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| Shirley Paes Leme, Arte, 2019 |
sexta-feira, 10 de junho de 2022
quinta-feira, 30 de dezembro de 2021
Cultura (em tempo de pandemia)
A pandemia afectou todos, sem excepção, mas uns sofreram,
mais do que outros, os efeitos nas suas cadeias de valor.
Pelas vezes que já foi referido, mais parece um lugar-comum
dizer-se que o sector cultural foi um dos sectores económicos mais afectados.
Embora não existam dados concretos para o efeito das
restrições sanitárias nas receitas da cultura nos Açores, podemos seguir-nos
pelos dados recolhidos, por este estudo, no qual é demostrado que as perdas do
sector somam, em termos europeus, cerca de 31% (199
mil milhões de euros).
Nas contas feitas pela EY, só o sector dos videojogos
escapou à perda de receitas culturais, tendo mesmo visto as receitas subir 9%. As
quebras são mais acentuadas, como seria expectável, nas artes performativas,
onde estão incluídos o teatro e a dança, cuja quebra de receitas foi de 90%. A
segunda área mais afetada é a da música, onde as receitas recuaram 76% (em
2020). O estudo analisou, ainda, as diminuições na área das artes visuais
(-38%), na arquitectura (-32%), na publicidade (-28%), nos livros (-25%) ou na
área da imprensa, nomeadamente, nos jornais e revistas, onde as receitas terão
recuado 23%.
Perante a paragem abrupta foi necessário encontrar
estratégias de sobrevivência, sendo que num primeiro momento, “ficámos sem
reação" (Isabel Craveiro, 24/02/21).
A actividade artística foi totalmente repensada para
responder aos desafios de um tempo novo. Neste processo de adaptação, nem todos
estavam preparados (orçamentalmente e tecnicamente), tanto instituições como
espectadores. A passagem para a dimensão online revelou ser, esta sim, um processo
transitório, que permitiu manter o trabalho para alguns artistas e a “relação
com o público”.
Considero que esta foi uma solução de recurso para um tempo
desesperado. Uma coisa não substitui a outra, mas devemos retirar os melhores
ensinamentos desta experiência, sendo certo que a dimensão visual é, hoje, uma
parte importante da comunicação das instituições, nesta relação com os seus
diferentes públicos, cada vez mais suspensos no(s) ecrã(s).
Este será um dos maiores desafios com que se confrontam as
instituições culturais - a de renovar as plateias e fazer com que os mais novos
experienciem um espectáculo em sala.
Noutro capítulo, no que que concerne a todos quantos ficaram
sem rede, de um dia para o outro, este “novo normal” tornou mais evidente o
carácter precário de quem trabalha de forma profissional no sector da cultura.
Esta situação não é nova, não é de agora. Tendemos a depreciar estes
trabalhadores, não valorizando o seu trabalho, encarando a cultura como um
hobby.
Este é um caminho que tem vindo a ser percorrido, mas
parece-me fundamental tornar mais visível a complexidade inerente à criação
cultural, através de um trabalho de mediação junto do grande público,
evidenciando o papel que a cultura tem nas nossas vidas, amplamente presente ao
longo da pandemia (nas suas mais variadas formas).
A importância da cultura, bem como a sobrevivência do tecido
criativo, está sempre presente no discurso institucional, sobretudo, quando se
trata de anunciar os apoios de emergência por forma a debelar os efeitos da
pandemia. Contudo, a realidade dos números acaba sempre por lhe atribuir a sua
verdadeira dimensão.
O mapeamento do sector cultural, na região e no país, foi
realizado no meio da pandemia. Aqui reside parte do problema, na medida em que transparece
o reconhecimento (paradoxal) do desconhecimento da Cultura sobre o sector que
tutela.
Falamos dos artistas, mas, não raras vezes, esquecemos quem
torna possível quem brilha em palco, pelo que a paragem da actividade afectou,
sobremaneira, um conjunto de profissionais que vivem dos festivais (festas) de
verão, muitas das vezes de forma sazonal, que viram a sua situação profissional
tornar-se uma incógnita.
Nestas situações, há sempre quem não perca tempo em ajudar o
próximo. Aqui, enalteço o trabalho realizado pela União Audiovisual, na
identificação das necessidades, e no fazer chegar a ajuda, a quem dela
necessitasse.
A recuperação que importa implementar, neste sector em particular, implica, invariavelmente, financiamento público (e privado), conferindo-lhe, desde logo, outra dignidade orçamental, para desempenhar adequadamente o seu papel.
Neste sentido, devemos “preservar o essencial, melhorar o muito que ainda está aquém do desejável e inventar o tanto que ainda está por fazer”. (Tiago Rodrigues, TNDM II, 2021).
sexta-feira, 23 de julho de 2021
Debate (público)
Na passada semana, a RTP-Açores promoveu um debate (em jeito de conversa) sobre o impacto da pandemia no sector cultural do arquipélago.
O tempo foi (e será sempre) curto para falar de todas as questões
que preocupam quem trabalha neste sector. No ecrã, este espaço parece (ainda)
menor. Tal como na geografia das ilhas, a Cultura agrega múltiplos agentes, com
áreas de actuação muito distintas, sendo que, inclusive, dentro de cada uma
delas, a realidade da actividade e da dinâmica cultural é, também ela,
singular.
Importa frisar que estamos a falar de contextos muito específicos,
nem sempre compreendidos no todo nacional, e que a distância (interna) torna
mais evidente as assimetrias que, inevitavelmente, se manifestam na relação que
estabelecemos entre instituições (e artistas).
Apesar da fragilidade porque passa o sector (situação que não é
nova, mas que se adensou em dias de pandemia), existem sinais que apontam caminhos
de futuro e que importa ler, sobretudo, quando passou a ser fundamental
consolidar recursos humanos (técnicos e criativos) com morada permanente na
região.
O combate à intermitência e à precariedade, também, se faz por
aqui. Não podemos ter (apenas) estruturas (instituições) com estatuto
profissional e ignorar os artistas como profissionais de plenos direitos.
Apesar de toda a incerteza provocada pela pandemia,
existiram, igualmente, algumas conquistas, a começar, por exemplo, pelo
Estatuto dos Profissionais da Área da Cultura e pela
implementação da Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses (RTCP). Estes não são
modelos fechados, mas são um princípio.
