quarta-feira, 11 de julho de 2018

Um caminho de futuro

O festival Walk & Talk (W&T) acontece há oito edições e este ano decorre, em São Miguel, entre 29 Junho e 14 Julho.

Para quem está mais atento, e tem acompanhado a trajectória deste projecto, o W&T está diferente e pouco, ou nada, tem a ver com aquele que se deu a conhecer de início, o qual preconizava a criação de um “museu a céu aberto” (com recurso a grandes murais), ideia que rapidamente abandonou mas que ainda perdura na memória de muitos.

Esta questão é pertinente, na medida em que o festival cresceu, diversificando e alargando o seu espectro e a sua acção, acompanhando, paralelamente, o desenvolvimento que a ilha, também, evidencia. E, tal como o arquipélago, deu-se a conhecer ao mundo. Não sei se podemos falar de maturidade, esta leitura pode parecer paternalista, e desnecessária, mas o reconhecimento obtido com a atribuição de um apoio da Direção-Geral das Artes, no primeiro ano em que os agentes culturais das regiões autónomas conseguiram concorrer, confere-lhe uma maior responsabilidade, rumo a uma crescente, e necessária, profissionalização do tecido artístico/criativo regional.

Não obstante as recentes conquistas, e todo o trabalho evidenciado até aqui, considero que os objectivos a que o festival se propôs, e propõe, só farão pleno sentido na construção de uma dinâmica consistente e sustentada da actividade cultural e criativa na(s) ilha(s).

Este será, talvez, parte de um longo processo.

Num espaço geográfico circunscrito, por natureza, conservador nas atitudes e nas opiniões, a ingenuidade e irreverência (iniciais) foram importantes para a sua afirmação. O W&T colocou os Açores no mapa (e no roteiro) da criação contemporânea, uma conquista que ninguém ignora.

Contudo, considero fundamental que o W&T abandone o (seu) carácter efémero, na medida em que existem mais Açores para além do período em que o festival ocorre.

A criação de hábitos de fruição e de visitação a espaços e a locais de cultura é, ainda, entre nós, um desafio. Importa pois, por isso, que o festival expanda a sua presença ao longo do ano, combatendo uma aparente guetização, cuja repercussão não pode ficar circunscrita às redes sociais e à imprensa, sabendo (sempre) à partida que estaremos a falar de um público restrito. Convém não ignorarmos este dado, sendo que não há nenhum problema com isso.

A importância de tornar acessível o contacto com a criação e com os criadores contemporâneos, nacionais e internacionais, junto de um público menos familiarizado com um conjunto de linguagens, conceitos e temáticas que, habitualmente, não fazem parte do discurso cultural do arquipélago, torna-o especial.

Afirmar a importância da cultura, como parte integrante da formação e da educação desta comunidade, pela introdução à contemporaneidade com recurso às artes, é um caminho de futuro, que fará, acredito e espero, toda a diferença.

A bem da(s) ilha(s).

* Publicado na edição de 09/07/18 do Açoriano Oriental
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terça-feira, 3 de julho de 2018

Destempo

A existência de um plano (desenvolvimento estratégico; director municipal ou marketing), concreto e objectivo quanto às decisões que afectam o nosso futuro colectivo, constitui um importante instrumento de gestão na assumpção do compromisso público para com a comunidade e o território a intervir.

Infelizmente nem sempre é assim e, demasiadas vezes, somos confrontados com resoluções que enfermam de uma visão de curto prazo, de contornos pouco claros, na resposta a um anseio populista, local, ou corporativo, o qual, na maioria das situações, não resulta de uma planificação integrada (ou sustentada).

Por estes dias contestar algumas opções de investimento, significa assumir uma posição minoritária face ao que é entendido como um desígnio comum e a necessidade (inadiável) de concretizar as reivindicações de determinada população, município ou ilha.

A democracia não é uma via de sentido único, exige reciprocidade, importa, por isso, que os diferentes interlocutores, em particular, os representantes eleitos, a saibam interpretar e a façam cumprir.

De igual modo, não basta exigir aos outros, nem vale desresponsabilizarmo-nos de cumprir com a nossa acção cívica, delegando-a em terceiros, apontando o dedo aos suspeitos do costume, numa interminável ladainha miserabilista, apanágio destes dias da indignação em tempo real.

Ao contrário do que se possa pensar, existem um número significativo de mecanismos públicos e privados que dão respostas a questões de governança.

Na maioria das vezes não nos socorremos delas, por desconhecimento ou por desleixo ou, muito simplesmente, porque afirmamos não nos interessar por política, na esperança que outros o façam por nós.

