quem aqui habita.

O verdadeiro desenvolvimento económico só terá significado se todas as acções promocionais reverterem, efectivamente, para uma melhoria sustentada da população residente, em termos sociais, culturais e ambientais.

De nada serve afirmar que queremos ser um destino sustentável se depois não construímos todos, sem excepção, de forma transversal, as bases para que tal possa acontecer.

E parte desta sustentabilidade passa por conseguirmos crescer como sociedade de forma equilibrada e não inflacionada por títulos, selos ou artigos na impressa nacional ou num teaser publicitário de um canal desportivo.

O sucesso dos Açores está na diferenciação das suas particularidades e nunca na proliferação de pacotes de animação massificada, dos empreendimentos aos serviços, na medida em que temos de conseguir promover o que outros destinos (já) não têm.

Este elemento surpresa está na afirmação da nossa escala e não em fazer do arquipélago uma coisa que ele não é.

É necessário ter presente que, temos de responder às elevadas expectativas dos visitantes, o retorno e o reflexo de uma má experiência provoca muito mais danos do que aqueles que possamos neutralizar pela melhor promoção do destino que dele se possa fazer.

E para que haja sustentabilidade, tem de existir um projecto (e um compromisso colectivo) a médio e longo prazo.

O festival Tremor é um bom exemplo do caminho que há a fazer. E a prova de que há mais vida para além do Rallye.

* Publicado na edição de 26/03/18 do Açoriano Oriental
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sexta-feira, 6 de abril de 2018

Napperon *

Ponta Delgada definiu como objectivo final do seu Plano Estratégico de Desenvolvimento ser Capital Europeia da Cultura em 2027 ou, no mínimo, realizar uma candidatura para sê-lo.

Três anos passados do anúncio desta aspiração, não encontro nada que me indique o que está a ser preparado para que tal aconteça.

A Cultura é quase sempre (des)considerada ou tida como uma coisa menor, desenvolvida por uns malandros subsidiodependentes com tempo livre e nada para fazer.

O tempo passou mas o preconceito mantém-se. E nestes dias, de maior constrangimento financeiro, ganhou nova força. Infelizmente, este discurso não escolhe ideologia e circula (abundantemente) em muitos dos corredores do poder.

No entanto, existem excepções mas há sempre quem configure a Cultura como um utilitário, nem que seja pelo lado figurativo ou simbólico na prateleira do adorno institucional.

Neste sentido, é muito provável ser este o entendimento, na aplicabilidade desta opção, através da qual podemos almejar cumprir com a métrica europeia apenas com a teoria económica, sem a capacitação da população em termos educacionais e culturais.

A economia ignora a realidade (social) para apenas se fixar no output.

A falta de ambição mina e define muito daquilo que somos.

Em sentido oposto, o excesso de ambição, o facilitismo ou até a irrelevância e ignorância da acção política, definha a estratégia de desenvolvimento para uma cidade ou até mesmo para uma região.

Não há uma ideia agregadora e com objectivos concretos (a médio e a longo prazo) quanto a este desígnio.

É isto que cogito acerca do vazio desta intenção (a de candidatar Ponta Delgada a Capital Europeia da Cultura).

Em sentido contrário estão outras cidades nacionais candidatas ao mesmo título, a saber: Coimbra, Aveiro, Guarda, Leiria e Viseu, na região Centro, ou Braga e Viana do Castelo, no Norte, Cascais e Oeiras, na área de Lisboa, e Évora e Faro, no Sul do país.

Ponta Delgada não figura em nenhuma pesquisa sobre o tema.

Os concursos para a atribuição do título de Capital Europeia da Cultura começam seis anos antes, sendo que na passada semana ficamos a saber que a Guarda apresentou o grupo de trabalho, que ficará responsável pelo processo de candidatura a apresentar em 2021.

Por cá, quando é que perspectivamos iniciar este processo? Ou este objectivo não era para levar a sério? Se assim é, que sentido é que faz designar este propósito se não é nossa intenção levá-lo até ao fim? Não será este um dos problemas do descrédito em torno da política e dos políticos, o real comprometimento para com os seus concidadãos ou naquilo que se entende por uma política de verdade?

A meados da década passada, a par com um grupo de personalidades, acreditei ser possível candidatar os Açores a Região Cultural Europeia, e não apenas com a participação de uma ou mais cidades, mas com o todo regional, com todas as suas potencialidades e fragilidades, na medida em que a realidade insular, da ilha ou do concelho, é muito díspar e está longe de ser aquela que Ponta Delgada, por exemplo, representa.