A pandemia não atingiu todos por igual e muitos músicos (técnicos
e empresas), sobretudo estes, ficaram, de um dia para o outro, sem qualquer
tipo de rendimento.
Existem apoios, mas a fragilidade da informalidade, que afecta
muitos agentes, deste sector, tornou, em muitos casos, inacessível a sua
eficácia.
Para além das questões de ordem económica e social, imperativas
num momento com este, existem questões que se colocam ao nível da dinâmica da
actividade cultural e que põem em risco uma retoma de práticas descontinuadas
por esta paragem abrupta e que, neste momento, já soma um ano e meio.
Esta questão é ainda mais pertinente num contexto em que ultimámos
uma candidatura de Ponta Delgada, e dos Açores, a Capital Europeia da Cultura em 2027.
Para podermos garantir o amanhã, importa agir com eficácia no
contexto presente.
A suspensão da actividade artística coloca em risco um conjunto
alargado de agentes, desde filarmónicas, a grupos corais ou a escolas de dança,
pelo simples facto das regras sanitárias (que são respeitadas) tornarem
impraticável a sua prática.
Nos últimos meses, foi encetado um diálogo (com as autoridades
regionais de saúde) no sentido de tornar possível o regresso das actividade
culturais (uma aspiração legítima e em conformidade com a evolução da situação
sanitária).
Na passada quinta-feira foi, finalmente, alcançado o desfecho pretendido,
porquanto, a partir deste sábado, será possível a realização de “eventos
públicos, culturais ou desportivos (…) com público” e “em qualquer nível de
risco, apenas com limitação de lotação”.
O debate público, em torno, destas e de outras matérias de
relevante interesse cultural, não pode, nem deve ficar circunscrito a uma
agenda periférica, mas é condição fundamental da nossa existência enquanto
comunidade autónoma (que se quer cívica e socialmente participativa).
terça-feira, 6 de julho de 2021
O tempo que foge não é habitável
O país desconfinou na incerteza do dia seguinte. Não por confiança mas, sobretudo, por (imperiosa) necessidade.
Ao fim de dois meses, os casos voltaram a subir e a pressão económica (essencialmente turística) fez disparar os internamentos, sendo que (agora) a gravidade e a letalidade são (hipoteticamente) menores (e terão como alvo preferencial grupos etários mais jovens).
O número (diário) de vítimas associadas à Covid-19 passou a ser uma banalidade, remetida a nota de rodapé do boletim noticioso (à hora de jantar).
O (alto) risco mantém-se. Mas do pânico inicial (vivenciado em abril e maio do tempo que celebramos ter terminado), passamos à saturação colectiva e ao egoísmo narcisista (à porta fechada).
Ao contrário do que possamos desejar, a imunidade de grupo não (nos) garante a ausência de casos e o contágio.
Contudo, há quem considere que a vacina é a (sua) bolha de salvação (e cura eterna), contrastando com aqueles que a recusam por medo (de um destino pior do que aquele que lhes é prometido), alimentando um rol (absurdamente credível) de teorias da conspiração (facilmente propagável no scrolling da timeline).
O facto é que “uma única dose da vacina não confere um
grau de protecção tão elevado e que, por isso, é necessário que as pessoas
mantenham todos os cuidados, já mesmo depois de serem inoculadas” (Público,23/06/21).
Um dado que convém (sempre) relembrar, reiterando a
importância de aceder a informação (credível).
No arquipélago, o processo de vacinação tem permitido um
relaxamento das medidas sanitárias, em particular, nas ilhas onde foi possível
ter a colaboração da task-force (para o plano de vacinação contra a COVID-19 em
Portugal).
Por ser a maior ilha, com mais população, São Miguel tem
assistido a um incremento do processo de vacinação, sem que, no entanto, estes
dados tenham (ainda) influência na diminuição no número de casos (positivos)
que a continuam a martirizar.
O comprometimento de agir em conformidade (com as regras
impostas) é algo que cabe, a cada um de nós, cumprir, na individualização de um
acto colectivo (que todos atinge por igual).
O apelo à responsabilidade individual impõe-se mas temos de
aprender a viver com uma realidade (nova) que não desaparecerá por decreto.
Para tal, temos de equacionar a retoma progressiva, dentro
da razoabilidade possível, de todos os quadrantes da nossa vida colectiva.
Neste sentido, importa encarar com seriedade a reabertura do
sector cultural, tal como anunciado na passada quinta-feira pela Secretária
Regional da Saúde, impondo medidas que, atendendo à evolução da pandemia,
possam permitir o regresso ao(s) palco(s).
Mais do que uma excepcionalidade, é solicitado que seja
aplicado o mesmo critério que tem permitido que outros sectores económicos
possam funcionar (mesmo que o nível de risco concelhio seja elevado).
Por uma questão de equidade e coerência, parece-nos
fundamental a assumpção deste compromisso.
Simbolicamente, seria o reconhecimento que “o tempo que foge não é habitável” (Byung-Chul Han, 2019).
quarta-feira, 30 de junho de 2021
Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses
sábado, 5 de junho de 2021
Previsibilidade
Na reunião de peritos, no INFARMED, para avaliação da situação epidemiológica de covid-19, ficamos a saber que 272 pessoas foram infectadas com o vírus depois da vacinação completa e que, deste grupo, 15 tiveram que ser internadas. Felizmente, não se registaram óbitos.
Neste momento, o país tem metade da letalidade da que tinha há um
ano, num período em que tem, paradoxalmente, o dobro da incidência registada na
mesma altura (2020).
Os efeitos da pandemia mudaram e é razoável assumir, presumo, que
parte desta alteração se explica ‘lato sensu’ pelo progresso do processo de vacinação e às medidas de contenção
da pandemia.
A vacinação parece conter o processo de contágio dos mais
vulneráveis, dá-nos mais segurança e, eventualmente, algum excesso de
confiança. Com estes novos dados, fará sentido manter as medidas no seu modo
mais restritivo ou devemos alterar os critérios?
Não obstante isto, continuam a existir muitas dúvidas e incertezas
em torno da evolução da pandemia, nomeadamente, o tempo da nossa imunidade após
a vacinação, a influência das novas variantes (na sua propagação) ou até a eficácia
das vacinas.
