sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Dignidade

Em tempo de balanço do ano que agora finda, recupero as palavras de indignação dos agentes culturais açorianos a propósito do atraso dos pagamentos do regime de apoios às atividades culturais: “Nunca, mas nunca, em tempo algum, houve um atraso tão prolongado para saírem os resultados e com consequências tão nefastas para os agentes culturais” (…) “Há muita gente que não recebeu rigorosamente nada” (…) “No caso das estruturas profissionais, se não fosse o Governo central não havia trabalho feito, porque não havia como as sustentar” (…) “Normalizou-se um discurso de que um atraso não é um problema, que não é tão mau, que foi apenas mais tarde um mês ou dois do que no ano anterior. Isto é ridículo, é uma ofensa” (…) “É o pior ano de que há memória e não vale a pena negar”. 

Os desafios sempre existiram, mas nunca a sobranceria e o desinteresse (da tutela governamental) foram tão evidentes (e gravosos). 

No próximo ano existe a oportunidade de alterar este estado de coisas e conferir à Cultura, e a quem nela trabalha, a dignidade que merecem, como um pilar de desenvolvimento (social e económico) e de afirmação identitária.

[+] publicado na edição de 29 dezembro 2023 do Açoriano Oriental

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Novo ciclo

Apesar da pandemia a Cultura tem demostrado capacidade em recuperar da adversidade por que passou, expressa por um aumento no emprego cultural (4,5% na União Europeia e 5,4% em Portugal), estimando-se que o número de pessoas empregadas seja de cerca de 200 mil, correspondendo a 4% da força de trabalho do país.

De igual modo, os números associados à fruição cultural denotam uma retoma sustentada na realização de espectáculos ao vivo, no número de visitantes nos museus ou no investimento dos municípios em actividades culturais, com um impacto significativo nas receitas do sector.

Desengane-se quem considere que isto se faz sem investimento público, e sem políticas públicas, devidamente orientadas e munidas da correspondente rubrica orçamental.

Em sentido contrário estão os Açores, em termos de (ir)relevância governativa, manifestada pela ausência (de estratégia) e pela exiguidade financeira, tanto nos organismos próprios como nos recursos alocados à criação artística.

O futuro exige um novo ciclo que altere este estado de coisas, colocando a Cultura como eixo referencial da vida pública no arquipélago.

[+] publicado na edição de 15 dezembro 2023 do Açoriano Oriental