A história encarrega-se de demonstrar que sempre procurarmos justificar a nossa incapacidade, ou insucesso, com um bode expiatório, seja ele o árbitro ou a comissão europeia, ou, ainda, na vã tentativa de elencar uma figura messiânica que nos guie, novamente, para no esforço mínimo, obter a renda máxima.

Nestas últimas semanas muito se tem falado da forte probabilidade de existirem cortes nos apoios comunitários, nos quais os Açores seriam, também, naturalmente, afectados.

Contudo, e contrariando as (minhas) expectativas, o Comissário Europeu da Agricultura e do Desenvolvimento Rural em visita ao Presidente do Governo afirmou que, afinal, não haveriam cortes no programa POSEI, no âmbito do próximo quadro financeiro plurianual para o período 2021-2027.

A notícia não podia ser melhor. Não obstante, o lamento manteve-se de forma transversal, pois a intenção é que os apoios fossem aumentados (!). Observei alguns dos comentários com relativa incredulidade, se os apoios tivessem sido reduzidos: estaríamos preparados, que soluções existiriam?

Esperei que durante este período se desse início a uma ampla reflexão quanto às mudanças em curso no seio da União Europeia. Tal não veio a acontecer, no sentido de avançarmos com soluções ou planos alternativos para que se sejam previstos projectos de diversificação agrícola que possam, eventualmente, compensar, ou minimizar, futuras quebras de financiamento comunitário.

Esta parece-me ser uma questão inevitável, tal como o impacto (futuro) das alterações climáticas no nosso modo de vida.

Nesta situação, como em outras, a prevenção será, sempre, mais conveniente do que uma (re)acção a destempo.

* Publicado na edição de 02/07/18 do Açoriano Oriental
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quinta-feira, 14 de junho de 2018

Pensar a Cultura d(n)os Açores

Esta semana partilho a (minha) leitura a três perguntas sobre o desafio “Pensar a Cultura d(n)os Açores”, inscrito no número 7 da “CulturAçores - Revista de Cultura” da responsabilidade da Direção Regional da Cultura.

Como avalia a produção/criação cultural em ilhas como os Açores?
Os Açores estão distantes dos grandes centros urbanos, onde, habitualmente, está centrada a dita efervescência criativa e a plena cobertura mediática daquilo que é novo. Isto não é forçosamente mau. Considero que esta questão, hoje, deixou de ser um problema. Na avidez da procura pelo que é diferente, distante e exótico, os Açores podem posicionar-se como um centro fora do centro e ser, ou estar, simultaneamente, no centro, que não apenas o geográfico. Na Cultura, como no resto, temos de olhar os Açores como uma realidade a diferentes velocidades, com múltiplas personalidades e geografias. Ao contrário daquilo que é percepcionado, daqui resultará uma das suas maiores riquezas. O alicerce da idiossincrasia açoriana garante uma riqueza identitária, patrimonial e cultural muito diversa e, por essa via, muito interessante.

Que desafios se colocam à relação tradição/modernidade no desenvolvimento da cultura da região?
As últimas décadas dotaram as ilhas de espaços de fruição e de criação propícios ao melhor desenvolvimento da produção e da criação cultural. Simultaneamente, vimos regressar ao arquipélago um conjunto de profissionais em diversas áreas de especialização que antes não existiam e que procura uma base sólida para desenvolver a sua actividade. Acredito que o futuro passa, inexoravelmente, pela criação de um percurso profissionalizante para as instituições/criadores regionais e por garantir a circulação e a distribuição, dentro e fora de portas, dos objectos criados. Fazer crescer cultural e socialmente uma comunidade requer investimento e continuidade num trabalho em parceria, na partilha e na prossecução de objectivos comuns. Os desafios são mais que muitos. É essencial pensar a cultura como um factor de desenvolvimento estratégico e não como um adorno.

O que é e deve ser a cultura açoriana?
Tenho alguma dificuldade em responder a esta questão, na medida em que não gosto de definir um caixilho (ou espartilho) ao que comummente se entende por “cultura açoriana”. Os traços distintivos das nossas tradições são incontestáveis. E isso deveria ser suficiente, sem outros justificativos. As nossas influências são, hoje, globais, pelo que não faz sentido que a cultura sirva como elemento identitário ou reactivo ao elemento contemporâneo, num tempo de transnacionalidade e de hiper-realidade. A cultura não é um elemento estanque, evolui. Não alimento a natural menorização do palco arquipelágico, nem a depreciação do que se faz entre portas. A geografia das ilhas passou a ser a que nós lhe quisermos conferir.