O exemplo das ilhas Seychelles tem sido amplamente discutido,
na medida em que apesar de serem o país com a maior taxa de vacinação em todo o
mundo (70%), foram obrigados a impor, novamente, restrições para conter a
pandemia.
O tempo nesta, como em outras matérias, não será bom conselheiro,
sendo que a urgência das respostas pode traduzir-se em leituras pouco
fidedignas e comprometer a resposta científica para responder, por exemplo, à
questão: “qual está a ser o real impacto da vacinação?”.
No entanto, há quem defenda novas abordagens, sobretudo, na
alteração da “matriz de observação desta doença”, a qual “vai ter de passar
obrigatoriamente por um outro patamar que tem a ver com a gravidade e não tanto
com a simples contagem de cabeças, a contagem de casos” (Paulo Santos, professor
da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto - Público, 28/05/21).
Considero que esta deva ser a abordagem a seguir no arquipélago,
tal como preconizado nesta reunião do INFARMED, privilegiando diferentes
“patamares de desconfinamento” que correspondem à adopção de medidas
diferenciadas, numa “estratégia faseada para evitar ter de recuar, para
garantir que se ganha liberdade em segurança”.
Obviando o que hoje acontece - num movimento pendular de difícil acompanhamento
(no qual passamos de verde a vermelho no espaço de uma semana) - é necessário
atribuir previsibilidade à retoma económica e aumentar os níveis de confiança
na sociedade.
terça-feira, 22 de dezembro de 2020
A tradição (do amanhã)
Neste momento, temos um conjunto significativo de municípios que já manifestaram a sua intenção de se candidatar - Aveiro, Braga, Coimbra, Évora, Faro, Funchal, Leiria, Guarda, Oeiras e Viana do Castelo -, sendo que, na maior parte deles, já existe uma estrutura a trabalhar no projecto há, pelo menos, dois anos.
Portugal já recebeu o título de Capital Europeia da Cultura por três ocasiões, Lisboa, em 1994, Porto, em 2001, e Guimarães, em 2012. Em qualquer um destes casos, é inegável o salto qualitativo que a organização deste desafio, deu à cidade e à região que o acolheu, com claros benefícios na dinamização das estruturas criativas locais e na reafirmação da sua importância no mapa cultural, nacional e internacional. Para além, como é óbvio, dos benefícios derivados na dinamização económica, quer por via do incremento do turismo cultural, quer pela valorização patrimonial associada a um processo de revitalização urbana dos seus centros históricos.
Apesar de, em tempos idos, Ponta Delgada ter manifestado a intenção de apresentar uma candidatura, e desta estar prevista no seu Plano Estratégico de Desenvolvimento 2014-2020, desconheço se existe algum processo a decorrer e se estão, porventura, envolvidos outros municípios da região. O que sabemos é que, neste momento, a um ano do prazo desta candidatura, o tempo corre a nosso desfavor, sendo que este é um processo moroso marcado por diversas fases de avaliação e pré-selecção e cuja decisão final só será conhecida, expectavelmente, no final de 2022.
Num momento em que a cultura está, na esmagadora maioria das suas expressões, suspensa por força maior, considero que este objectivo deveria servir de movimento catalisador para repensar o sector e capacitá-lo, de uma vez por todas, como elemento fulcral no designado desenvolvimento sustentado, integrado e transversal, desta região.
Esta intenção pode, e deve, transportar um carácter utópico subjacente à própria candidatura, uma vez que este acontecimento não se extingue no acolhimento de iniciativas nas infraestruturas requalificadas ou geradas para a apresentação das propostas programadas.
Pela nossa dimensão, à semelhança de um projecto idealizado em 2010, esta realização deverá estar alicerçada na região como um todo ou estar pensada, de forma mais pragmática face ao calendário, à escala da ilha.
O carácter diferenciador do posicionamento geográfico (ultra)periférico, sedimentado pela confluência cultural gerada pelo encontro de culturas, que aqui se unificaram, será motivo mais que suficiente para congregar a comunidade artística e construir uma sólida candidatura.
Mais do que um mero instrumento de promoção turística, que, também, o é, esta ambição será, sobretudo, uma forma de reposicionamento daquilo que queremos ser no futuro, de revalorização das idiossincrasias, muitas das vezes motivo de discórdia, mas que nos definem como comunidade.
Por estes dias, o apoio à cultura passou à condição de emergência. A contemporaneidade, hoje, será a tradição do amanhã.
segunda-feira, 23 de novembro de 2020
A Cultura é segura
Não obstante, com a proliferação das cadeias de transmissão, inevitavelmente, com maior incidência em São Miguel, foi implementado um conjunto de recomendações que restringem a actividade de múltiplos sectores, todos eles em luta permanente contra as enormes adversidades e contingências a que as medidas sanitárias obrigam.
Nos Açores, para salvaguarda da saúde pública, foi decidido que as actividades culturais, promovidas e acolhidas por instituições públicas, deviam ser suspensas até 30 novembro.
Em território continental, apesar da situação epidemiológica estar distante daquela em que nos encontramos – quer nos números, quer na pressão exercida sobre o sistema de saúde –, a programação cultural tem sido mantida e adaptada às limitações inerentes, por exemplo, ao estado de emergência declarado, nomeadamente, com as alterações nos horários de início dos espectáculos, para respeitar o recolher obrigatório, que vigora em numerosos concelhos do país.
A defesa da saúde (pública) tem sido uma prioridade do governo que agora cessa funções e será, com certeza, do que lhe irá suceder.
Respeito as decisões que têm sido tomadas, mas questiono a pertinência de encerrar um sector que tem sido fortemente fustigado e limitado em todo este processo, quase sem alternativas de manutenção da sua actividade, o qual cumpre com todas as normas sanitárias impostas, desde o distanciamento físico, à higienização dos espaços e ao uso obrigatório de máscara, durante todo o tempo em que decorre um espectáculo. Qual a diferença que assiste à abertura de uma sala de espectáculos, de um museu ou de um restaurante? A segurança com ou sem máscara?
Com isto não procuro colocar em confronto sectores da economia – todos procuram manter a sua actividade da melhor forma possível, com o intuito de chegarem com vida à outra margem, num período pós-covid.
Mas, a cultura não pode ser encarada como dispensável, nem o encerramento de uma instituição cultural deve ser entendido como normal.