Nesta linha de pensamento, o secretário de Estado da Cultura, Miguel Honrado, referiu, por estes dias, que neste tipo de projetos “sobretudo numa Europa que é cada vez mais uma Europa das regiões”, onde “as regiões são priorizadas, em termos de desenvolvimento”, faz todo o sentido “pensar-se numa escala regional”.

Contrariamente a tudo o que se passa, continuamos a agir de forma individualizada e pouco estruturada.

E para que conste, a Cultura não é um napperon, o investimento (continuado) neste sector representa desenvolvimento e progresso.

Importa reafirmá-lo, sem pudor.

* Título original: A Cultura não é um napperon


* Publicado na edição de 19/03/18 do Açoriano Oriental
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sábado, 24 de março de 2018

Pequenos gestos

Não tenho por hábito utilizar este espaço (público) em benefício de causa própria. Contudo, há assuntos que extravasam o mero âmbito da agenda (cultural) e servem, espero, como alerta, para derrubar barreiras (invisíveis) ou para que, ao menos, se fale deles.

Tema(s) incómodo(s) que a ilha (nós todos, entenda-se) não assume e para os quais reserva uma enorme parcimónia, conservando alguma da indiferença que caracteriza as sociedades pós-modernas (ou aquilo a que convencionou designar da hiper-realidade).

Vem isto a propósito da exibição do documentário “I Don’t Belong Here” de Paulo Abreu, construído a partir de uma peça de teatro com o mesmo nome, da autoria de Dinarte Branco e Nuno Costa Santos, concebida a partir das experiências pessoais dos próprios intérpretes que, oriundos dos EUA e do Canadá, são deportados para os Açores.

Esta peça conseguiu um feito inédito, colocou não actores em palco, partilhando as suas histórias de vida, com uma determinação e uma força que os próprios desconheciam (e que produtores e público testemunharam).

E não estamos a falar de exemplos de sucesso, falamos de percursos familiares disfuncionais, desestruturados, violentos e plenos de dependências.

A coragem destes indivíduos (deportados), no assumir um lado menos esplendoroso da sua existência, foi captado pelo realizador durante um período de cerca de dois anos, gerando cerca de 240 horas de material filmado que, após editado, deu origem a um filme com 75 minutos, estreado na edição de 2017 do Festival Doclisboa, no qual obteve o Prémio Escolas/Prémio ETIC para Melhor Filme da Competição Portuguesa.

Este projecto surgiu de um desafio lançado a Dinarte Branco pelo Observatório dos Luso-Descendentes e contou com o apoio de inúmeras entidades, e de muitas pessoas, sem as quais esta empreitada não teria chegado ao fim.

O processo de produção da peça foi muito difícil, não só em termos humanos e de logística, mas também, em termos de montagem financeira, a qual obteve o apoio decisivo da co-produção da Rede 5 sentidos, uma estrutura informal de programação cultural composta por 11 estruturas culturais, da qual o Teatro Micaelense, faz parte, e que possibilitou a itinerância deste objecto artístico. O qual é, ainda hoje, assumido como referência de boas práticas na produção artística em rede.

Destaco, igualmente, os contributos da Fundação AMI, do Governo dos Açores (Direção Regional das Comunidades e da Cultura), da SATA, do Grupo Bensaude, da Açoreana Seguros e da Associação Novo Dia, sem os quais não teria sido possível financiar esta ideia.

Apesar disto, parte substancial do trabalho associado à conclusão do filme, e de parte significativa do processo preparatório, e do decorrer da peça, é fruto do investimento pessoal de todos os envolvidos, os quais dedicaram a este projecto muito mais do que o mero retorno financeiro, muito espartano, diga-se em abono da verdade.

O subfinanciamento da actividade cultural é um constrangimento anterior à crise, estes tempos de contenção apenas vieram fragilizar, sobremaneira, um sector que resiste, irracionalmente, ao determinismo economicista que dita os dias do presente.

Este projecto é a prova de que é possível acreditar numa sociedade melhor, que podemos todos ultrapassar as dificuldades que nos são impostas e temos, como muito e bem disse Álvaro Borralho, no final da exibição do documentário, de conseguir quebrar com os estigmas paralisantes (e permanentes) associados à realidade do indivíduo deportado.

Esta não é uma tarefa fácil, como se depreenderá, é algo que exige muito do próprio, de alguém que vive num estado de permanente injustiça, pelo facto de ter cumprido com a sua pena e que aqui, no espaço que o acolhe, experiencia uma dupla penalidade, na medida em que se vê coarctado da sua família e do meio que o viu crescer.

