terça-feira, 11 de junho de 2024

Atlântico (europeu)

A Europa vive um dos momentos mais tensos da sua história, no ano em que se comemoram 80 anos do dia D, que ditou o fim da 2.ª Guerra Mundial e de um dos episódios mais negros da humanidade.

Os desafios gerados pela invasão da Ucrânia não constituem uma oportunidade (palavra que devia ser banida do léxico político), mas sim uma necessidade de afirmação da união do projecto europeu em torno de uma (forte) política externa comum.

A campanha eleitoral para as eleições europeias, que se realizam no próximo domingo, termina esta sexta-feira, preenchida por simulacros em forma de candidatos, plena de ruído (mediático) e de assuntos (locais), que nada têm a ver com o que está em jogo.

Nos últimos 5 anos, a região ficou sem a sua representação parlamentar na Europa, devido ao infortúnio causado pela morte precoce de André Bradford, um dos melhores activos políticos e intelectuais que os Açores conheceram (e que muito falta faz no presente).

Para o próximo ciclo político, só um partido dá o devido destaque aos interesses da região, colocando-os à frente dos interesses partidários, pelo que voltaremos (expectavelmente) a ter uma voz na defesa intransigente do atlântico europeu.

[+] publicado na edição de 7 junho 2024 do Açoriano Oriental

domingo, 2 de junho de 2024

Vamos trocar umas ideias sobre o assunto…

A editora Artes e Letras Artes e Letras lançou a 2 de maio, na livraria Solmar livraria Solmar, em Ponta Delgada, o nº 5 da “Avenida Marginal”.

Nessa quinta-feira, à mesma hora, aconteciam, várias iniciativas culturais. O problema não é que ocorram todas em simultâneo, esta é uma questão antiga, mas não será a fundamental. O que importa expor é que somos (demasiado poucos), e vezes demais, sempre os mesmos.

Este será, provavelmente, um dos maiores desafios do presente, agravado na pandemia, a necessidade de renovação dos públicos da Cultura. Em particular, nas áreas artísticas tradicionais, face aos desafios gerados pelos novos formatos, especialmente, os digitais, e no impacto gerado junto dos mais novos. Um problema que nos deve convocar a encontrar soluções que permitam uma salutar coexistência (e complementaridade).

Apesar disto, assistimos, paralelamente, ao revivalismo (artístico e comercial) em torno dos formatos ‘analógicos’, no ressurgimento do vinil, das K7s e até mesmo dos CDs, no caso da música, do VHS no cinema (ou nas artes visuais), tanto como apropriação cultural, simples inspiração ou numa abordagem a referências que possibilitem outras (re)leituras.

Em Portugal, por exemplo, no circuito das livrarias independentes, as quais têm contribuído para uma maior diversidade (de propostas e conteúdos) no panorama editorial português, existe um fenómeno crescente da actividade alfarrabista, no dar uma nova vida aos livros usados, nomeadamente, na procura por edições de livros que já não estão disponíveis no mercado editorial e que agora são motivo de interesse por parte de outras gerações.

Os mais novos chegam aos livros, sobretudo, através das redes sociais (e das suas celebridades), os chamados ‘influencers’, em particular, no TikTok (materializado pelo fenómeno viral dos booktokers), contribuindo para o aumento exponencial da venda de livros por todo o mundo.

No estudo “Mercado do Livro e Hábitos de Compra em Portugal”, apresentado em 2023, pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), ficamos a saber que menos de dois terços dos portugueses compraram livros e que são os jovens quem está a impulsionar as vendas no nosso país, na medida em que os inquiridos, entre os 15 e os 34 anos, já representam 28% do total do mercado. No entanto, Portugal mantém-se como o país que, na Europa, menos lê.

Outro dado que me parece particularmente relevante tem a ver com os pontos de venda dos livros, na medida em que 70% dos livros são, ainda, e felizmente, vendidos em livrarias, mas os hipermercados já ocupam 30% desta cota (sendo que em algumas ilhas do arquipélago só encontramos livros em espaços indiferenciados).

Existem dados desagregados para os Açores (em que as livrarias são uma espécie rara ou em vias de extinção)?

Neste domínio, faltam elementos concretos sobre o sector do livro, tal como faltam para outras áreas artísticas, dados que ajudariam a sistematizar estratégias e políticas culturais.

Esta questão carece de reflexão e merece ser profusamente discutida, envolvendo vários intervenientes, da Educação à Cultura, na medida em que o livro enfrenta desafios muito relevantes que requerem diálogo, discussão e conhecimento.

Outro aspecto que não pode ser descurado é facto de o “consumo cultural ser socialmente estratificado” (ICS, 2020), na medida em que os hábitos de lazer e de consumo de produtos culturais não estão dissociados dos níveis socioeconómicos e de escolaridade.

Neste cenário, o que leva alguém a querer fundar uma editora? É antes de tudo, um acto de enorme coragem e arrojo, especialmente, numa escala como a nossa, onde por vezes parecem existir mais escritores que leitores. Digo isto com todo o respeito, mas os autores (artistas) não podem ser tratados todos por igual, nem é possível comparar o que não é comparável. Não raras vezes, tendemos a balizar tudo pela mesma bitola.