A criação artística é, e tem sido, essencial neste ano atípico, que marcará, indelevelmente, a(s) nossa(s) vida(s), fazendo com que a negritude dos dias possa ter um horizonte de esperança.
Importa, por isso, mais do que nunca, continuar a promover o acesso às artes, ao património e à cultura, seguindo, e fazendo cumprir, todas as orientações emanadas pelas autoridades de saúde.
Este é o tempo de apoiar (permitindo o trabalho) quem vive e trabalha na cultura, nas artes e no património, encarando este universo como uma necessidade vital, como parte integrante e contributiva para o tecido económico e social, e não como uma matéria indiferenciada de que podemos prescindir.
Na luta contra a indiferença e a menorização com que, por regra, a cultura é encarada, importa frisar o seu papel como elemento nuclear na educação da sociedade como um todo e no fomento de um exercício complementar para alcançarmos, desejavelmente, uma cidadania mais esclarecida, mais responsável e que melhor interprete as dinâmicas sociais da comunidade onde se insere.
Por estas razões, e por todo um conjunto multifacetado e alargado de áreas artísticas e profissionais, é importante afirmar que a Cultura é segura.
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sexta-feira, 6 de novembro de 2020
A festa da democracia?
sexta-feira, 9 de outubro de 2020
Ignorada
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sexta-feira, 2 de outubro de 2020
Viver (Açores)
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quarta-feira, 23 de setembro de 2020
Como pode e deve o dinheiro que Portugal vai receber da União Europeia ser aplicado?
A economia global implica uma competição de igual para igual, não vamos lá com lamento (e idiossincrasia) mas com conhecimento, pelo que urge incrementar o investimento na melhoria do acesso, qualidade e modernização da educação (e formação profissional).
A cultura (em estreita articulação com a educação) deve substituir o hardware pelo software através de um processo de mediação para o conhecimento e fruição artística, com o intuito de gerar uma cidadania mais esclarecida, mais crítica e, nesta medida, mais participativa (democraticamente).
A Universidade dos Açores assume, neste propósito, um papel determinante. Contudo, tem de (saber) sair dos muros da academia para participar (activamente) no desenvolvimento da sua região, em áreas onde se pode distinguir (positivamente) das suas congéneres, principalmente, pela situação (privilegiada) que ocupa na economia do mar, ambiente e alterações climáticas.
Apesar de estarmos no centro de tudo (e em simultâneo, no meio de nada), devemos capitalizar os benefícios ambientais endógenos para afirmar os Açores como um exemplo (global) de boas práticas na gestão do território e da sustentabilidade energética.
A pegada ecológica dos produtos que produzimos (agrícolas e industriais) terá um peso cada vez maior na consciência social dos consumidores, pelo que urge alterar práticas, transformando o quantitativo em qualitativo (através da atribuição de uma personalidade exclusiva à nossa produção de pequena escala).
Os transportes (passageiros e mercadorias) são vitais para a nossa economia mas devemos pugnar por inverter a nossa balança comercial, exportando saber (ciência, digital e intelectual) e produtos de valor acrescentado (raros e exóticos).
É fundamental agregar investidores e marcas compagináveis com o destino turístico que afirmamos ser, nunca através de parcerias de baixo custo que nos vendem como um produto indiferenciado.
Esta é uma oportunidade que implica o futuro de várias gerações, pelo que será fundamental, a bem de todos, responsabilidade (e critério) no uso deste dinheiro.
* Publicado na edição de 17/08/20 do Açoriano Oriental
quinta-feira, 17 de setembro de 2020
A natureza (desigual) do que está em jogo
Para determinadas pessoas, o desconfinamento significa(rá) que tudo está bem (e o pior já passou), existindo, acredito, um excesso de confiança pelos resultados obtidos na contenção dos números do vírus. O controle de passageiros à chegada (aos Açores) faz com que (felizmente) não existam muitos casos novos, a vida social é realizada, na maior parte das vezes, ao ar livre na esperança (cega neste mito urbano) que o calor neutralize o vírus ou, como já ouvimos, que “isso não pega em gente nova” (RTP-Açores, 25/07/20).
O sector do turismo será aquele que (por estes dias) acusa com mais intensidade o decréscimo abrupto da actividade, depois de anos a subir a dois dígitos. Era expectável um abrandamento e a estabilização do crescimento. Mas nada, nem ninguém previu um evento desta magnitude.
De forma paradoxal, substituímos a discussão sobre a pressão da amálgama de turistas, pela urgência do seu regresso, principalmente por parte de quem deles vive. Perante o carácter extraordinário deste abalo económico, nesta e outras áreas complementares, não existirá outra solução que não o apoio estatal (e regional) para esta suspensão temporária de muitas empresas que não conseguem trabalhar (ou cuja viabilidade não é possível com o actual volume de negócios).
A pandemia chegou sem aviso prévio, pelo que não é plausível conceber uma reabertura nos moldes em que ela existia, com a agravante desta crise ser global, ao contrário da que a antecedeu, e com repercussões gravosas, sociais e económicas, nos principais mercados emissores.
Este tempo tem vindo a agudizar as desigualdades pré-existentes (à Covid-19), revelando a sintomatologia autocentrada de uma sociedade que vive (apenas) para si própria, a qual tem sido incapaz de enfrentar “sem desespero” o futuro, em particular, quando este se apresenta “ameaçador e incerto” (Gilles Lipovetsky, A Era do Vazio).
A tendência crescente de comunicarmos (online) com quem partilha das mesmas opiniões (e com direito a filtro do algoritmo) tem degradado “aspectos fulcrais do ecossistema relacional e social como a tolerância, a abertura, a reciprocidade, a paciência-espera, a deferência e responsabilidade, sem os quais não pode haver verdadeira empatia, democracia e humanidade” (Paulo Pires, 21/7/20).
A humanização dos nossos actos e de quem (supostamente) administra a justiça em nome do povo, não me parece compaginável com a extrapolação (anacrónica) de uma situação extraordinária resultante de uma ocorrência circunstancial (e de absoluto gozo egoísta).
