quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Ignomínia

Nos Açores, continua a ser necessário defender o investimento (incondicional) na Cultura, na criação cultural e na consolidação de meios físicos e humanos para a sua realização.

O populismo é epidémico, qualquer opinião que veicule o ‘desperdício’ de recursos públicos em prol da acção cultural, por regra, colhe muitos aplausos, muitos ‘likes’ e uma adjectivação menos abonatória para quem vive e trabalha no meio artístico.

Considero que o desconhecimento já foi maior mas continua a existir uma enorme depreciação pelas áreas artísticas.

O cenário é antigo, existem melhorias mas, ocasionalmente, são veiculadas um conjunto de preconceitos ou considerações avulsas, sem rigor, de quem desconhece o que se fez e o que se anda a fazer.

A ideia de que a cultura, ou a fruição cultural, tem apenas como destinatário uma suposta elite, é uma presunção perigosa que faz aumentar o estigma sobre este sector.

Os círculos de públicos associados à fruição cultural tendem a estender-se mas continuam, é certo, a ser preenchidos por uma minoria da população, sendo que o trabalho das instituições culturais passa por fazer chegar a cultura e um cada vez maior número de pessoas.

E não nos iludamos, a Cultura continuará a ser, se assim a considerarmos, um ‘privilégio’ de alguns. O desejo de futuro é permitir que este processo se dilua e os diferentes públicos possam encontrar o seu espaço. E ele existe.

Este trabalho não se baliza por uma fórmula de excel, nem se realiza de um dia para o outro.

Esta acção exige um trabalho contínuo, objectivos a curto e médio prazo e de ser consistente e, sobretudo, consequente.

Não sou adepto do fazer por fazer, os resultados são importantes, não menosprezo os quantitativos, são eles que ditam muito do que hoje fazemos, mas valorizo os quantitativos, mais difíceis de medir e de defender, num tempo em que tudo é mensurável.

A acção cultural nas áreas ditas tradicionais (música erudita, artes performativas, por exemplo) não é compaginável com a produção em série. Esta foi uma ideia veiculada nestes anos de crise, numa associação às indústrias culturais e criativas, facto que não corresponde ao que realmente se passa ou cujo papel não é, nem pode, ser confundido.

A Cultura tem de ser entendida como essencial, a par de outros sectores vitais (Educação), para o crescimento (desenvolvimento) da nossa comunidade, pelo que não pode ser medida, apenas, em termos economicistas. Fazê-lo é redutor.

O problema é que continuam a existir vozes que tendem a menosprezar o trabalho realizado pela comunidade artística, ignorando que este trabalho só é tornado possível, na sua esmagadora maioria, pela pulsão de quem ama o que faz, sem dele retirar grandes rendimentos e investindo muito do seu tempo pessoal (e familiar).

Olhar a Cultura apenas como uma forma de deleite de uma imensa minoria, é desconhecer a realidade que o rodeia e o intenso percurso percorrido por artistas e instituições.

No espaço público, continuamos a ser muito poucos na defesa da Cultura e do necessário investimento para a sua prossecução.

É tempo de repudiarmos toda e qualquer opinião mesquinha e falaciosa em torno do universo cultural.

O combate às desigualdades sociais também se faz por defender o acesso ilimitado aos bens culturais.

A inclusão (social e cultural) não se faz por exclusão de partes.

Defender o seu contrário, é uma ignomínia.

* Publicado na edição de 15/01/18 do Açoriano Oriental
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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Actuar (excepcionalmente)

O (re)início de uma nova temporada convoca a balanços, ao rearrumar da secretária e ao folhear de uma nova agenda.

Na arte de bem procrastinar, adiamos tudo até mais não e recusamo-nos a admitir o desacerto.

Na assumpção da (ir)responsabilidade, reencaminhamos o assunto, na vã esperança que alguém possa ler o email, identifique a origem do problema e actualize o perfil para o modo agir.

O Rui Tavares escreveu, na sua crónica diária, algo que baliza muito daquilo que hoje vivenciamos: “Às vezes o nosso trabalho mais importante é ver o óbvio. Às vezes, o trabalho mais difícil é admiti-lo. Ver o óbvio parece demasiado fácil. Admitir o óbvio parece demasiado simples. E nós preferimos, por múltiplas razões pessoais e sociais, passar por complexos e difíceis”.

O óbvio não significa, forçosamente, uma simplificação, nem uma menorização, muito menos, a sua banalização.