* Publicado na edição de 11/06/18 do Açoriano Oriental
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quinta-feira, 24 de maio de 2018

Geografia(s) da(s) Ilha(s)

Em Dia dos Açores, as páginas dos jornais são preenchidas por textos laudatórios e discursos efusivos sobre o que é ser ilhéu e açoriano.

Este é o dia maior da açorianidade, a segunda-feira do Espírito Santo, naquela que é percepcionada como a maior festividade do povo açoriano.

Nada tenho a opor à exaltação dos nossos traços distintivos mas tenho a sensação, na maior parte das vezes, que sobrevalorizamos (deliberadamente) o nosso lugar (e a nossa posição).

A comunidade açoriana (espalhada pelo mundo) é hoje maior do que aquela que por cá reside. E apesar de ter sido forçada a sair, muita dela continua agarrada à ilha que os viu partir, sendo que, paradoxalmente, muitos dos que cá estão, amam as ilhas, mas sonham em sair.

Esta dinâmica é reiterada e manifesta-se de forma antagónica, na medida em que a nossa acção no território não é condizente com a veemência com que o defendemos noutras ocasiões.

O (recente) crescimento económico no arquipélago tem levado ao esgrimir de argumentos entre ilhas, em que assistimos, passivamente, ao ressuscitar de velhos fantasmas bairristas, em que a ilha vizinha é (quase sempre) a causa das carências internas (de cada uma).

Como se isto não fosse suficiente, grande parte das reivindicações (de ilha) passaram a ter expressão em nome próprio, com representantes eleitos para o todo arquipelágico mas que apenas se focam em questiúnculas e interesses locais, como se pudéssemos viver uns sem os outros.

A Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores passou a ser palco privilegiado para atestar o clima de crispação entre ilhas, em que o absurdo passou a ser defendido, incondicionalmente, como a única forma de suporte à acção política.

A atestar este estado de coisas, na última sessão plenária, o processo e a aprovação da lista de agraciados foi apenas mais um momento para a diatribe partidária, em que uma parte dos tribunos aparentou estar mais preocupada em defender a sua cota de participação do que em enaltecer aqueles que, por uma razão ou por outra, se destacaram e contribuíram para o (nosso) desígnio comum.

Parece-me que, infelizmente, alguns dos eleitos anda mais focada em defender o que lhes diz (directamente) respeito, desfasadamente, talvez, do que importa à maioria dos açorianos.

Seria mais produtivo que, ao invés de andarmos à procura da polémica estéril e do protesto fútil, existisse uma efectiva vontade em debater (seriamente) o futuro dos Açores (como um todo).

No rigor da incerteza destes dias, os Açores têm muitos desafios no alcance da sua trajectória e que passam, indubitavelmente, pelo garante da sustentabilidade ambiental, energética e social. Mas não vamos lá com um argumentário inflamado (e isolacionista), nem com uma retórica romântica envolta na bruma.

De igual modo, não faz sentido replicar o modelo das ilhas maiores, disseminando-o pelas mais pequenas. A nossa escala não o permite. Querer mitigar a descontinuidade geográfica através de propostas insustentáveis e irrealistas só nos conduzirá a um beco sem saída.

Sem preconceitos, e com toda a frontalidade, é necessário investir (indelevelmente) no conhecimento, na educação e na cultura, como forma de ultrapassar o atraso que (ainda) subsiste em algumas franjas e geografias das ilhas.

Celebrar este dia implica, primeiro, compreender (e conhecer) quantos Açores cabem, efectivamente, na palavra Açores.

* Publicado na edição de 14/05/18 do Açoriano Oriental
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quinta-feira, 17 de maio de 2018

#aculpaedogoverno

Ano após ano, a tradição renova-se e a imundice marca lugar.

Todos os anos alimento esta crónica com a minha estupefacção perante a maré selvática que atropela o espaço público em dia de festa.

Este ano não foi excepção, ficando a prova que é necessário, por todas as razões e mais algumas, rever a componente profana associada às Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres.

Os Açores são reconhecidos internacionalmente pelas suas práticas ambientais e, de momento, estão a tentar implementar um ambicioso plano associado à sustentabilidade, consubstanciado através de uma candidatura à certificação de destino de turismo sustentável, sendo o primeiro arquipélago do mundo a almejar (de)ter este selo do Conselho Global de Turismo Sustentável (Global Sustainable Tourism Council - GSTC), organismo que integra várias entidades das Nações Unidas.