Tal como referiu, e bem, Paulo Simões no seu último editorial (Açoriano Oriental, 02/08/20): “Afirmar que o uso obrigatório de máscaras ou que o isolamento profilático são medidas castradoras das liberdades individuais é ofender a memória de todos os que efetivamente se viram privados dos seus direitos, liberdade e garantias nos tempos da ditadura! É ofender todos os que ainda hoje vivem sob o jugo de regimes autoritários ou ditatoriais, onde, aí sim, é preciso pedir licença para respirar. A lei é para ser cumprida, mas a Lei é “um ser vivo” que cresce, evolui, adapta-se. Esgrimir o argumentário legal para justificar o incumprimento de normas cujo objetivo único é a proteção de todos é não querer compreender a natureza do que está em jogo.”
O que é estranho, é que a compreensão de tudo isto seja, aparentemente, estranha para quem tem o dever de o superintender.
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sexta-feira, 7 de agosto de 2020
Desvinculação (unilateral)
Nestes últimos cinco anos, assistimos ao incremento (sem paralelo) de um sector estigmatizado pela sazonalidade, cuja evolução (recente) averbou o inimaginável: dores de crescimento perante o fluxo (incondicional) da oferta.
Fruto do investimento realizado na promoção (externa), o arquipélago passou a ser referência em múltiplas publicações internacionais e o exemplo para as melhores práticas de gestão ambiental.
Nem tudo será perfeito, como nada o é. Contudo, será importante valorizar o que outros sinalizam como diferenciador, na medida em que nos flagelamos com as nossas insuficiências (à espera que alguém nos resolva o problema), revelando alguma relutância em dar boa nota daquilo que temos de positivo.
O investimento externo é (hoje) premente, através do qual assistimos à multiplicação de projectos qualificadores da oferta turística, um pouco por todas as ilhas dos Açores.
Se antes da pandemia discutíamos o aumento da carga turística em locais sensíveis, ou a nidificação de projectos hoteleiros sobredimensionados e descontextualizados da realidade geográfica, social e económica, no momento actual, o dilema reside no reduzido número de turistas que aporta à região, com tudo o que isto implica, a começar pela dificuldade em resistir ao inverno, sem que haja um verão que o compense.
Este é um tempo extraordinário e paradoxal, o que hoje é verdade, amanhã será desmentido.
O confinamento à luz do(s) ecrã(s) fez as pessoas acreditar num mundo melhor, mais justo e solidário.
O regresso à realidade suplantou a intenção, no qual voltamos à(s) rotina(s) e à determinação em manter tudo como era dantes.
A cada dia que passa verificamos que não é, nem será assim. A inevitabilidade das evidências leva-nos a resistir (e a ignorar a mudança).
Neste processo de transição, o estado e as instituições públicas são vitais para a manutenção de sectores importantes da nossa vida colectiva (Cultura, inclusivamente). E para - no meio deste mar de incerteza(s) - transmitir confiança às populações, garantindo “medidas de emergência” e um programa que “garanta a estabilidade e sobrevivência futuras” (Gonçalo Riscado, 08.07.20).
E porque no dia em que existir um tratamento (ou uma vacina) e retornarmos, de facto, a uma coexistência normal (sem ser higienizada), queremos que tudo fique à nossa disposição e daqueles que nos procuram como destino turístico.
O que não pode acontecer é a desvinculação unilateral de uma entidade pública, nomeadamente, a Câmara Municipal de Ponta Delgada que reduziu, de forma inqualificável, os apoios concedidos aos agentes culturais do concelho, retirando o tapete a muitos projetos que subsistem por intermédio da previsibilidade veiculada (e aprovada) pelo Regulamento Municipal de Apoio a Atividades Culturais.
Esta atitude não é compaginável com um período do qual se exige cooperação e responsabilidade dos gestores da coisa pública.
Desvirtuar as pessoas que dependem (quase em exclusivo) deste sector de atividade, é não compreender que existem pessoas e empregos depois do espectáculo acabar.
Será este um passo no processo de candidatura a Capital Europeia da Cultura?
* Publicado na edição de 24/07/20 do Açoriano Oriental
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sexta-feira, 10 de julho de 2020
Irrefutável
Em paralelo, somos confrontados com indicadores que nos dão contam que os números não estabilizaram em território nacional e que existem várias cadeias de transmissão activas (do vírus), sobretudo, na região da Grande Lisboa.
O desconfinamento era (e é) uma inevitabilidade, já todos o sabíamos. Mas o mesmo não é dizer que o pior já passou quando são mais as dúvidas do que as certezas. E todos os dias, a nível global, são registados recordes de mortes e novos infectados.
Parte do problema está na percepção (pela população) da mensagem transmitida pelas entidades oficiais, a qual tem sido, repetidamente, desacreditada, na medida em que, por exemplo, no início do período de confinamento não era preciso usar máscara, para mais tarde ser assumido que sim.
A intenção tal como foi comunicada, pareceu errática. Os efeitos não se fizeram esperar e, neste momento, passamos da categoria ‘exemplar’, na contenção e no combate à pandemia, para o nível ‘indesejado’ (e impedidos de viajar para diversos países europeus).
No caso dos Açores, temos sido mais cautelosos neste processo de ‘regresso à normalidade’, o qual tem vindo a efectivar-se a um ritmo próprio e desfasado do calendário nacional.
Não dispondo de toda a informação relativa à complexidade da execução, e aplicabilidade, de um plano sanitário, num território disperso e fragmentado, em que os meios disponíveis são díspares, parece-me que esta tem sido uma atitude previdente e tem surtido bom efeito (mesmo e apesar de todas as questões que possam ter corrido menos bem).
Este tempo tem demonstrado o quão importante significa ter um estado forte e com capacidade de resposta.
As instituições públicas (da Saúde à Cultura) implicam um investimento continuado. Não podemos partir do princípio que está tudo feito e que não é necessário investir novamente, sendo que parte deste (re)investimento não é (exclusivamente) material. A (melhor) capacitação do sector público requer meios humanos motivados e com recursos ao seu dispor.
Nada tenho contra a iniciativa privada e concordo, em absoluto, com os incentivos públicos atribuídos às empresas (do pequeno investidor ao grande grupo económico).
Contudo, este apoio não pode ser realizado às custas de um desinvestimento na administração pública, nem pela depreciação dos seus quadros e das suas condições de trabalho.
O absurdo da situação que todos experienciamos, tem sido a prova irrefutável de que necessitamos de um Sistema Nacional (Regional) de Saúde eficaz e com elevado sentido de compromisso.