Um exemplo - deste efeito de neutralização - são os noticiários que passaram a ser um sucedâneo em horário nobre (e a tempo do jantar) de um ‘reality show’, na medida em que o alinhamento dos acontecimentos tem de ser estimulado, carecendo de um carácter sensacionalista, persecutório ou extraordinário. À semelhança da ida ao supermercado, a rotina quotidiana do ‘agenda setting’ passou a ser um aborrecimento, uma chatice.

Por estes dias, li uma entrevista a Naomi Klein, na promoção do seu último livro Dizer Não Não Basta (Relógio D’Água, 2017), em que a autora afirmava isso mesmo: “as pessoas vêem as notícias da mesma maneira que vêem ‘reality shows’. Vêem-nas como entretenimento, causam dependência, criam expectativa como as Donas de Casa Desesperadas” (Público, 29.12.17).

Uma síntese (quase) perfeita da causalidade sem nexo, num período conturbado da nossa existência global, onde a informação passou a ser ruído ou um contributo activo para o permanente desnorte em torno da próxima vítima, catástrofe ou escândalo.
 
No entanto, o poder de atracção é, simultaneamente, paradoxal, num tempo em que se consomem menos jornais pela via tradicional, qual a solução para combater a transferência de audiências (e receitas publicitárias) para o online?

Bem sei que esta pode ser entendida como uma visão pessimista mas não encaro a realidade (presente) com nostalgia, nem como uma inevitabilidade, opto por imprimir algum pragmatismo na minha utopia.

O tempo, como as relações sociais (pessoais e profissionais), passaram a ser encaradas em ‘fast forward’, reduzidas a um prazo de validade. Andamos agarrados a algo que não sabemos bem o que é mas cujo objectivo (per)seguimos, de forma mais ou menos inconsciente, abandonando o que verdadeiramente importa.

Mal comparando, é como preconizar a solidariedade em prol dos mais desfavorecidos à distância do ecrã, em detrimento do vizinho idoso, solitário e carenciado que, ostensivamente, negligenciamos.

As acções de beneficência passaram a ter uma contabilidade em ‘selfies’, ‘likes’ e na partilha, sem questionar, da caridade alheia. Quem (realmente) ajuda e dedica o seu tempo em prol de quem mais necessita, será que o faz a troco de uma fotografia, da notícia no jornal e/ou do reconhecimento público? Provavelmente não, mas não faltam candidatos em sentido inverso.

O ano que passou foi a prova da incapacidade nacional em reconhecer a sua participação na acção do Estado, essa entidade sem rosto que todos culpam, na procura incessante por um bode expiatório para as suas insuficiências.

Esquecemo-nos, vezes demais, que o Estado somos (todos) nós. É bom que possamos actuar - excepcionalmente, sem carácter de excepção - melhor.

Simples desejos para o ano que, agora, se inicia.

* Publicado na edição de 09/01/18 do Açoriano Oriental
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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Ir para além das aparências

A RTP-Açores inaugurou, finalmente, a remodelação das instalações em Ponta Delgada, colocando a rádio e a televisão a trabalhar lado a lado ou, pelo menos, debaixo do mesmo tecto.

Esta era uma reivindicação antiga, a necessidade imperiosa de dotar (e actualizar) tecnológica, e materialmente, as ferramentas de quem trabalha no serviço público de rádio e televisão.

Após anos de avanços e recuos, este é um acto que transporta uma enorme carga simbólica mas é, simultaneamente, importante, na redefinição do que se pretende para a sua missão futura.

O momento inaugural foi consubstanciado pela presença do Presidente do Governo Regional, a Administração da RTP, o Conselho Geral Independente e inúmeros convidados da sociedade civil.

Ninguém negligência a importância que este serviço tem, mediante aquilo que foi transmitido nos discursos oficiais, sendo certo que este é apenas um (pequeno) passo e que os desafios de futuro não se extinguem com a chegada do “digital”.

Os profissionais da RTP-Açores são os primeiros a dizê-lo (e já o assumem há muito tempo).

A acompanhar este processo de fusão, deveria (foi?) ter sido promovido, em paralelo, a criação de um grupo de trabalho para discutir (definir e/ou objectivar) os conteúdos futuros da “nova” RTP-Açores.

Mais importante do que a qualidade da imagem, do cenário ou do som, importa alicerçar a acção de serviço público em matéria de relevante interesse para a comunidade (e para o território), cuja concretização não pode estar à mercê, como já foi defendido, das vicissitudes da “sociedade civil”.

Quando se falam dos “anos dourados” da televisão regional, esquecemo-nos que, muito do que foi realizado (e ficcionado), só foi tornado possível por ter existido investimento. A partir do momento em que ele desapareceu, tudo se esfumou e passamos a viver de nostalgia, memória e “enlatados”.
Entendo que pudessem existir, no passado recente, questões de ordem técnica que inibissem a renovação dos conteúdos. Mas nem tudo se explica por aqui.