Como foi possível testemunhar, e vivenciar, este desígnio não é compaginável com a organização do espaço público do local da festa e da zona (da cidade) limítrofe às festividades, no que concerne à limpeza, à disposição dos espaços de restauração, de venda ambulante, de trânsito e de estacionamento.

O município terá consciência que não é possível dar tolerância de ponto a determinados serviços municipais em dias como estes (ou a atribuí-los tem de, forçosamente, garantir alternativas)? Não é possível aumentar e melhor a ordem pública e a salubridade da cidade? Será normal que (tudo) isto aconteça de forma recorrente e negligente?

Quando se concentra um número (inusitado) de vendedores ambulantes é normal que os resíduos, daí resultantes, sejam em grande número, os recipientes já foram menos, agora são mais, mas continuam a ser insuficientes para a procura.

Perante a mundanidade das ocorrências, deixo aqui algumas questões.

A dimensão das evidências será capaz de perturbar a passividade do município?

Caberá à Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres a gestão do espaço público ou será responsabilidade do município acautelar e zelar pelo destino a dar à festa, naquela que é a maior expressão religiosa do Arquipélago?

(Ou) será que esse galardão passou a estar consignado às Grandes Festas do Espírito Santo (com autonomia autárquica)?

A insalubridade de Ponta Delgada constituirá o tão propalado “motor de desenvolvimento dos Açores”, naquela que é divulgada como “a porta de entrada do turismo”? E será este o “novo pilar de desenvolvimento do concelho, da ilha de São Miguel e do arquipélago”?

Esta minha preocupação não tem apenas que ver com o crescimento da actividade turística, nem com os peregrinos que nos visitam, é uma preocupação que me assiste, sobretudo, como residente, e habitante desta cidade, numa situação insustentável, aparentemente, insolúvel e incómoda.

A sua resolução deve passar por uma ampla discussão (pública) e de reflexão por quem tem a incumbência de gerir a vida na cidade.

Não vale a pena ignorar o problema, nem culpabilizar a falta de civismo de uns quantos.

Já estivemos mais longe de afirmar que #aculpaedogoverno.

* Publicado na edição de 14/05/18 do Açoriano Oriental
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quarta-feira, 16 de maio de 2018

Será que aprendemos a lição?

Um estudo da Organização Mundial de Turismo identifica Portugal como um dos países (desenvolvidos) que mais depende do turismo na contribuição directa para o seu Produto Interno Bruto (PIB). O turismo representa 9% da riqueza nacional, ou o mesmo é dizer, que vale 9 euros em cada 100 gerados pela economia portuguesa.

Após o período conturbado da história recente, o incremento turístico foi recebido como um milagre da multiplicação.

O fenómeno é global e alastrou-se, rapidamente, a todo o território. Os Açores não são excepção. Em particular, Ponta Delgada (e São Miguel).

Após anos ao abandono, assistimos a um crescente retorno do investimento (privado com recurso ao sistema de incentivos regional) ao centro histórico da maior cidade açoriana, com ênfase na restauração e no alojamento local.

Apesar da nossa (reduzida) escala, e da reconhecida diferença da pressão exercida em cidades como Lisboa e Porto, estamos a ser confrontados com os primeiros impactos da intensificação da actividade turística.

Ninguém dúvida da importância económica deste sector, sobretudo, no estímulo da reabilitação urbana e no maior dinamismo da construção civil.

No entanto, se em Lisboa se comparam preços do metro quadrado com Paris, nós, por cá, comparamos Ponta Delgada com a capital portuguesa, com a ressalva que a riqueza instalada não é equiparável.

Um dos aspectos mais visíveis, deste fenómeno, são os preços disponíveis para aquisição e arrendamento, que nos fazem questionar a quem se destinam aqueles imóveis. A prova é que alguns promotores imobiliários reconhecem (publicamente) que a sua carteira de clientes é, por estes dias, constituída por 50% de estrangeiros, com um poder de compra diferenciado e que fazem inflacionar, sobremaneira, o valor de mercado.

O centro histórico de Ponta Delgada está condenado, no futuro imediato, a ser habitado por turistas.

A discussão em torno da descaracterização das cidades, fruto da massificação do turismo, pode não ser (ainda) uma realidade a full-time mas terá (e já tem), inevitavelmente, efeitos na forma como acedemos à habitação em algumas zonas da cidade e da ilha.

Muito recentemente, a Secretaria Regional da Energia, Ambiente e Turismo implementou um registo mensal obrigatório, que visa monitorizar o número de hóspedes e dormidas no alojamento local, passando a fazer parte das estatísticas oficiais.