A este respeito, li uma entrevista ao médico Roberto Roncon, coordenador do Centro de Referência de ECMO do Centro Hospitalar Universitário de São João, o qual está a trabalhar há três meses consecutivos, sem folgas, e que vai ter, finalmente, quatro dias de férias com a família (mas sem desligar o telefone).
Retive esta passagem. “Dizer que o SNS é muito importante mas fazer declarações que dão a entender que o que nós fizemos não foi mais do que a nossa obrigação não é verdade. O que nós fizemos não é normal, está para lá do que é previsível. O que nós estávamos à espera era de um mínimo reconhecimento” (Expresso, 24 junho 2020).
Ninguém é negligenciável, em particular, todos os profissionais que todos os dias se confrontam com uma doença da qual pouco ou nada se sabe e que, ao contrário do que se possa pensar, não desapareceu.
Pede-se, responsabilidade e bom senso.
sexta-feira, 19 de junho de 2020
Resiliência (comunitária)
O mundo continua pandémico mas, ao contrário das primeiras semanas de confinamento, as notícias sobre o desenvolvimento das investigações sobre tratamentos e o progresso no caminho para uma vacina são, actualmente, ruído envolto em polémica e contradição.
Num período em que muitos contestam as rigorosas medidas de confinamento devido à Covid-19, ficamos a saber que um estudo do Imperial College (Inglaterra) afirma que podem ter sido evitadas 3,1 milhões de mortes em 11 países europeus, na medida em que o “fique em casa” teve um “efeito substancial” e ajudou a baixar a taxa de transmissão da infeção (Rt). O estudo não inclui Portugal mas não será por isso que deixa de ser credível.
A crise económica que entretanto se instalou leva (previsivelmente) a que o clima contestatário suba de tom. No entanto, importa ressalvar que perante a inexistência de dados esta é, foi e continua a ser a melhor arma para travar o vírus. E se, entre nós, a mortalidade associada ao Covid-19 tivesse tido números mais expressivos (com todo o respeito por todos aqueles que perderam a sua vida), qual seria o discurso de quem contesta as restrições do confinamento, a morte do Governo? Provavelmente.
A procura por uma causa externa que justifique o que se passou, ou a imputação da culpabilidade para um organismo tangível, é um argumento tão disseminado como a própria pandemia.
Neste capítulo, a Organização Mundial de Saúde (OMS) passou a ser arma de arremesso para justificar a impotência das nações na luta contra um inimigo invisível para o qual não há cura.
O discurso populista (reacionário e xenófobo) tomou conta da realidade (virtual e concreta). Mas se há algo positivo neste vírus, permitam-me a ironia, é a de ter feito cair a máscara a muita gente.
A desigualdade (social e económica) não é (apenas) aparente, por estes dias a contingência sanitária tornou-a saliente, veio para a rua e está à flor da pele.
Desenganem-se aqueles que consideram que a resolução económica para os problemas gerados pelo confinamento está circunscrita a estes nove calhaus, como por vezes se ouve por aí. O incremento do turismo, como dos restantes sectores económicos, será gradual e dependerá, em larga medida, da confiança dos países emissores/consumidores.
A resposta à crise depende (inexoravelmente) da nossa resiliência e do nosso sentido de comunidade, pois “sem compaixão e fraternidade fortalecem-se apenas os muros e aliena-se a possibilidade de lançar raízes” (José Tolentino de Mendonça, 10 junho 2020).
Paralelamente, temos de garantir os meios financeiros necessários (e fundamentais) para a retoma consolidada da actividade económica, por intermédio, como já foi noticiado, de uma intervenção substancial da União Europeia. A Região tem feito o que lhe compete no complemento (e reforço) às medidas de apoio nacionais mas o tecido económico (e social) exige um reforço dos recursos que temos ao nosso dispor.
A pandemia é global mas as diferenças (culturais e geográficas) não se dissiparam, apenas o problema aparenta ser partilhado.
Nesta semana, voltamos a identificar mais um caso positivo entre nós. Pelas razões que todos conhecemos, selar o espaço aéreo não é uma opção.
Nem me vou dar ao trabalho de esgrimir argumentos sobre o conceito de (des)continuidade territorial, nem sobre a urgência da discussão constitucional (e da extensão dos poderes da Autonomia que nos assiste). Não deprecio a relevância da matéria, apenas considero que há prioridades.
Esta é a prova que evidencia a importância de testar quem aterra. Não vale a pena diabolizar a coisa, e como já todos percebemos, vamos ter de aprender a lidar com isto (dentro da normalidade possível). E sim, estamos (melhor) preparados, não podemos é continuar paralisados. Não é (nem será) bom (para ninguém).
* Publicado na edição de 12/06/20 do Açoriano Oriental
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quarta-feira, 3 de junho de 2020
Ruído (excessivo)
O mundo intenta lidar com um problema do qual ninguém tem memória nem sequer é comparável, nem há verossimilhança possível, por exemplo, com outras crises económicas.
O infortúnio (global) que se perspetiva no presente imediato (e no próximo futuro) resulta da urgência sanitária para preservação das respostas dos sistemas de saúde. Neste sentido, fruto deste cuidado e mitigação, é possível implementar medidas de apoio (incentivo comercial e de confiança dos consumidores) para um regresso ao (novo) normal (seja lá o que isso for).
Não partilho da ideia romântica (que se propagou durante os dias de quarentena) de que no final disto tudo (cujo desfecho é incerto) ia #ficartudobem. Não vai.
Nem toda a população passou (e está a passar) por este tempo da mesma forma, na medida em que há quem não tenha perdido rendimentos e está ‘entediado’ com o confinamento (forçado), noutro sentido, temos empresários e empreendedores que fecharam e perderam a sua carteira de negócios (de um dia para o outro) e assistimos a muitos trabalhadores (em suspenso) na incógnita de saber se vão (ou não) regressar ao trabalho.
No meio deste pandemónio há sempre quem encontre mais-valias e perspective oportunidades. A nova fórmula dos gurus da economia (alimentadores de esperança virtuosa perante o desespero alheio).
Parte da nossa economia existe (e subsiste) devido ao nosso (re)encontro comunitário, do turismo à cultura. Sem um regresso a estas práticas que nos definem como indivíduos, e como sociedade, dificilmente haverá normalidade, possível (ou forçada).