Em virtude deste (aparente) vazio (na programação), considero que a alteração do paradigma (tecnológico) irá revelar (ao invés de potenciar) as múltiplas fragilidades da actual produção de conteúdos.

Nestes últimos anos, mesmo e apesar das dificuldades que se conhecem, a rádio pública conseguiu, de forma mais ou menos tranquila, sobreviver ao ostracismo a que foi votada.

O mesmo não se poderá dizer da televisão. Quando afirmamos a importância que esta tem para a autonomia regional, para a afirmação dos Açores no país e no mundo, que imagem é que transmitimos (para os decisores externos) quando se promove uma emissão consolidada por um conjunto de programas datados e indiferenciados? Será que ninguém se preocupa com o público que vê e que procura na televisão regional um conteúdo com o qual se identifique? Conhecem alguém com menos de 30 anos que assista à emissão (diária) do canal regional?

Perguntas não faltam, preocupa-me, sobretudo, a alheamento das respostas.

A minha percepção leva-me a concluir que continuamos a preconizar (para a televisão pública) um modelo do passado (em HD), assente na glória do passado e na produção (pouco criteriosa) da “ficção regional”.

Podem, obviamente, não concordar com esta leitura, nem quero aqui afirmar que não haja espaço para a ficção. No entanto, os conteúdos devem ser mais abrangentes, visando outros âmbitos, nomeadamente, na discussão do que são hoje os Açores e no “ir para além das aparências (…) e da concorrência” (Pierre Bourdieu, in Sobre a Televisão).

O caminho desta autoestrada (da comunicação digital, global e em tempo real) não se faz num só sentido, existe uma enorme reciprocidade e importa perceber, de uma vez por todas, que (já) não estamos sozinhos (no éter).

A sustentabilidade (futura) - do serviço público de rádio e televisão nos Açores - será aquilo que nós quisermos que ela seja.

Saibamos lidar com os desafios do presente mediante um posicionamento de futuro.

* Publicado na edição de 11/12/17 do Açoriano Oriental
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quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Fake News


A notícia nacional: Autarquias gastaram menos em atividades culturais em 2016.

Qualquer semelhança com a realidade, e por aquilo que se entende por "actividades culturais", é pura ilusão!

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Orgulho (a quanto obrigas)

A Açoreana/Tranquilidade e o jornal Expresso realizaram, esta semana, em Ponta Delgada, um debate sobre os desafios e as oportunidades que se colocam ao Turismo dos Açores.

O painel foi moderado por João Vieira Pereira, diretor-adjunto do Expresso, e teve como convidados Filipe Macedo, director regional do Turismo dos Açores; Isabel Barata, vogal executiva da SATA; Jan de Pooter, CEO da Tranquilidade/Açoreana; João Welsh, administrador do grupo CBK; e Miguel Muñoz Duarte, professor da Nova School of Business.

O arquipélago está no centro de todas as atenções, sobretudo, devido ao fenómeno, recente, do crescimento turístico.

Este tipo de discussões são bem-vindas e gosto, particularmente, de observar a forma como são recebidas entre portas, oscilando entre o entusiasmo incontido e a desconfiança, na medida em que há quem não concorde (e aceite) que outros falem de nós.

Mais do que qualquer avaliação da prestação (de quem olha de fora para dentro), considero fundamental a prossecução deste tipo de iniciativas, como impulso à reflexão, que se impõe, sobre a realidade que nos rodeia. Esta tem sido uma incapacidade endógena. A resposta não pode ser reactiva. Importa, primeiro, conhecer e aprofundar os nossos pontos fortes e as nossas fraquezas. Temos, inclusive, uma dificuldade em rir de nós próprios, sendo que já me disseram que, por cá, não há espaço para ironia. Sintomático?

Deste painel, retive várias leituras mas sublinhei o que disse João Welsh, madeirense, quando referiu a importância estratégica que a SATA/Azores Airlines tem para os Açores. Já não é a primeira vez que uma individualidade do “arquipélago irmão” realça esta questão, reveladora de alguma mágoa, o facto de não deterem este capital - uma companhia aérea regional. E o que dizem (e têm dito) os açorianos a este respeito?

O orgulho açoriano é passivo/reactivo, em particular, e quase sempre, devido uma crítica proferida por uma entidade externa. Contudo, somos filhos pródigos em depreciar muito do que temos, estabelecendo comparativos irrealistas e procurando culpar, não raras vezes, os outros, por algo que (só) depende de nós.