Este não é um problema exclusivo da literatura. Esta é uma problemática que se coloca nas artes visuais, nas artes performativas ou na música. Nos Açores, o caminho de futuro para a Cultura é o da profissionalização (não vale a pena ignorá-lo).

Em regiões como a nossa, a descontinuidade geográfica e os custos agravados pelos transportes (distribuição e logística), aumentam as assimetrias no acesso a bens e a serviços essenciais, relegando, inexoravelmente, a cultura para uma posição secundária, onde a democratização cultural é determinada pelo estatuto social (status), tenazmente agravada pelos índices sociais que detemos.

Importa alterar este estado de coisas, a começar por colocar a educação “no centro das políticas culturais” (Paulo Pires do Vale). Neste sentido, o cheque-livro apresentado pelo Governo da República, agora secundado pelo Governo Regional, é um caminho para o incentivo ao contacto com os livros e com as livrarias.

A par disto importa garantir um conjunto de outras medidas que aproximem a comunidade literária, e as instituições culturais, da população, com iniciativas de mediação para a leitura e para a promoção do livro.

Em termos legislativos, urge rever os apoios à edição e os objectivos das políticas públicas. Não faz sentido apoiar o livro se depois falhamos em toda a restante cadeia de valor, temos o produto, mas não temos distribuição (regional e nacional), nem promovemos, eficazmente, o acesso à leitura.

A região tem que dar o exemplo, investindo nas suas instituições públicas, ano após ano, para que possam prestar o papel que delas se exige, nomeadamente, pela actualização permanente de conteúdos, em particular, das bibliotecas públicas e escolares, no combate incessante aos baixos índices de leitura e literacia.

E não menos importante, promover uma profunda reflexão sobre a necessidade de existir um Plano Regional de Leitura ou, se em alternativa, não devemos pugnar por garantir a presença dos nossos escritores (e editores) no Plano Nacional de Leitura, com acesso a outros recursos e a mais públicos.

A “Avenida Marginal” é um contributo, e um precioso recurso, para desbravar um caminho sinuoso, cuja missão presta um verdadeiro serviço público no estímulo à inovação e na descoberta de novos nomes no ecossistema literário local.

Manter uma livraria e uma editora é hoje um acto de amor (e militância), mas sobretudo de resistência.

Uma última palavra para o impressivo trabalho do João Amado João Amado que ilustra a capa desta edição, na qual reflecte um universo fantástico e surreal (e que nos parece querer dizer que (sobre)viver nas ilhas, também, consegue ser um desafio surrealista). 

Alexandre Pascoal, maio 2024 


[+] Apresentação da Avenida Marginal nº5, 2 maio de 2024, Livraria Solmar, Ponta Delgada (texto revisto e acrescentado)

[+] publicado na edição de 02 junho 2024 do Açoriano Oriental

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Avenida Marginal

A Avenida Marginal Avenida Marginal não é uma revista, é uma antologia ou um (pequeno grande) livro de contos, publicada, pela primeira vez, no ano anterior àquele em que o mundo parou (2019).

A editora Artes e Letras Artes e Letras (e a livraria Solmar) desempenham um papel fundamental no apoio e na promoção da cultura da cidade, dos seus autores, assumindo-se como referência (dos Açores) no todo nacional.

Este projecto editorial tem proporcionado, desde o primeiro número, um diálogo enriquecedor entre diferentes gerações de escritores e tem apresentado uma diversidade arquipelágica de autores, todos com uma ligação aos Açores, em particular, a São Miguel e a Ponta Delgada, nela: “não cabe somente uma ilha, cabe o mundo” (sintetiza Rui Pedro Paiva).

A Avenida Marginal é um contributo, e um precioso recurso, para desbravar um caminho sinuoso, cuja missão presta um verdadeiro serviço público no estímulo à inovação literária e na descoberta de novos nomes no ecossistema literário local.

Manter uma livraria e uma editora é (hoje) um acto de amor (e militância), mas sobretudo de resistência. 

[+] publicado na edição de 24 maio 2024 do Açoriano Oriental

domingo, 12 de maio de 2024

Crítico

São Miguel encontra-se numa situação sem paralelo, a ilha mais populosa do arquipélago está sem hospital público.

Não estamos a falar (apenas) de um edifício, é a estrutura de saúde de referência em qualquer plano de emergência (municipal e regional), garantindo uma multiplicidade de respostas (médicas) que se estende ao todo da região.

Os constrangimentos com o encerramento abrupto daquela unidade de saúde estão, ainda, a ser contabilizados, sendo que aqueles que necessitam de assistência continuada viram agravada a sua qualidade de vida.

Felizmente, não existem vidas a lamentar e é de louvar o empenho de todos os profissionais envolvidos no combate ao incêndio, na evacuação e no acolhimento de doentes.

Perante esta condição impensável, há quem considere a construção de um novo hospital (como se isso fosse possível realizar num curto espaço de tempo), quando o que importa garantir, neste momento, é como dar resposta à “situação absolutamente crítica do Sistema Regional de Saúde e da capacidade hospitalar fundamental e imprescindível às populações” (Guilherme Figueiredo).