Mais do que a (importante) recolha de dados, para a monitorização da evolução desta forma de alojamento no sector turístico, considero importante o debate em torno do acesso acessível à habitação, na medida em que assistimos a um mimetismo empresarial em que, tudo e todos, parecem convergir para o mesmo.

E não é tudo bom, há muita oferta pouco qualificada que não dignifica o destino.

A euforia está aí mas importa, rapidamente, que se estabeleça uma regulação concreta que não penalize o investidor (mas o prevaricador do alojamento ilegal), mas cujo licenciamento não pode ser ilimitado e deverá responder a uma necessidade efectiva.

No caso da quebra da actividade turística (e consequentemente, de rendimentos), será que vamos assistir a um coro de indignados à procura de uma intervenção governamental que salve empresários e proprietários?

O passado (recente) é um bom exemplo daquilo que, de futuro, não devemos (ou devíamos) perpetuar.

Será que aprendemos a lição?

* Publicado na edição de 30/04/18 do Açoriano Oriental
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terça-feira, 15 de maio de 2018

Autenticidade

Um dos pontos de paragem (obrigatórios) no roteiro turístico (contemporâneo) são os mercados citadinos, local de confluências várias, onde o viajante procura a autenticidade do local, através da participação num ritual realizado pelos residentes e como forma de enriquecer a sua experiência turística.

Para quem viaja regularmente, esta questão não é uma novidade, é apenas a constatação de um fenómeno em expansão.

O turismo democratizou-se e, por essa via, tenderá a massificar-se, quer queiramos, quer não. É algo que não podemos controlar, mesmo que não seja este o propósito com que nos alinhamos à partida.

A abertura do espaço aéreo (europeu) explica, em larga medida, o fenómeno turístico em destinos que nunca tiveram a oportunidade de crescer em número e em resultados.

Os Açores são (apenas) mais um exemplo de regiões, e cidades de pequena e média dimensão, que tiveram, de um dia para o outro, de se adaptar às novas contingências.

Considero que um desafio para viajantes e destinos passa hoje, inexoravelmente, por contrariar, dentro daquilo que é possível, a experiência massificada e indiferenciada, em que acabamos por ver, e degustar, as mesmas coisas, seja em que latitude for, na qual a ‘memorabilia’ acaba por ser idêntica para deixar de ser autêntica.

Pode parecer exagero mas devemos colocar as coisas em perspectiva, colocando de parte o número de camas, os proveitos da hotelaria, o número de passageiros desembarcados (por mar e pelo ar), focando as nossas atenções nos conteúdos (e serviços) que temos para oferecer.

A qualificação da oferta (da experiência turística Açores) não se pode distanciar da realidade e do quotidiano dos residentes, não podemos querer transformar estas ilhas num parque de diversões em formato radical, em que a natureza é servida como uma experiência limite, apenas, pelo facto, da sua mera contemplação ter passado a ser considerada: boring.

Como já aqui escrevi, e como referido numa das muitas palestras a que tenho assistido sobre este tema, uma das nossas vantagens é não ser identificados como um destino turístico, na medida em que em todos os destinos (consolidados) o pacote turístico já está formatado e customizado ao perfil do visitante.

Esta actividade é importante para a consolidação da retoma económica do arquipélago mas não deve ser a única (há que ultrapassar a ideia de ciclos económicos assentes na monocultura), sobretudo devido à fragilidade e riscos que a prossecução deste sector acarreta, em que qualquer oscilação, positiva ou negativa, representa, quase sempre, um impacto significativo para a cadeia de valor.

Voltando ao início deste artigo e aos mercados citadinos, como “espaços âncora” (adjectivação vazia de significado mas utilizada até à exaustão) de visitação, quem visita o Mercado da Graça, em Ponta Delgada, é confrontado com um espaço descaracterizado, sem alma e arquitectonicamente desastroso. Quem ainda se lembra do antigo Mercado?

Não sou saudosista mas urge requalificar aquele espaço dotando-o, e posicionando-o, para o que afirmarmos (de)ter em termos turísticos, na sustentabilidade dos produtos que produzimos e não na importação de frutas e legumes (indistintos e de origens diversas e pouco amigas da ideia daquilo que é sustentável) ao turista que vem à procura de autenticidade e que, muito provavelmente, a tem, em melhor qualidade, no seu destino de origem.

Importa não defraudar as expectativas de quem nos visita, sendo que não há promoção que compense a repercussão negativa de uma má experiência turística.

* Publicado na edição de 16/04/18 do Açoriano Oriental
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