Para ilustrar o que aqui escrevo, e a título superlativo, quando estamos num restaurante na Madeira e pedimos uma cerveja, quais as opções que nos apresentam? Uma, a cerveja regional. E se pedirmos outra marca? O empregado faz por insistir (orgulhosamente) nos adjectivos qualitativos, até que nos convença que é a melhor cerveja do mundo. E por cá? A marca regional já nem sequer é opção na maior parte dos locais, sendo que passou a ser uma epopeia beber, nos Açores, uma Melo Abreu. Simbólico?

Antes dos outros, temos de ser nós a valorizar, a promover e a consumir o que produzimos.

Isto já para não falar da “dinâmica” do mercado interno, no qual todas as ilhas querem “exportar” para São Miguel mas em que a presença dos produtos da ilha verde em determinadas ilhas, é o que sabemos. Assim, não vamos lá, enquanto se mantiver o bairrismo ilhéu, em que cada ilha copia a do lado, como revindicação de um (falacioso) desenvolvimento harmonioso.

Transpondo esta leitura para o período consumista que se avizinha, existe um factor que, na minha opinião, tem sido profusamente negligenciado: a saída exponencial de recursos da região, com um impacto económico significativo no tecido empresarial local. Se é verdade que temos mais visitantes, e que há sectores da economia que estão a beneficiar com isto (hotelaria, restauração e aluguer de automóveis, por exemplo), noutros sectores, reféns dos gastos de quem cá habita, estamos a assistir a uma transferência desse consumo para o exterior, consubstanciado por viagens mais frequentes e pelo incremento das compras online. Seria interessante analisar estes dados. Alguém?

E aqui, será difícil empurrar a(s) culpa(s) para o Governo. E daí, talvez não, dirão os mesmos, já que este ousou aumentar o rendimento disponível das famílias.

O orgulho por aquilo que é “nosso”, também, se (des)materializa, por (in)acções como esta(s).

* Publicado na edição de 04/12/17 do Açoriano Oriental
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segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Oportunidade

Os Açores continuam a bater recordes de passageiros (nos aeroportos), turistas e estadias.

Os investimentos (privados) multiplicam-se e animam a economia, sendo certo que, muitos deles, representam uma fuga em frente, agindo ao sabor do rebanho. Os melhores prevalecerão.

A resposta aos novos desafios não pode significar mais do mesmo, ou a mera replicação de modelos (desajustados) à nossa identidade e geografia. Do mesmo modo, que não é possível responder qualitativamente às exigências do consumidor contemporâneo através das nossas referências pessoais.

Não podemos descurar este ponto. Temos de saber ler o outro, estudar o perfil de quem nos visita e perceber o que procura.

E, sobretudo, não cair na tentação de ficcionar o destino Açores, promovendo uma coisa que ele não é.

Partilho um exemplo, destes dias, para aqui demonstrar o que quero dizer. Um empresário, detentor de um alojamento de turismo rural, foi acometido pelo desabafo de um casal de turistas nórdicos que considerava que a ilha (em que estavam) apresentava uma paisagem muito humanizada, contrária às imagens promocionais a que tinham tido acesso. Procuravam um território menos habitado, e menos construído, para fugir à azáfama de um grande centro. Perante este facto, decorrido numa das maiores ilhas do arquipélago, acabaram por rumar ao grupo central, na esperança de encontrar o arquipélago intocado que lhes tinha sido vendido.

Nada como algo totalmente inesperado para fazer alterar (e reponderar) as nossas convicções (absolutas). Este episódio é apenas mais um, dos muitos que todos temos e partilhamos entre amigos.

A ideia de desenvolvimento que preconizamos será compaginável com o destino turístico que afirmamos ter (e queremos ser)?

Parece-me que o conflito de interesses é, neste capítulo, uma evidência. Ignorá-lo, poderá determinar um conjunto de consequências imprevisíveis no desenvolvimento que preconizamos.

Neste sentido, o investimento reprodutivo deu, hoje, lugar a um novo jargão em torno da ideia de sustentabilidade.

No essencial, e conceptualmente, estamos todos de acordo quanto à necessidade de aplicar nos Açores, um espaço geográfico circunscrito, um conjunto de boas práticas quanto à gestão do território, dos recursos e dos resíduos.

Contudo, a sua aplicação prática revela-se bem mais difícil de operacionalizar, esbarrando num conjunto indeterminado de regulamentação, de inoperância e de falta de liderança (nos projectos).