A desumanidade associada às leis da emigração faz com que o desânimo, e a descrença, façam parte do dia-a-dia destas pessoas.

Pequenos gestos como este, primeiro a peça de teatro e o filme que se seguiu, são contributos para que a cultura, também ela, funcione, de forma activa, para a transformação social.

Se não acreditasse nisto, não faria o que faço.

* Publicado na edição de 12/03/18 do Açoriano Oriental
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segunda-feira, 12 de março de 2018

Complementaridade(s)

A romaria à Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL) faz parte do calendário da estação, sem que se questione, sobremaneira, a participação da região neste certame.

Uma montra nacional, dividida entre uma componente dedicada a profissionais e outra dirigida ao público que acorre ao Parque das Nações, durante o fim-de-semana, na expectativa de aceder às inúmeras provas de produtos regionais (queijos, vinhos e enchidos) ou participar num sorteio para ganhar uma viagem aérea para o destino da moda.

Todos os anos há uma polémica associada à representação açoriana, este ano não foi excepção.

Apesar do sucesso dos anos recentes, os Açores necessitam de se afirmar, de forma consistente, como um destino creditado e não apenas como uma moda passageira.

O arquipélago é, ainda, um ilustre desconhecido. Isto constitui, no meu entender, uma vantagem. Mas para tal, é necessário garantir a promoção do destino como um todo, e não de nove partes distintas, como alguns parecem querer acreditar.

Ao contrário de outras regiões, os Açores estiveram (re)partidos no complexo da Feira Internacional de Lisboa (FIL) pelo pavilhão 1, onde esteve o stand oficial dos Açores (organizado pela Associação Turismo dos Açores - ATA), e pelo pavilhão 2, onde estiveram a Associação de Municípios da Ilha de São Miguel (AMISM), a Associação de Municípios do Triângulo (Faial, Pico e São Jorge) e os municípios das Flores e Corvo.

Esta luta de protagonistas (e de protagonismo) dita que não importa a (pretensa) escassez de recursos, sendo que a racionalidade dos gastos, neste como em outros casos, não é tida em linha de conta, inclusive, na eficácia associada a uma acção promocional concertada, em que, infelizmente, todos lutam, apenas, por um lugar na fotografia.

Relativamente a esta questão, a dispersão verificada nesta representação, os responsáveis pela promoção turística falam de um “retrocesso”.

Contudo, convém não esquecer que esta proliferação de meios não se extingue apenas na presença na BTL, ela também se verifica nos múltiplos canais (sobretudo online) em que cada qual tenta promover a sua região, seja ela uma ilha (Terceira) ou grupo de ilhas (Triângulo).

Paralelamente à realização da BTL, em que os intervenientes parecem querer investir todas as fichas num única e determinada aposta, parece-me contraproducente que, à semelhança da inexistência de um verdadeiro sentido de união em torno da promoção do destino, todos os eventos e iniciativas de animação turística estejam concentrados na época alta, período que já está, antecipadamente, vendido e que já não dá resposta à procura que, actualmente, tem.

Na ausência de uma estratégia articulada, cada município promove, até à exaustão, as suas festas concelhias e os seus “eventos âncora”, ignorando, na maioria dos casos, que o público-alvo, destas iniciativas, se esgota localmente e não constitui um cartaz suficientemente apelativo, nem seja a razão primordial pela qual os turistas se deslocam aos Açores.

Como é óbvio, existem honrosas excepções, mas continuamos a negligenciar a sazonalidade (novembro a março), pelo que, complementarmente à natureza, disponível todo o ano, é necessário investir nas actividades dentro de portas, nomeadamente, através de uma melhor dinamização da multiplicidade de espaços culturais (ao nosso dispor).

Para tal não basta edificá-los, importa dotar-lhes de meios (sobretudo financeiros), para que os mesmos possam desenvolver, capazmente, a missão que lhes foi confiada. A este propósito destacaria a comunicação da professora Susana Goulart Costa, na conferência de abertura dos III Encontros Daniel de Sá, na qual sinalizou a importância que deve ser dada à valorização do património cultural dos Açores.

Outro aspecto a destacar na experiência turística local, é a necessidade de afirmação da nossa identidade, naquilo que nos diferencia e distingue de outros destinos, recusando qualquer tentativa de homogeneização (e carácter indiferenciado) da oferta. Importa ter isto bem presente, no garante de uma actividade económica que queremos afirmar de forma duradoura (e que não tenha somente um carácter transitório).

Essa garantia começa e termina “cá dentro”, só depende de nós e de mais ninguém.

* Publicado na edição de 05/03/18 do Açoriano Oriental
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