E, contrariamente ao que muitos poderão ter considerado, há coisas que nunca irão mudar. Uma parte (significativa) deste processo de desconfinamento não acontece por uma questão de saúde mas pelo regresso (necessário) da economia.
Se há coisa que (a cada dia que passa) nos parece evidente, é a de que temos de aprender a (con)viver com o vírus, com as novas regras de higienização e de distanciamento, sendo “impressionante o número de pessoas que esperam que uma catástrofe seja a oportunidade para resolver problemas” e que de forma visionária (e magnânima) proponha que se altere (radicalmente) “o modelo de sociedade”, substituindo “os valores vigentes” e alterando “os padrões de consumo.” (António Barreto, 19/04/20).
Não acredito em processos de purificação colectiva, nem no oportunismo gerado por esta pandemia para regenerarmos a humanidade. No país mais poderoso do mundo, temos o exemplo maior na (pior) gestão de uma crise (sem precedentes) através da desinformação, do divisionismo e no fomento do ódio.
Este é momento em que (aparentemente) somos todos especialistas (no conforto da timeline), local privilegiado para a disseminação de posições extremadas e de (múltiplos) ódios. Neste tempo extraordinário, a única certeza que temos é a de não ter (ou ninguém deter) certeza(s) sobre (quase) nada.
Perante o ruído (excessivo) dos ecrãs e do lead noticioso, este deveria (também) ser um tempo de reflexão, para “memória futura e “lucidez no presente”.
E para quem governa na incerteza dos dias, entre a coragem e a loucura, é necessário “uma boa dose de humildade” para benefício de “novos processos de aprendizagem que possibilitem outro tipo de abordagem à realidade” (Rui Torrinha, 24/05/20), com vista à sua transformação e calendarização (futura) no retomar da nossa vida colectiva.
* Publicado na edição de 29/05/20 do Açoriano Oriental
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quinta-feira, 14 de maio de 2020
Cultura (em tempo de pandemia)
Temos assistido a um conjunto significativo de iniciativas solidárias para acudir aos menos protegidos, cuja precariedade é mais evidente no modelo económico (e social) vigente, o qual fragiliza quem está mais vulnerável.
Por outro lado, proliferam as teorias da conspiração e a partilha de factos falsos e erróneos que disseminam o ódio (e o medo) pelo outro.
A incerteza dos dias alimenta a oportunidade dos populistas que navegam no éter da timeline à procura de um lugar no pódio do soundbite, no qual “as redes sociais, espelho ampliado e distorcido da realidade, estão cheias de sinais de angústia e ressaca” (Cristina Fernandes, Revista Electra nº 8).
Este não é o tempo de procurar inimigos sem rosto, nem reivindicações anacrónicas destituídas de sentido e representatividade. E com isto não estou a dizer que está tudo bem. Vivemos numa democracia, conquistamos o dever de ser críticos e de manifestar a nossa opinião com absoluto sentido de responsabilidade.
Em dias de pandemia passamos (ainda) mais tempo em redor dos ecrãs, inertes à luz que emana dos vários dispositivos ao nosso dispor.
A sedução é evidente. Perante o imobilismo passamos a socializar, quase em permanência, em formato digital.
Mesmo os utilizadores mais relutantes renderam-se às evidências. E não se iludam, há mesmo um admirável mundo novo que veio para ficar.
Os números dos serviços ‘on demand’ têm atingido valores nunca dantes atingidos e que só se explicam pelo aumento exponencial do consumo de conteúdos (comunicações) em casa.
A título de exemplo, o Barómetro de Telecomunicações da Marktest (28/04/20) indica que são, agora, mais de dois milhões os portugueses que subscrevem plataformas de entretenimento em streaming. E que registou, por exemplo, entre Fevereiro e Abril, mais 800 mil subscritores de serviços como a Netflix ou a HBO.
Este ‘novo normal’ tem levado a concessões sem paralelo na indústria cinematográfica, sendo possível assistirmos, na cerimónia dos Óscares do próximo ano, à nomeação de filmes que foram exibidos (apenas) em ‘streaming”.
Resta saber se esta é uma concessão temporária ou se veio para ficar. Só o mercado o dirá.
Apesar do beneplácito pela profusão da disponibilização de conteúdos culturais/informativos online, há que sublinhar que existem pessoas por detrás do ecrã e que o produto do seu trabalho faz-nos “sentir vivos” mas cuja profissão - à semelhança de muitos outros sectores essenciais que têm sido valorizados por estes dias, é “mal renumerada, com pouco reconhecimento social, mas também (…) alvo de aplausos.” (Vitor Belanciano, 03/05/20).
É importante que a emergência deste estado de coisas não conduza à calamidade do sector cultural, um dos primeiros a fechar e, muito provavelmente, um dos últimos a abrir, apesar do Plano de Desconfinamento apresentado esta semana. É uma área resignada a sucessivos “financiamentos insuficientes” (Cíntia Gil, 10/04/20), pelo que importa, por isto, não cair na tentação de aplicar um corte (cego) nos apoios aos artistas e no financiamento das instituições culturais.
O futuro da cultura em tempo de pandemia dependerá, também, da prioridade que lhe for consignada.
* Publicado na edição de 04/05/20 do Açoriano Oriental
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domingo, 3 de maio de 2020
Atenção (e importância)
Na semana passada a Presidente da Comissão Europeia - Ursula Von der Leyen, apresentou um "Roteiro europeu conjunto para o levantamento das medidas de contenção da covid-19", que define um conjunto de princípios orientadores para a retoma gradual da atividade económica.
Ficamos a saber que existem previsões para múltiplos cenários mas não iremos passar à “normalidade” de um dia para o outro, a aglomeração de pessoas será realizada de forma faseada, evoluindo progressivamente, existindo a intenção de privilegiar a reabertura de escolas e universidades, lojas, cafés e restaurantes. Para o final, ficará o retomar dos eventos públicos (festivais e concertos, por exemplo).
Ninguém questionará, acredito, este conjunto de recomendações mas não deixa de ser simbólico que a Cultura - ou tudo o que directa e indirectamente está relacionado com actividade artística - surja neste alinhamento (e noutras situações) na última posição.
Foram um dos primeiros serviços a ser encerrados e serão, muito provavelmente, os últimos a reabrir.