Apesar da nossa exiguidade territorial (e populacional), a plêiade de entidades que gerem o nosso pacato modo de vida fazem-nos colidir, invariavelmente, com uma muralha burocrática (dita simplificada) em rede.

Agimos digitalmente (ainda) através do ditame do papel timbrado, passando da fotocópia ao PDF. O expediente parece fluir mas o carácter é, extremamente, ilusório.

No devir da hiperbolização mediática, em que o gosto/(des)gosto - e a partilha viral ditam a abertura do noticiário e do telejornal, parece existir menos tempo para a reflexão ponderada e a sensatez dos actos de gestão (e de governação).

Após o tempo eleitoral, parece tudo continuar como dantes. A inconsequência não exige responsabilidade e a impunidade reina ao sabor da indiferença generalizada (com a oportuna ajuda da imprensa apaniguada).

O momento actual representa uma oportunidade para a sustentabilidade (social e económica) dos Açores, um lugar “identitário, relacional e histórico”, não façamos deste local um “não-lugar” (Marc Augé, 2012).

* Publicado na edição de 20/11/17 do Açoriano Oriental
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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Antero Hoje (e Amanhã?)

Os 175 anos do nascimento de Antero de Quental foram motivo para a realização das jornadas “Antero Hoje”, que decorreram na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, numa organização conjunta do Governo dos Açores e da Fundação Calouste Gulbenkian, para evocação da memória do poeta que Eduardo Lourenço (um dos oradores convidados) nomeia como exemplar único da nossa literatura, excedendo Camões, e com uma obra “naturalmente universal” (Açoriano Oriental, 09/11/17).

A exaltação da obra de Antero é motivo de um orgulho (in)contido, na medida em que as palavras não acompanham a(s) prática(s). O paradoxo está instalado no meio de nós.

Nunca entendi a razão pela qual, na sua terra de origem, a manifestação cultural da sua obra é feita com alguma parcimónia, ensombrada, talvez, por um pudor, sem sentido, em torno da forma como morreu.

Mais do que apenas o estudo da obra e do homem, é necessário que o conhecimento ultrapasse os muros da academia e contamine, sem rodeios, o território e a comunidade que nos rodeia.

Com isto não estou a dizer que devamos dessacralizar a sua obra, temos, sim, de encontrar formas de fazer chegar Antero aos dias de hoje, por intermédio de outras linguagens artísticas, utilizando, paralelamente, as novas plataformas digitais para chegar ao público de hoje (e de amanhã).

A simbiose estabelecida entre Lisboa e Fernando Pessoa é apenas um bom exemplo para o que deve ser realizado entre nós. Um e o outro são sinónimos, a reciprocidade beneficia todos. E porque, já, não o fizemos em Ponta Delgada?

Porque razão não se avançou, há mais tempo, com um espaço de promoção da sua memória? Qual o impedimento na identificação e dinamização do roteiro concebido pela Direcção Regional da Cultura (sob a orientação do Professor Fagundes Duarte)? Porque é que não existe um prémio literário com o seu nome?

Por desleixo, desinteresse ou, simples, ignorância?

Considero que ainda vamos a tempo de ultrapassar todas estas insuficiências, sendo que a oportunidade gerada por estas jornadas, e pela importante parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian, deve servir de catalisador a futuras iniciativas, ou mesmo, na criação de um evento literário com carácter anual que posicione a cidade, e os Açores, no mapa das letras do país (e do mundo).

Tempo (ainda) para (+) uma polémica
Paddy Cosgrave, fundador da Web Summit, já pediu desculpa ao país pela realização de um jantar no Panteão Nacional, em Lisboa, onde juntou vários empresários e investidores no último dia da cimeira de tecnologia.

Está instalada a mais recente “polémica pop up” (André Bradford), instigada por uma nação que procura nos escombros da memória, o alimento para a tragédia seguinte.

Polémica à parte, o que esta questão revela, como referiram, e bem, o BE e o PCP, é a precariedade dos orçamentos associados à gestão do património e à política cultural.

Caso os orçamentos fossem compatíveis com a responsabilidade que o estado tem, e assume, este(s) caso(s) não seria(m) notícia.

A hipocrisia também andam em alta, na medida em que o que antes era entendido como “boa gestão”, hoje representa a indignação colectiva ao sabor do populismo viral.

A falta de orçamento para a Cultura, não pode tudo justificar, sendo que obtenção de receitas deve cumprir com limites e “o respeito pela dignidade dos espaços e pela sua preservação” (António Filipe, 12/11/17).

Sublinho.

* Publicado na edição de 13/11/17 do Açoriano Oriental
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