O carácter crítico desta ocorrência exige celeridade e competência, sem deixar cair a responsabilidade num manto de opacidade. 

[+] publicado na edição de 10 maio 2024 do Açoriano Oriental

sexta-feira, 26 de abril de 2024

Explosão


O 25 de Abril representa uma abertura de Portugal (ao Mundo) em todas as suas dimensões. A(s) Arte(s) não foram (nem são uma) excepção. 

A importância da Revolução dos Cravos nas Artes e na Cultura é profunda e multifacetada, reflectindo-se em diversas manifestações artísticas e expressões culturais ao longo das décadas seguintes. 

A queda do regime ditatorial abriu caminho para uma renovação cultural sem precedentes. Artistas, escritores, músicos e cineastas passaram a ter liberdade para explorar temas proibidos, que subsistiam na clandestinidade, ou no exílio. 

A transição para a democracia culminou em novas possibilidades e desafios para os artistas, que passaram a explorar uma ampla plêiade de questões sociais, políticas e culturais nas suas obras (em particular no período revolucionário), constituindo-se naquilo a que José Pacheco Pereira definiu como “uma verdadeira explosão da arte gráfica.” 

Na euforia experienciada na primeira pessoa, emergiram artistas como Cruzeiro Seixas, João Cutileiro, José de Guimarães, Júlio Pomar, Mário Cesariny, Nikias Skapinakis, Paula Rego ou Vieira da Silva, assumindo um papel de intervenção, na medida em que o “ambiente revolucionário fomentou a renovação da participação cultural, num encontro fusional entre os artistas e o povo, a arte não só saiu à rua como se lhe colou às paredes” (Maria Isabel Roque). 

A Revolução de Abril simboliza não apenas a transformação do sistema político, significa a capacitação das Artes e da Cultura em Portugal, permitindo a emergência de uma expressão artística mais livre, plural e engajada com a história do país. 

Parafraseando o escritor Mário Dionísio, numa interpretação que pode e deve ser levada à letra: “sem cultura não pode haver liberdade, mas só um perigoso simulacro”. 

Alexandre Pascoal, Santa Cruz, Lagoa, Abril 2024 *

* Intervenção comunitária "Os Cravos saem à Rua" promovida pela Câmara Municipal da Lagoa (presente na Praça Nossa Senhora do Rosário)

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Múltiplas existências

Em 2026, Ponta Delgada será palco da iniciativa CapitalPortuguesa da Cultura. Katia Guerreiro foi, esta semana, designada como comissária para liderar, entre nós, este projecto, o qual pretende afirmar-se “como um polo de atração cultural no país e no mundo”.

Neste sentido, é expectável que seja materializada a Estratégia Cultural de Ponta Delgada 2030, aprovada em dezembro de 2021, com o intuito de responder ao “diagnóstico do ecossistema cultural e criativo local”.

Na leitura das declarações (públicas) que secundaram este anúncio, parece persistir um equívoco (por parte dos decisores políticos) em torno dos objectivos e da oportunidade que esta iniciativa constitui.

Parafraseando Jesse James, a propósito do lançamento de um catálogo que celebra os 12 anos do Walk&Talk, é necessário contrariar o “desconhecimento do que é e de como funciona o setor (cultural e artístico),nas suas múltiplas existências” (Observador).

A Capital Portuguesa da Cultura não pode, nem deve ser encarada como um evento pontual, o que está (também) em causa não é (apenas) o programa mas, sim, o diálogo com toda a comunidade artística (que luta pela sua sobrevivência) e o caminho da sua consolidação (no pós-2026). 

[+] publicado na edição de 19 Abril 2024 do Açoriano Oriental

segunda-feira, 8 de abril de 2024

SMO

Por estes dias (difusos) a discussão em torno do Serviço Militar Obrigatório (suspenso há 20 anos) voltou sub-repticiamente (ou daí talvez não) à agenda mediática.

Assumir que a falta de efectivos das Forças Armadas Portuguesas se resolve com a reintrodução do SMO ou que este serve de correctivo a sectores da sociedade com comportamentos desviantes é, simplesmente, um erro e um retrocesso.

Utilizar este argumento como arremesso preventivo para a inevitabilidade de uma guerra no teatro europeu é, ainda, mais perigoso.

Não comungo de um regresso ao SMO mas não ignoro a importância da necessidade de investir, modernizar e reorganizar o exército português, sem o peso da guerra colonial, mais pequeno, mais ágil, profissional e bem equipado.

A sua missão será sempre de defesa da soberania nacional, cumprindo escrupulosamente com os nossos compromissos e alianças internacionais, mas devíamos, sobretudo, caminhar para uma vocação especializada na relação com (tant)o Mar, através de uma eficaz fiscalização e vigilância da zona económica exclusiva (e que no caso dos Açores é imperativo).

O futuro não se cumpre com soluções passadas.

[+] publicado na edição de 05 Abril 2024 do Açoriano Oriental