Neste período de paralisação (que todos compreendemos e concordamos), como será o acesso do público a salas de espectáculo e recintos fechados? São questões que, para já, carecem de mais dados (e tempo) para que se possa ter ou dar um resposta assertiva.
O sector cultural (e criativo) é frágil e demasiado fragmentado (nas suas variadas formas de actuação) mas é consensual que a Cultura será, neste período, um dos sectores mais afectados pelas medidas de contenção devido, em particular, ao encerramento de teatros, salas de concertos e outros espaços públicos.
A resposta pública tem apontado várias medidas de apoio para mitigar a perda de rendimento dos profissionais mas é necessário ter em linha de conta a especificidade de um sector económico com regras e dinâmicas próprias, nem sempre enquadradas com um contrato de trabalho, onde a maioria dos trabalhadores é independente, com cariz precário e intermitente, e sem o garante da protecção social que se exige num tempo como este.
Os artistas (técnicos e outros trabalhadores do sector cultural) não são indispensáveis para o combate à pandemia mas o resultado do seu trabalho tem sido vital nestes dias de confinamento social.
Neste período transitório é necessário assegurar que são tomadas medidas que abonem a sobrevivência do sector cultural num cenário pós-covid.
Continuam a existir muitas perguntas sem respostas mas a percepção dos profissionais deste meio é de que “a relação do público com os espectáculos vai sofrer uma mudança”. A começar pela bondade das actuações online, pois “ao contrário de toda a economia, os dividendos e lucros das plataformas digitais estão a subir”. (Pedro Wallenstein, presidente da GDA, 10/04/19).
Este parece-me um dado que importa estudar e analisar em profundidade, qual o impacto, por exemplo, na indústria dos espectáculos de toda esta exposição de conteúdos online?
Esta tem sido a solução encontrada por muitos artistas e produtores impedidos de actuar em espaço público. Fazem-no agora (gratuitamente) nas suas plataformas online.
A questão que todos colocam é a de “não é claro o modelo de negócio capaz de monetizar este tipo de eventos. (…) Como emprestar sustentabilidade e rentabilidade a estes concertos à distância?” (Miguel Cadete, 16/04/20).
A resposta europeia ao sector cultural tem sido, ela própria, desigual, com uma grandeza e impacto directamente proporcional à sua latitude.
Neste sentido, seria importante não fragilizar, sobremaneira, e de forma fatal, um sector que procura ser reconhecido pelo Estado como merecedor da atenção (e importância) que (aparentemente) tem sido dada por todos os que estão (agora) em casa.
* Publicado na edição de 20/04/20 do Açoriano Oriental
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quarta-feira, 29 de abril de 2020
A excepção (dos factos)
A percepção do que nos é dado a ver (ler) é a de que nada será como dantes e (ainda) sabemos muito pouco de como as coisas se irão processar daqui para a frente.
O tempo é de incerteza e de muitas perguntas sem resposta, a que se junta um distanciamento social (quase obrigatório), forçado pela emergência de um “estado de excepção” (Giorgio Agamben, 2003).
A internet nunca foi tão importante, como agora, na manutenção da normalidade (possível). E por possibilitar a proximidade social determinada por um período de distanciamento geográfico que nos impossibilita uma interação convencional mas que tem permitido manter, em padrões minimamente aceitáveis, parte da economia (e da nossa vida profissional) e o acesso a serviços essenciais, sejam nas plataformas públicas, na aquisição de produtos alimentares, no entretenimento ou na informação.
Nesta experiência civilizacional, a dependência de uma boa rede de comunicações passou a ser vital e, sem dramatizar, um factor de sobrevivência.
A falta de uma estratégia comum no combate à pandemia é, muito provavelmente, o maior falhanço (político) europeu (e mundial) após a segunda grande guerra. Perante o estado de emergência em que nos encontramos, seria exigível - a quem governa ou dirige as maiores instituições globais - outro tipo de posição perante a necessidade imperiosa de agir para a salvaguarda do bem comum.
Na eminência de um colapso social e económico, poderá a União Europeia procrastinar indefinidamente tudo o que não é adiável?
A somar a tudo isto existe a preocupação - de alguns sectores da sociedade - com o “maior controlo social” - imposto pelas limitações à liberdade de circulação dos cidadãos e de vigilância digital, na medida em que este pode colocar em causa o bom funcionamento da democracia representativa e das instituições, uma vez que “indivíduos condicionados pelo pânico da mera sobrevivência são alvos ideais do poder” (Slavoj Zizek, 12/04/20). Não é o nosso caso (mas exemplos não faltam).
Num contexto tão exigente, como este, é fundamental o acesso à informação segura e fidedigna. Quem a garante? A crise na imprensa não tem estado imune ao processo de transformação digital mas vive num aparente paradoxo, na medida em que as suas notícias nunca foram tão lidas como agora, “sem que esse serviço público seja capaz de gerar receitas suficientes para garantir a sua sustentabilidade financeira” (Manuel Carvalho, 07/04/19).
A discussão sobre o financiamento da imprensa não é de hoje e tem múltiplas leituras, quer seja na concordância com o apoio público, quer por quem o conteste na defesa da liberdade editorial sem eventuais amarras à subvenção pública, sendo certo que a sociedade de leitores deverá pagar pelos conteúdos que quer ler. Algo que, como sabemos, nem sempre acontece.
Para um maior escrutínio da gestão da coisa pública é forçoso que haja uma sociedade mais esclarecida e isso só se consegue com “uma cultura das notícias”, sujeita “ao trabalho de edição e contexto de alguém que é suposto ter uma carteira profissional para exercer jornalismo”.
No entanto, alguns jornalistas facilitam o “estatuto noticioso” às “redes sociais”, sem a mediação e edição jornalística, provocando, intencionalmente ou não, uma (in)evitável “erosão da profissão feita pelos próprios profissionais” (José Pacheco Pereira, 02/01/16).
Nestes 185 anos do Açoriano Oriental, apesar de todos os desafios e dificuldades com que nos confrontamos, reitero a confiança nos seus profissionais para que continuem a alimentar a imprensa regional nos Açores com a “informação baseada em factos e não na manipulação sensacionalista dos factos” (Amílcar Correia, 11/4/20).
* Publicado na edição especial de aniversário do Açoriano Oriental (18/04/20)
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